Primavera na cidade. Lisboa sai à rua com concertos de graça em jardins e igrejas

Festival de música começa amanhã e vai fazer do Centro Ismaili, das igrejas de Santa Catarina, da Graça e do Sagrado Coração de Jesus e do Jardim do Arco do Cego palco e plateia. O programa tem jazz, fado e música clássica

Quem olha para o vigor com que Alice exercita as pernas no circuito de manutenção do Jardim Mahatma Gandhi, em Lisboa, não imagina que a idosa tem já 83 anos de idade. "Faz bem", dispara, sem parar, enquanto o marido aproveita para dar força aos braços num outro equipamento. É início de tarde de quinta-feira e, no parque que envolve o Templo Radha Krishna da Comunidade Hindu de Portugal, reina a tranquilidade. Amanhã, o cenário deverá ser diferente.

A partir das 15.00, o espaço verde requalificado em 2011 é palco do Feliz Holi, uma iniciativa daquela entidade que irá recriar a celebração que, na Índia, comemora anualmente a chegada da primavera e que inclui o arremesso entre os participantes de várias tintas. Por cá, a explosão de cores acontece no primeiro dia de um festival organizado pela Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) para assinalar o início da estação e que passa pela realização de viagens musicais em espaços "nem sempre conhecidos por quem habita a cidade", como o Centro Ismaili e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. O programa termina dia 3, com um concerto no Jardim do Arco do Cego. A entrada em todos os eventos é livre.

As inscrições terminaram ontem, mas serão no máximo cem as pessoas que, às 15.00 de amanhã, poderão visitar o Templo Radha Krishna, em Telheiras. Inaugurado em 1998,o complexo está instalado na Alameda Mahatma Gandhi, perto do Hospital das Forças Armadas, e conta, na sua envolvente, com o Jardim Mahatma Gandhi, uma área com 1,32 hectares, um quiosque, um circuito de manutenção e dois parques infantis.

É aqui que, de acordo com a programação do festival Primavera na Cidade, decorrerão a partir das 16.00 atuações de dança e espaços para experimentar a gastronomia indiana. Uma hora depois, a celebração do Holi (Festival das Cores) é animada por um DJ e o melhor é que quem quiser participar na festa vá vestido de branco e esteja preparado para ser pintalgado com um pó (gulal) bastante colorido.

Terça-feira, a celebração da primavera transfere-se para o Centro Ismaili de Lisboa. Localizado na Avenida Lusíada, o espaço projetado, segundo a programação da iniciativa, por Raj Rewal Associates e Frederico Valsassina, com "jardins luminosos e recantos escondidos", é, em simultâneo, "local de encontro para os muçulmanos ismaili" e "sede de uma rede internacional de instituições de desenvolvimento social, cultural e económico".

Neste caso, Ricardo Ribeiro e João Paulo Esteves unem, às 21.30, o fado ao jazz para dar forma ao espetáculo A Sombra e a Luz nas Canções, interpretando, entre outros, Os Demónios de Alcácer Quibir, de Sérgio Godinho, Cavalo à Solta, de Ary dos Santos, Serenata do Adeus, de Vinicius de Moraes, e Verdes Anos, de Pedro Tamen.

Depois de uma pausa de dois anos, o Primavera na Cidade chega então, na quinta, na sexta-feira e no sábado, a três igrejas católicas: respetivamente a de Santa Catarina, na Calçada do Combro, a da Graça e a do Sagrado Coração de Jesus, perto do Marquês de Pombal.

Homenagem a Teotónio Pereira

Nesta última, agraciada com o Prémio Valmor de Arquitetura em 1975 e classificada como Monumento Nacional, será prestada homenagem ao arquiteto Nuno Teotónio Pereira, falecido em janeiro e um dos seus autores, a par de Nuno Portas. Construída na década de 1960, tem uma traça modernista que a distingue da maioria dos restantes templos católicos de Lisboa.

O espetáculo musical, agendado para as 21.30 do dia 2 de abril, será protagonizado pelo Coro de Câmara e pela Orquestra Académica da Universidade de Lisboa, que interpretarão o Magnificat em Talha Dourada, de Eurico Carrapatoso, e Zadok the Priest, de Händel.

Já na Igreja de Santa Catarina, construída na segunda metade do século XVII e reedificada na sequência do terramoto de 1755, o Grupo Vocal Olisipo começará a sua atuação às 21.30 da próxima quinta-feira com os Responsórios das Matinas de Sexta-Feira Santa, de Francisco Martins (1620-1680).

A escolha evoca, segundo a programação do Primavera na Cidade, o ofício "celebrado de madrugada", quando a igreja estava iluminada apenas por 15 velas, que eram "apagadas uma a uma, à medida que os cânticos eram executados, ficando apenas acesa a maior vela". A noite na igreja barroca, com obras de dois dos mais importantes pintores do século XVIII em Portugal, Vieira Lusitano e André Gonçalves, termina com a Missa Pro defunctis (a seis vozes), de Duarte Lobo (1565-1646).

Já a Igreja da Graça, com fachada para o miradouro do bairro onde está inserida e painéis de azulejos, no seu interior, dos séculos XVI e XVII, receberá às 21.30 de dia 1 o coro de câmara Lisboa Cantat, que dará voz à "idade do ouro" da polifonia portuguesa.

O festival termina no dia 3, com o evento Primavera no Jardim, que, a partir das 16.30, junta Carolina Deslandes, Dino D"Santiago e Maria Emília Reis no Jardim do Arco do Cego (ver agenda).

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