O prolongamento em cerca de três semanas, quando comparado com os outros ciclos de ensino não sujeitos a exame (5.º, 6.º, 7.º, 8.º e 10.º anos), do calendário escolar do 1.º ciclo e do pré-escolar, até 30 de junho, voltou a estar na ordem do dia. O Sindicato Nacional dos Professores Licenciados pelos Politécnicos e Universidades (SPLIU) foi ouvido na Comissão de Educação e Ciência, do Parlamento, após a apresentação de uma petição. Na iniciativa entregue, o SPLIU aponta o dedo à “falta de condições das escolas para acolher as crianças, com temperaturas elevadas nas salas de aula, extrema saturação, cansaço acumulado, indisposição para uma relação educativa, didática, pedagógica, e até lúdica, propiciadora de novas aprendizagens, e o desconforto na realização das provas de avaliação sumativa”. Na audição, o Grupo parlamentar PSD reiterou a posição do Governo e não indicou a possibilidade de uma alteração ao calendário. Já os grupos parlamentares do Chega e do PS defendem essa mudança. A deputada socialista Rosa Isabel Cruz, relembrou que a mudança surgiu como resposta à pandemia, para reforço das aprendizagens e que, à data, já não se justifica, sendo “imperativo rever o calendário”.O SPLIU usou vários argumentos. “Prolongar as atividades letivas na Educação Pré-Escolar e do 1º Ciclo do Ensino Básico para além do final das atividades letivas para os 5º, 6º, 7º, 8º e 10º anos de escolaridade, constitui um calvário para alunos e professores, contraproducente nas várias dimensões educativas, provocando um tratamento de desigualdade com os demais alunos do ensino básico, sendo inevitável a insatisfação em relação àquele período escolar”, pode ler-se no documento. O sindicato afirma ainda que “as escolas não podem ser consideradas depósitos de crianças, competindo aos docentes entretê-los em atividade letiva descontextualizada, pois já não existe predisposição ou disponibilidade para as aprendizagens”. Prolongamento do ano letivo não traz vantagens para as criançasFilinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), não vê vantagens no prolongamento do ano letivo para o 1.º ciclo. “As atividades letivas para deste ciclo são as últimas a terminar, em finais do mês de junho, sendo muitas vezes penoso para os alunos e professores as últimas duas semanas, pois alguns dos familiares já estão de férias (ou a estudar para os exames), o calor já aperta e alguns pais e encarregados de educação gozam o merecido descanso laboral, e até entram de férias com os filhos, em detrimento das aulas”, explica. Segundo o presidente da ANDAEP, as crianças manifestam cansaço, “principalmente nas duas últimas semanas de aulas”, levando os docentes a tentar desenvolver atividades lúdicas, “recorrendo às expressões, artes e jogos de modo a aumentar competências nestas áreas”. Algo que, conta , “o currículo deveria privilegiar mais, tendo em conta a altura do ano, principalmente atendendo ao clima, normalmente quente”. O responsável lamenta as dificuldades na dinâmica familiar provocadas pelos calendários desfasados, “com as famílias a ter de gerir uns filhos em casa e outros nas escolas, bem como irmãos mais novos que veem os mais velhos sem escola quando eles têm ainda de ir”.Manter calendário é “ignorar evidências básicas de saúde, bem-estar e qualidade pedagógica”A Missão Escola Pública (MEP) – um movimento apartidário de professores - também já se manifestou várias vezes contra o prolongamento do ano letivo para as crianças mais pequenas e, ao DN, diz lamentar que a discussão continue “desligada das condições reais em que crianças e profissionais permanecem nas escolas durante os meses de maior exposição a temperaturas adversas”. “No caso das crianças mais novas — em idade pré-escolar e nos primeiros anos de escolaridade obrigatória — estamos a falar de faixas etárias particularmente vulneráveis, quer ao calor intenso ou ao frio excessivo. Persistir num modelo que mantém atividades letivas até ao final de junho, sem garantir condições térmicas adequadas, significa ignorar evidências básicas de saúde, bem-estar e qualidade pedagógica”, explica.A Missão Escola Pública considera que deve ser ponderado o ajustamento do calendário do pré-escolar e do 1.º ciclo, permitindo que as atividades letivas terminem mais cedo no mês de junho. Contudo, “essa decisão deve ser acompanhada de respostas organizadas e estruturadas para as famílias, asseguradas pelas autarquias e por equipas técnicas qualificadas, através de atividades de natureza cultural, desportiva e lúdico-pedagógica”.“Os municípios dispõem de recursos relevantes — equipamentos desportivos, piscinas municipais, bibliotecas, museus, espaços culturais — que podem e devem ser mobilizados. A escola pode colaborar na articulação e identificação de necessidades, mas a dinamização destas respostas deve competir a profissionais especializados, garantindo qualidade e segurança”, defende o movimento.cynthia.valente@dn.pt.Aposentações de professores: março começa com menos 250 docentes nas escolas.Alunos do interior e com menos recursos continuam a ser os mais penalizados no acesso ao ensino superior