Quase metade das crianças até aos seis meses foram alimentadas com leite materno, o valor mais alto desde que há registos
O ano de 2025 revelou uma realidade distinta da registada até agora quanto à alimentação de bebés até aos seis meses. E isto porque, o Relatório Anual do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), a ser apresentado nesta quinta-feira, indica que 46,9% das crianças de um ano foram alimentadas exclusivamente com leite materno até aos seis meses, o valor mais elevado registado até à data.
Para a coordenadora do programa, Maria João Gregório, este resultado “é muito positivo, porque ao longo dos últimos anos só havia registo de valores que rondavam os 30%”, mas, destaca, “há que interpretar estes dados com alguma cautela, porque, provavelmente, refletem uma combinação de diferentes fatores”. Ou seja, pode existir uma melhoria real no aleitamento materno, mas também pode significar uma melhoria no registo deste indicador nos Cuidados de Saúde Primários. Seja como for, sublinha a técnica, ”o resultado é positivo”.
Outra boa notícia neste relatório tem a ver com o imposto sobre as bebidas açucaradas, que Maria João Gregório também elogia dizendo mesmo que “é o exemplo concreto sobre como se devem implementar medidas para modificar o ambiente alimentar e produzir resultados”.
Os números não enganam. De 2017 a 2025, “a proporção de bebidas abrangidas pelo escalão mais elevado do imposto, correspondente a um teor de açúcar igual ou superior a 8 g/100 mL, diminuiu 45,1%”, sublinha a coordenadora do programa naciona, acrescentando: “A medida foi um incentivo muito forte à reformulação destas bebidas e tem tido um efeito contínuo. Por exemplo, de 2024 a 2025 verificou-se também uma redução de 10,2% na produção de bebidas com 5/g. ou mais de açúcar por 100/ml”. Aquilo que muitos diziam há anos sobre esta medida vir a ter resultados apenas na sua dimensão fiscal, não se confirma. Os provam que houve também “uma alteração na oferta. A indústria alimentar reformulou os seus produtos e, neste momento, há menos bebidas nos escalões com maior teor de açúcar”.
São precisas medidas que ajudem portugueses a terem uma alimentação saudável
Questionada sobre se tais indicadores são sinal de que os portugueses têm cada vez mais uma alimentação saudável, Maria João Gregório diz que uma coisa são estes “sinais positivos e importantes”, outra é a alimentação das crianças e dos adultos, que continua a ser inadequada.
A diretora do PNPAS lembra mesmo que “mais de 50% dos adultos portugueses têm excesso de peso e cerca de uma em cada três crianças também”, sendo que “os hábitos alimentares ainda são o quinto fator que mais contribui para a perda de anos de vida saudável no nosso país”. Portanto, “ao mesmo tempo que temos medidas que estão a produzir resultados positivos, temos hábitos que nos levam ao excesso de peso e à predisposição para a obesidade. E neste âmbito, temos um longo caminho a percorrer”.
Para Maria João Gregório são precisas mais medidas de Saúde Pública que ajudem a população a ter uma alimentação saudável . E estas podem passar por regras bem definidas para a criação de ambientes alimentares mais saudáveis com ofertas de alimentos mais saudáveis, que visem o comportamento dos cidadãos, ou por reforçar a resposta dos próprios Cuidados de Saúde Primários à população com excesso de peso.
“Se pensarmos que temos uma percentagem relevante da população que vive com excesso de peso ou com obesidade é importante que se pense em intervenções que possam atuar nestas áreas”, argumenta a presidente do PNPAS. Aliás, destaca, “esta é uma das áreas que a DGS está a desenvolver de forma mais intensa desde o final do ano passado, porque não podemos intervir só no sentido da prevenção é preciso termos modelos que possam melhorar a qualidade da resposta dos cuidados de saúde nsta área e nomeadamente para tratar a obesidade”.
Mas não só. Ao DN, a técnica reforça ser fundamental que se desenvolvam novas orientações para a oferta alimentar em espaços públicos prioritários, à semelhança do que já se fez nas escolas, como creches e outras instituições públicas e sociais, porque “até à data não há orientações específicas para estes contextos institucionais”.
O relatório do PNPAS inclui este ano, pela primeira vez, um estudo de opinião pública sobre as medidas de promoção da alimentação saudável, realizado em 2025 junto de uma amostra representativa de mil adultos residentes em Portugal. E os resultados revelam um elevado apoio da população às medidas de promoção de alimentação saudável, com percentagens de concordância superiores a 80% para a maioria das medidas avaliadas. As medidas que reúnem maior consenso são, precisamente, aquelas que se dirigem à promoção de uma oferta alimentar saudável nos ambientes institucionais, em particular nos que se dirigem às crianças.


