Num país onde cerca de 40% da população vive com hipertensão, um projeto criado por dois médicos internistas portugueses quer começar a prevenção onde raramente se começa - na infância.Apresentado nesta quarta-feira, 25 de fevereiro, no espaço DMIX Collective, em Marvila, e com o lançamento oficial do primeiro e-book no mesmo dia, o “Heróis Contra a Hipertensão” propõe-se ensinar crianças dos 5 aos 10 anos a identificar e combater aquele que é considerado o principal fator de risco associado às doenças cardiovasculares em Portugal.“Este é um sonho tornado realidade e tenho muito orgulho em dizer que estamos perante um projeto 100% português. Foi pensado por dois médicos internistas portugueses, conta com o apoio exclusivo de um laboratório nacional, a Tecnifar, e tem suporte científico de nove sociedades portuguesas, além da Fundação Portuguesa de Cardiologia e da Cruz Vermelha Portuguesa. É um projeto que está a nascer, mas nasce com uma base totalmente nacional”, afirmou a médica Patrícia Vasconcelos, fundadora da iniciativa, durante a apresentação.Criadora do projeto ao lado do internista Nuno Bragança, Vasconcelos explica que a ideia de dinamizar informações sobre a doença partiu do objetivo de transformar as crianças em agentes de mudança dentro da família e da comunidade, através da sensibilização para uma doença que, muitas vezes, é subestimada.“A hipertensão tem uma característica perigosa: é silenciosa. Muitas vezes é ignorada ou desvalorizada, mesmo quando já existe diagnóstico. Está associada a vários fatores de risco e pode ter consequências graves em diferentes órgãos”, sublinhou a médica, internista no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca e membro do Núcleo de Estudos de Prevenção e Risco Vascular da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.Saliente-se ainda que, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) enfrenta custos elevados com a hipertensão e doenças cardiovasculares associadas. Um relatório da Direção-Geral da Saúde, divulgado há cerca de duas semanas, mostrava que só o investimento em procedimentos e dispositivos percutâneos cardiovasculares ultrapassa os 160 milhões de euros anuais. Prevenir é não apenas poupar problemas de saúde, no futuro, mas também investimento.Para chegar aos mais novos, a estratégia de consciencialização passou por substituir gráficos clínicos e termos técnicos por heróis e vilões. As personagens heróicas são inspiradas em divindades egípcias - símbolos de proteção, força e equilíbrio, como Hathor, Thoth e Anubis - enquanto os antagonistas assumem formas reconhecíveis: Sr. Stress, Sal ou Maus Hábitos..Cada figura representa um fator de risco associado à hipertensão arterial, traduzido para uma linguagem visual e narrativa acessível ao público infantil.Através de e-books ilustrados - sendo o primeiro "A Ameaça Invisível" disponibilizado esta quarta-feira - que combinam história, imaginação e componentes lúdicas, as crianças assimilam mensagens-chave sobre alimentação equilibrada, redução do sal, atividade física e gestão do stress. O objetivo é que essas aprendizagens ultrapassem a sala de aula e entrem em casa.“Nas consultas tentamos fazer literacia todos os dias, mas a verdade é que chegamos tarde. Muitas vezes já há doença instalada. E temos pouco tempo para explicar, esclarecer, educar. Sabemos que, quando as pessoas compreendem, aderem melhor às recomendações. Mas mudar comportamentos na idade adulta é mais difícil, enquanto para as crianças, especialmente se têm uma referência, como heróis ou heroínas, é algo mais simples de conseguir".O projeto arranca com um piloto em cinco escolas - três colégios privados e duas escolas públicas - e qualquer agrupamento poderá inscrever-se ao acesso aos e-books através do site da iniciativa. A ambição é crescer de forma sustentada.“O que pretendemos é criar um modelo que possa crescer de forma sustentada a nível nacional. Idealmente, que possa um dia integrar iniciativas na área da cidadania ou da educação para a saúde. Mais do que números, queremos impacto real: que falar de hipertensão e de saúde cardiovascular seja algo natural desde cedo"..Para avaliar resultados, o projeto conta com o apoio da universidade NOVA IMS, que acompanhará o piloto com questionários aplicados antes e depois da implementação, dirigidos a crianças, pais e educadores. O foco, contudo, é atingir exatamente os mais novos, especialmente tendo em vista os hábitos na infância atualmente. “Hoje vemos crianças com menos atividade física, mais tempo de ecrã e menos espaço para brincar e socializar. Tudo isto influencia a saúde futura. Muitas das doenças que tratamos em adultos começaram silenciosamente décadas antes". O projeto ainda conta com o apoio exclusivo da Tecnifar e suporte científico de várias sociedades médicas e instituições nacionais, entre as quais a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, a Sociedade Portuguesa de Pediatria, a Sociedade Portuguesa de Medicina do Estilo de Vida, a Cruz Vermelha Portuguesa. Para António Chaves Costa, CEO da Tecnifar, a aposta na prevenção está alinhada com o posicionamento da empresa.“Acreditamos que a nossa responsabilidade não se limita ao medicamento. Faz parte do nosso ADN intervir também na prevenção e na literacia em saúde. Contribuir para a saúde é estar ao lado de quem trabalha para melhorar a vida das pessoas", pontuou. “É um trabalho exigente e de longo prazo, mas é aí que os conceitos se consolidam e podem produzir resultados duradouros", concluiu o CEO..Um terço dos medicamentos aprovados não chega ao mercado em Portugal.“Há um aumento de partos realizados nas ambulâncias, temos esse registo agora”, assume ministra