O responsável pela Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras, João Ribeiro
O responsável pela Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras, João RibeiroMANUEL DE ALMEIDA / Lusa

PSP alerta para aumento de imigrantes ilegais que chegam de comboio e autocarro

Entrevista ao diretor nacional adjunto da PSP e responsável pela Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF) da PSP, superintendente-chefe João Ribeiro.
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A PSP alertou este domingo (13 de setembro) para um aumento de imigrantes em situação irregular que estão a chegar de comboio e autocarro às zonas metropolitanas de Lisboa e Porto provenientes de outras cidades europeias.

“Temos alguns fatores de risco identificados, especialmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto naquilo que são fluxos rodoviários e ferroviários de cidadãos a chegar a território nacional. Estão em situação irregular noutros países e procuram movimentar-se dentro do espaço Schengen, mudando de país para país”, disse o diretor nacional adjunto da PSP e responsável pela Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF) da PSP, superintendente-chefe João Ribeiro.

O responsável pela UNEF avançou que esta situação não é “propriamente nova”, mas, face ao que tem sido a perceção da PSP e a análise de dados, “estes movimentos secundários relativamente a Portugal têm aumentado”.

João Ribeiro especificou que há pessoas a chegar a Portugal através de autocarro, nomeadamente nos principais terminais rodoviários, e de comboio, tendo a PSP a capacidade de “realizar um controlo móvel de fronteira” nestes locais.

“A intenção, muitas vezes, até pode não ser permanecer em Portugal. Imaginemos, há um cidadão que entrou em território europeu, esteve, por exemplo, nos Países Baixos, na Bélgica, em França. Foram acontecendo situações que o levaram a afastar-se e nunca conseguiu estar em situação legal e chega a Portugal, vai chegando através destes movimentos secundários”, explicou.

Acrescentou que muitas vezes o objetivo é dar o salto para outro país, referindo, como exemplo, a Irlanda em que é necessário utilizar a fronteira aérea.

“Todas estas situações que temos detetado, que resultam de movimentos secundários, de movimentações através da União Europeia, e em que depois, inclusivamente, é utilizada a fronteira aérea para sair do território, permite-nos ter esta perspetiva e esta noção clara de que os movimentos secundários, relativamente a Portugal, aparentam estar a aumentar”, realçou.

O diretor nacional adjunto da PSP considerou que isto “constitui um fator de preocupação” e que vão ter “em atenção” nos próximos meses a fiscalização nestes locais de transportes e de presença de determinadas comunidades dessas nacionalidades, sem especificar quais.

João Ribeiro disse que estes movimentos secundários preocupam atualmente Portugal e a União.

Além dos imigrantes em situação irregular que chegam de comboio ou autocarro, Portugal está também a ser utilizado como “plataforma de acesso” a outros países da União Europeia através das fronteiras aéreas.

“As nossas fronteiras externas representam um fator de risco, mas aquilo que nos preocupa neste momento acabam por ser os movimentos secundários, ou seja, o que se passa dentro do espaço da UE em que Portugal pode ser utilizado, como está a ser utilizado em algumas situações e para isso temos parcerias com outras polícias de fronteira”, disse.

De acordo com João Ribeiro, há cidadãos estrangeiros que chegam ao país por via aérea e têm como objetivo não permanecer em Portugal, mas sim dirigir-se para o Norte da Europa, onde existem comunidades e familiares das suas nacionalidades.

“Os desafios estão fundamentalmente centrados numa fronteira aérea como porta de entrada. A nossa estratégia, desde a criação da UNEF sempre foi a questão da reputação da fronteira portuguesa. Passava muitas vezes a mensagem de que era fácil entrar em Portugal. A nossa primeira preocupação é que o controlo seja eficiente e eficaz”, acrescentou.

Rejeita ideia de "caça ao imigrante" ilegal

O responsável pela Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF) da PSP recusou que haja uma “uma caça” ao imigrante ilegal, considerando que a UNEF faz “uma abordagem inteligente” ao atuar nos locais onde existem fatores de risco.

“A nossa abordagem não é propriamente aquilo que foi reportado ser uma caça, digamos, uma batida de caça, não é essa a perspetiva”, disse o também diretor nacional adjunto da Polícia de Segurança Pública superintendente-chefe João Ribeiro, numa reação às críticas por parte de associações de imigrantes, que acusam a UNEF de perseguir imigrantes e se inspirar nos Estados Unidos.

