Portugal pronto para a última fase do desconfinamento: abertura total da sociedade

O país atingiu os 83% de população vacinada. Está a dois pontos percentuais dos 85% de vacinados e a seis do máximo de população que pode ser vacinada - já que 11% desta tem menos de 12 anos. Uma situação quase inigualável no mundo. Óscar Felgueiras diz que o país está pronto, quanto mais não seja porque os portugueses deram "uma resposta muito proativa no sentido de se encontrar uma solução para a pandemia". O governo prepara-se para aliviar restrições a partir de 1 de outubro.

A 5 de abril deste ano, quando Portugal somava 823 494 casos de infeção por SARS-CoV-2, o boletim diário da Direção-Geral da Saúde (DGS) dava conta de 193 novas infeções nesse dia e quatro óbitos. Depois de uma terceira vaga devastadora, a situação epidemiológica provocada pela pandemia da covid-19 atenuava e o país começava a desconfinar. Passo a passo, de duas em duas semanas, de três em três e depois mensalmente, as medidas adotadas foram sendo revistas, de acordo com a incidência a 14 dias, concelho a concelho. Uns avançaram, outros mantiveram-se no mesmo nível e outros chegaram mesmo a recuar.

Ao fim de cinco meses, o país está a funcionar ao mesmo ritmo e já com 83% da população vacinada - estando a dois pontos percentuais da meta dos 85% de vacinados, a percentagem que daria alguma garantia a nível de imunidade de grupo, mesmo com a nova variante Delta a predominar, e a seis pontos percentuais do máximo de população que pode ser vacinada (89%), já que 11% têm menos de 12 anos e não podem ser vacinados.

Se, na reunião de hoje do Conselho de Ministros, o governo decidir que o país deve avançar já para a terceira e última fase do desconfinamento prolongado - o que deverá acontecer, segundo garantiu uma fonte do executivo à Lusa -, "o país está preparado para isso", afirmou ao DN o matemático e epidemiologista Óscar Felgueiras, que integra também a equipa, liderada pela pneumologista Raquel Duarte, que elaborou as propostas de desconfinamento a pedido de António Costa.

Uma última fase que se traduz na abertura total da sociedade portuguesa a todas as atividades, abrangendo mesmo bares e discotecas. Na opinião do especialista, os portugueses parecem estar preparados para este passo, mais não seja porque "deram uma resposta muito proativa no sentido de se encontrar uma solução para a pandemia".

O especialista, também professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e investigador na Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN), sustenta que "ao dia de hoje, a situação está controlada. E termos 83% de população vacinada é quase uma situação mundial inigualável. Nem Israel está tão bem como nós", salvaguardando, no entanto, que o passo seguinte "é uma espécie de passagem da responsabilidade estatal, da tomada de medidas e de regras no sentido do controlo da pandemia, para a responsabilidade civil, individual e coletiva no que toca ao cumprimento das regras de proteção".

891 novos casos de covid-19 foram registados ontem pela DGS. No total, o país soma 1 063 991 de infetados. Ontem, houve ainda registar oito óbitos, havendo agora um total de 17 933 mortes.

Óscar Felgueiras acredita que tudo irá correr bem. "As regras de proteção já estão enraizadas na população portuguesa. Veja o que está a acontecer com o uso de máscara no exterior, o qual, em determinadas situações, já não é obrigatório, mas o que se vê são as pessoas a manterem esta rotina para se protegerem", argumentou, reforçando que, no entanto, é também necessário que "empresas e outra entidades, como estabelecimentos de restauração e outros, façam cumprir com rigor estas regras".

Como explica, a proposta apresentada ao governo pela equipa que integra, a terceira e última fase do desconfinamento prolongado não definia propriamente que os eventos culturais pudessem ter a lotação completa ou a abertura total de bares e discotecas. Propunha, sim, "a passagem de um regime de imposição de medidas adotadas pelo Estado para um regime de maior responsabilização civil, individual e coletiva. E, neste momento, parece-nos que estão reunidas as condições para que seja feita essa transição".

Até porque, e como já foi defendido por outros especialistas, espera-se que as medidas consideradas prioritárias na estratégia para o desconfinamento - testagem e vacinação - sejam mantidas. Por exemplo, no caso da abertura de bares e discotecas, as entradas só deverão ser permitidas se as pessoas apresentarem certificado digital de vacinação, de recuperação da doença ou teste negativo.

Esta terceira e última fase de desconfinamento deveria ser alcançada quando se atingisse os 85% de população vacinada, o que esteva previsto acontecer em outubro, mas será antes. O relatório de vacinação da DGS, publicado nesta terça-feira, dá conta que 8 546 688 portugueses têm a vacinação completa, com os escalões acima dos 65 anos a atingir os 100%, e os 97% no escalão dos 50 aos 64 anos. Dos 12 aos 49 anos, a percentagem de população vacinada vai dos 72% aos 90%.

Números que podem deixar as autoridades de saúde satisfeitas, mas que, e como têm vindo a defender os especialistas, não significam que o país entre numa fase de cancelamento de medidas. Antes que estamos a viver uma fase transitória. É preciso que a sociedade se continue e ajustar ao vírus e à pandemia.

A incidência da doença a nível nacional é agora de 137,4 casos por 100 mil habitantes, a 14 dias. No continente, é de 140,1. O R(t) está em 0,82 a nivel nacional e em 0,81 a nível do continente. Há 426 pessoas internadas, menos 29 do que no dia anterior. 78 estão em cuidados intensivos.

Óscar Felgueiras refere que esta nova fase não significa que "no futuro não se registem mais casos de infeção ou novas vagas. O que sabemos é que com tantas pessoas vacinadas quer os casos quer as ondas não terão a gravidade nem a dimensão das que vivemos anteriormente", voltando a sublinhar que, mesmo nesta fase, a recomendação principal continua a ser a da adoção de medidas preventivas individuais e coletivas sobretudo em espaços fechados, onde não é possível o distanciamento.

Uma recomendação que, na proposta feita pela equipa que integra ao Governo, envolve outra: a qualidade do ar interior, que deve ser garantida através da monitorização do nível de dióxido de carbono, em conjunto com uma boa ventilação e climatização. Uma recomendação que vale para todos os setores da sociedade, mas em especial para os lares de idosos, de forma a salvaguardar a segurança dos utentes face ao exterior.

Por fim, e do lado do governo, o sinal que vai ser dado é o do alívio total das restrições a partir de 1 de outubro, mas sem o cunho utilizado por outros países, que classificaram a entrada na última fase do desconfinamento como o "dia da libertação". Em Portugal, o governo prefere falar em fase "transitória" ou em "viragem". Até porque, e como referiu Óscar Felgueiras, "se algo correr mal o que há a fazer é voltar atrás. O vírus não vai desaparecer, vai continuar entre nós".

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