O ano de 2024 pode ficar como um marco em relação à Tuberculose em Portugal - uma das doenças que a Direção Geral da Saúde (DGS) diz ainda constituir um “problema de Saúde Pública grave e prioritário”. A boa notícia é que, em 2024, foram registados 1536 casos, o menor número de sempre, com uma taxa de notificação de 14,3 casos por 100 mil habitantes. Os dados constam do Relatório de Vigilância e Monitorização da Tuberculose em Portugal, que será divulgado esta terça-feira, dia 24, pela DGS, para assinalar o dia mundial da doença. Ao DN, a médica Sofia Sousa, adjunta no Programa Nacional para a Tuberculose (PNT), confirma que “a redução da incidência que se verifica é uma boa notícia, e reflete o resultado de várias estratégias preventivas e tratamentos adotados no nosso país”. No entanto, “esta redução não tem acontecido à velocidade que gostaríamos e, por isso, ainda há um longo caminho a fazer nesse sentido”, reconhece.Sofia Sousa recorda que a Organização Mundial da Saúde (OMS) impôs como meta a redução da incidência da doença em 90% até 2035 - ou seja, dois casos por 100 mil habitantes - com o objetivo de “eliminar a tuberculose como problema de saúde pública”. Só que para o conseguirmos “é preciso a própria sociedade pensar em tuberculose, é preciso sensibilizar população e profissionais de saúde para a doença e falar dela abertamente, sem estigma”, argumenta. Aliás, defende, “combater o estigma é uma forma de combater a doença, porque o estigma está a atrasar-nos os diagnósticos de tuberculose e a atrasar a descida da incidência”. E acrescenta: “É importante que todos tenhamos isto em conta. A tuberculose é uma doença com cura, que pode ser prevenida e que quanto mais cedo fizermos um rastreio e tivermos um diagnóstico, mais cedo se é tratado”. A médica refere-se às pessoas que podem ter algum fator de risco em relação à tuberculose. Por exemplo, "uma pessoa que tivesse estado em contacto com alguém com a doença deve fazer o rastreio o mais cedo possível, e se for necessário fazer tratamento preventivo. Só assim podemos melhorar os indicadores da doença no nosso país”.. O relatório divulgado neste dia 24 de março descreve as regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte como as duas que registam maior incidência, com 17,1 e 16,4 casos por 100 mil habitantes, respetivamente. Segundo explica a médica do PNT, tal “é uma tendência de há muitos anos”, pois “quando reduzimos a incidência da tuberculose, esta tende a concentrar-se nos grandes centros urbanos porque são os locais com mais pessoas, nomeadamente com mais população vulnerável, e mais fatores de risco, embora cada região tenha as suas particularidades”. De acordo com o documento, estas foram as regiões onde se detetaram os casos de tuberculose multirresistente, 36, em 2024, na sua maioria em Lisboa e Vale do Tejo. E, apesar de serem só 36 casos, Sofia Sousa não esconde que “são uma preocupação” e que exigem “uma atenção particular de vigilância mais apertada, inclusivamente de monitorização molecular para sabermos onde estão, de onde vieram e como podem ser tratados, para que possamos garantir o cumprimento rigoroso do tratamento destes doentes, já que a tuberculose multirresistente está associada a um menor sucesso da terapêutico”.Em relação ao perfil da população infetada, os dados epidemiológicos revelam que “os homens continuam a ser mais afetados do que as mulheres (64,4% do total de casos notificados em 2024), especialmente na idade adulta”. No entanto, há ainda a destacar que, em 2024, 2,4 % do total de casos ocorreram em crianças e adolescentes com idade inferior a 15 anos.Tratamento preventivo "é um ótima forma de eliminar" a doençaNo relatório, a DGS assume como estratégia e prioridade a redução da incidência da tuberculose e o tempo até ao diagnóstico, através do acesso precoce aos rastreios, para a deteção de casos em populações vulneráveis, e também no acesso precoce a tratamentos preventivos. E, em 2024, foram tratados 4315 casos de infeção latente (casos tratados preventivamente) por tuberculose, neste caso foi o valor mais elevado de sempre, com um aumento expressivo nos últimos dois anos (2022 - 3273 casos). Mas Sofia Sousa sustenta que apesar de ser o valor mais elevado de sempre, os tratamentos preventivos “são muito importantes. É uma ótima forma de se eliminar a doença. E o que temos de fazer é continuar a implementar este tratamento preventivo cada vez mais a um maior número de pessoas dos grupos de risco para se poder reduzir o número de casos dois a três anos depois”. Aliás, os resultados que agora constam do relatório nesta matéria “refletem o impacto do rastreio nos grupos de maior risco, o que tem sido muito importante, porque quando estamos a tratar a infeção latente significa que estamos a intervir antes de a doença se manifestar, evitando futuros casos de tuberculose ativa”. A médica reconhece também que na redução da incidência registada em 2024 pode estar o facto de nos últimos anos os “medicamentos inovadores terem vindo permitir regimes terapêuticos mais curtos, tanto no tratamento preventivo como no tratamento da tuberculose multirresistente, o que tem representado maior adesão aos tratamentos, menos efeitos secundários e melhor qualidade de vida para os doentes”. No que respeito aos doentes tratados, 82,1% completaram o tratamento com sucesso, representando o valor mais elevado dos últimos anos, o que faz a médica dizer também: “Em Portugal temos a sorte de conseguir garantir aos doentes o acesso à medicação inovadora. É uma conquista, uma mais-valia, mas temos de continuar a investir nesta medicação, pois não estamos livres da doença. Ainda não há uma vacina eficaz para prevenir a infeção”.O relatório lembra que, em 2024, o tempo entre o início dos sintomas e o início do tratamento foi de 81 dias, o mesmo valor de 2023, embora com redução em relação a 2022 (82 dias) e 2021 (86 dias). A DGS alerta também para o facto de “diagnosticar mais cedo significa tratar melhor e evitar que a doença se propague”..Ainda há estigma na palavra tuberculose, mas doença tem cura e Inteligência Artificial já dá diagnósticos em segundos