O responsável explicou que a UNEF conhece “os fatores de risco” e “é essa abordagem que tenta ter e seguir em cada um dos espaços”.

“Sabemos que as áreas metropolitanas são um fator elevado de risco de cidadãos que estão em situação irregular em território nacional. Entraram em território nacional há alguns anos, nunca trataram de regularização e, face à lei, estão em situação irregular. Portanto, o foco é muito direcionado”, salientou.

João Ribeiro afirmou que a UNEF faz “uma abordagem inteligente”, considerando que um cidadão estrangeiro em situação irregular em Portugal “não pode estar em território nacional”, devendo “entrar num processo de afastamento e essa é a principal preocupação” desta unidade.

“Não se trata aqui propriamente de uma abordagem cega ou de comparações com o que outros países fazem”, defendeu.

O responsável pela UNEF estimou à Lusa que continuam a residir em Portugal “um conjunto de pessoas” que foram notificados para sair de Portugal por estarem situação irregular.

“Se olharmos para todo o processo que foi desenvolvido pela AIMA, pela estrutura de missão, foram emitidas mais de 80 mil notificações de abandono voluntário. Mas há todo um conjunto de pessoas que foram notificadas, porque não reúnem condições para terem autorização de residência, pessoas que estão em situação irregular”, disse, acrescentando que este indicador permite ter a perspetiva dos estrangeiros que continuam no país em situação irregular.

Segundo João Ribeiro, trata-se de cidadãos que “nunca requereram autorização de residência” ou “a decisão das autoridades administrativas competentes foi negativa”.

O diretor nacional adjunto da PSP indicou também que tem a perceção que a pressão migratória em Portugal se “tem reduzido ligeiramente”.

Durante um ano de atividade, que completou a 21 de agosto, a Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras controlou nos aeroportos 19.749.328 cidadãos e deteve 428, designadamente por fraude documental. No âmbito da fiscalização da permanência de imigrantes no país, realizou 5.397 ações e fiscalizou 52.421 cidadãos estrangeiros, que resultaram em 831 notificações para abandono voluntário, 285 detenções por permanência irregular e uma detenção por desobediência a interdição de entrada.

“O balanço é necessariamente positivo pelos resultados alcançados. Claro, entre aquilo que planeamos e a matriz, a arquitetura de objetivos que foi criado para a UNEF e aquilo que a própria lei definiu, gostaríamos de estar mais longe da posição atual”, disse, admitindo que neste primeiro o ano o foco foi direcionado para o aeroporto devido “a toda a pressão que existiu”.

No entanto, destacou que “a grande inovação que trouxe a UNEF” foi “unidade de comando”, procedimentos iguais em todos os aeroportos e a “garantia de se poder identificar quem está a cumprir ou não as normas internas e legais”.

A PSP ficou com a responsabilidade do controlo das fronteiras aéreas nos aeroportos com o fim do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, em 2023, mas João Ribeiro recusou comparações com o SEF, tendo em conta que são duas instituições distintas e a realidade nos aeroportos é atualmente diferente.

“Embora olhássemos também para outras áreas [além do aeroporto] e basta ver a atividade de fiscalização, representando o aumento da atividade em relação a anos anteriores, mas toda a área do retorno e da readmissão seria importante estarmos mais longe do que aquilo que estamos”, disse, destacando o novo desafio que a UNEF tem pela frente, que passa pela nova lei de retorno e de asilo, que entrou em vigor na sexta-feira.

Previsão de maior capacidade para o ano

A PSP espera no próximo ano ter maior capacidade para instalar os imigrantes em processo de expulsão, uma vez que atualmente dispõe de 130 vagas, apostando por isso no retorno voluntário para o país de origem.

O diretor nacional adjunto da PSP e responsável pela Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF) da PSP, superintendente-chefe João Ribeiro, precisou que Portugal tem uma capacidade de 130 lugares disponíveis e estão atualmente distribuídos pelo Centro de Instalação Temporária (CIT) do Porto, a Unidade Habitacional de Santo António, e pelos Espaços Equiparados a Centros de Instalação Temporária (EECIT) nos aeroportos de Lisboa e Porto, estando o EECIT de Faro fechado para obras.

“Neste momento, com a ampliação da Unidade Habitacional de Santo António, cumprimos as metas a que Portugal está obrigado”, disse, numa altura em que entrou em vigor a nova lei de retorno e asilo, promulgada pelo Presidente da República após validação unânime pelo Tribunal Constitucional.

Esta lei, que entrou em vigor na sexta-feira, facilita o afastamento de cidadãos em situação irregular e tem como principais alterações o alargamento do prazo de colocação de cidadãos estrangeiros em centros de instalação temporária para um período máximo de 180 dias (prorrogáveis por igual período), a possibilidade de separação de pais e filhos e a expulsão de menores de território nacional.

João Ribeiro sublinhou que estão a ser feitas obras para “garantir melhores condições” aos estrangeiros que ficam nestas instalações, sejam em processo de asilo ou à espera de serem expulsos do país.

A intenção é que exista nestes locais “todos os cuidados necessários e todo o apoio necessário para que a pessoa esteja a ser tratada de forma a que sejam garantidos todos os seus direitos e ao mesmo tempo temos a capacidade de poder assegurar toda a maximização de apoio médico, de apoio jurídico”, destacou, avançando que “o grande objetivo” é que na segunda metade de 2027 a capacidades aumentou para 306 vagas.

Questionado sobre a falta de vagas nestes locais, uma vez que o tempo de detenção aumentou com a nova lei, respondeu: “Apostamos muito no afastamento pelo retorno voluntário. O retorno voluntário, em termos práticos, significa aceitar regressar ao país de origem, recebendo apoios para que possa reiniciar a atividade no país de origem, em vez de termos um processo coercivo”.

O diretor nacional adjunto da PSP frisou que o processo coercivo, ou seja, as expulsões forçadas, tem “sempre uma carga negativa” e depende também da vontade do país de origem.

“É o grande calcanhar de aquiles em todo o modelo. Há países que nos respondem rapidamente e o processo é bastante rápido e há outros países, até por uma questão de contextos e de garantir a identificação de que aquele cidadão é efetivamente um nacional desse país, demora quatro ou mais meses em confirmarem que aceitam aquele cidadão”, disse.

O responsável pela UNEF avançou que continua em cima da mesa encontrar “uma solução rápida” para a construção de centros de instalação temporária em Lisboa e Porto, depois de Portugal ter desperdiçado o financiamento europeu de 30 milhões para a construção de dois CIT.

Manifestou o desejo de até 2028 conseguir ter capacidade “de alojamento suficiente para os desafios que se colocam em termos de permanência ilegal", frisando: “Essa capacidade tem que ser rapidamente alcançada porque todo o sistema funciona de forma interligada. Se eu incremento a fiscalização e deteto cidadãos em situação irregular, eu preciso de espaço para os instalar”.

A PSP tem ainda como ambição, no âmbito da nova lei, a criação de um centro nacional de triagem para imigrantes ilegais, nomeadamente para aqueles que pedem asilo nas fronteiras aéreas.

Segundo o responsável, este espaço funcionaria junto aeroporto de Lisboa e permitiria “efetuar a triagem e redirecionar todos os processos espalhados pelos vários sítios em que foi requerida a proteção internacional”.

“É um processo que implica obras de adaptação, finalizar o contrato”, disse, expressando o desejo de que o centro nacional de triagem já estivesse a funcionar.

Desde junho, quando entrou em vigor o Pacto para as Migrações e Asilo da União Europeia, os aeroportos de Lisboa, Porto e Faro passaram a dispor de centros de triagem destinados especialmente para os estrangeiros que pedem proteção internacional.

Nestes centros, explicou, os cidadãos passam por “várias estações em que são verificados diferentes aspetos”, com o exame médico para detetar se há risco para a saúde pública e se é menor de idade, além de uma avaliação do risco e recolha de dados biométricos.

“São sete ou oito passos diferenciados até chegarmos a uma conclusão final em que é feita a avaliação da situação. O processo de triagem só tem duas saídas: a pessoa entra numa situação de proteção internacional, de um procedimento de asilo, ou entra num procedimento de afastamento do território nacional”, afirmou.

Aeroporto de Faro ainda com problemas

A recolha de dados biométricos, que há uma semana é feita a todos os passageiros fora do espaço Schengen, está a decorrer sem constrangimentos nos aeroportos portugueses, à exceção de Faro, onde existe alguma pressão, segundo a PSP.

O diretor nacional adjunto da PSP e responsável pela Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF) da PSP, superintendente-chefe João Ribeiro, afirmou à Lusa que neste momento a recolha de dados biométricos a 100% está a decorrer de “forma fluida” em todos aeroportos, “à exceção de Faro que está com maior pressão”.

Segundo o responsável, um passageiro demorava no aeroporto de Lisboa, quando existia a possibilidade de suspender a biometria, entre cinco a 15 minutos, atualmente está a demorar entre 15 a 30 minutos.

“O que é bastante aceitável. A grande pressão é no aeroporto de Faro, facto de um conjunto de fatores, mas estamos a tentar minimizar ao máximo esse impacto”, sustentou.

João Ribeiro explicou que no aeroporto de Faro tem existido fatores que acabam por afetar, especificando: “Sejam questões climatéricas, sejam atrasos de tráfego aéreo que fazem com que determinados picos se juntem, como foi o caso de ontem [quinta-feira], em que, em 25 minutos, tínhamos mais de 10 voos a aterrar, com um número elevado de passageiros, essencialmente britânicos, e que, por isso mesmo, causava pressão sobre a fronteira”.

Desde 06 de setembro que os aeroportos portugueses passaram a efetuar a recolha obrigatória de dados biométricos (como fotografias e impressões digitais) a 100% dos passageiros que cheguem a Portugal de países fora do espaço Schengen ou da União Europeia.

A recolha de dados biométricos faz parte do Sistema de Entrada/Saída (EES, sigla em inglês) da União Europeia, que entrou em funcionamento em outubro de 2025 de forma faseada, sendo possível até agora suspender esta recolha quando se verificava filas no controlo de passageiros.

Os constrangimentos nos aeroportos, principalmente em Lisboa, foram visíveis durante vários meses deste ano, com passageiros a ter que esperar várias horas, uma situação que se inverteu desde o fim de maio com o reforço de meios humanos e técnicos.

“Foi importantes três fatores: o investimento que foi feito em termos de tecnologia, o rearranjo das áreas dos aeroportos em termos daquilo que é o fluxo de passageiros e também o reforço operacional que tivemos em termos de capacitação de recursos humanos”, disse, referindo-se aos 360 elementos que foram colocados nas fronteiras aéreas.

Apesar de estar a funcionar a 100% a recolha de dados biométricos, o responsável pela UNEF avançou à Lusa que a Comissão Europeia deu a possibilidade de, até dezembro, não se aplicar a biometria quando existam problemas tecnológicos, tendo em conta que alguns países da UE ainda estão a criar condições para assegurarem o EES.

“Foi dada a possibilidade, não de suspensão no conceito antigo, mas de se poder, em determinados momentos, mais por pressão tecnológica e, enquanto os diferentes Estados não têm essa capacidade total, de poder, em termos práticos, não aplicar a biometria quando haja problemas tecnológicos”, adiantou.

Apesar de não se terem verificado constrangimentos nos meses de verão, o diretor nacional adjunto da PSP afirmou que não é possível garantir “em termos absolutos” que os problemas nos aeroportos não vão regressar, uma vez que dependem de vários fatores, nomeadamente da tecnologia, numa perspetiva nacional e europeia, e de recursos humanos.

“Garantia absoluta não podemos dar, embora sejam tomadas todas as medidas para minimizar isso”, frisou, acrescentando que a PSP olha com “bastante segurança” devido a “todo o investimento que foi feito em recursos humanos e meios tecnológicos”.

A UNEF investiu no último ano em recursos humanos, tendo atualmente a trabalhar na segurança aeroportuária e controlo fronteiriço dos aeroportos 1.504 polícias, 706 dos quais em Lisboa, 325 no Porto, 215 em Faro, 115 na Madeira, 124 nos Açores e 19 em Beja.

Apesar deste reforço, o responsável pela UNEF considerou que neste momento estão “a 80% da capacidade recomendada”, sendo agora necessário apostar em recursos humanos “mais técnicos” com capacidades para a deteção de documentos falsos e que permitam antever e antecipar riscos migratórios.

“É uma aposta mais técnica, mais de especialização do que propriamente necessidade de recursos humanos. Neste momento estamos confortáveis”, disse ainda.

Entrevista de Célia Paulo da agência Lusa

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