“Tudo no espaço público é um desafio, por exemplo as árvores às vezes são um problema que choca com a acessibilidade. E a isto acrescentam-se todos os desafios como as esplanadas, as bicicletas, as trotinetes. E o maior problema, gravíssimo, é o do estacionamento indevido. As pessoas não têm noção da dificuldade que colocam às outras, e é preciso fiscalizar, mas também é essencial continuar a sensibilizar”. As palavras são de Catarina Araújo, vice-presidente da Câmara do Porto.Foi a partir deste diagnóstico da responsável pelos pelouros do Urbanismo, Espaço Público, Ambiente e Sustentabilidade de edilidade portuense que se abriu, na Santa Maria Health School, o debate “Acessibilidade e Espaço Público: Uma Cidade para Todos”, realizado na manhã desta sexta-feira, 15 de maio. O encontro reuniu decisores políticos, especialistas, docentes, profissionais da área da reabilitação e pessoas com experiência direta dos obstáculos que continuam a limitar a autonomia e a participação plena na cidade.Catarina Araújo reconheceu que o Porto continua a enfrentar desafios significativos em matéria de acessibilidade, tanto ao nível das infraestruturas como dos comportamentos cívicos. A autarca adiantou ainda que a Câmara Municipal do Porto está a preparar uma campanha de sensibilização para o segundo semestre deste ano, dirigida aos comportamentos que dificultam a circulação no espaço público.Para a vice-presidente da autarquia, a acessibilidade deve ser entendida como uma condição essencial para a vida em comunidade. “Falar de acessibilidade é falar de autonomia, e isso implica falar da possibilidade de todos viverem plenamente a cidade, a possibilidade de todos sermos comunidade.”A iniciativa, promovida na Escola Superior de Saúde Santa Maria - Santa Maria Health School, procurou discutir soluções práticas para tornar a cidade mais inclusiva e aproximar as políticas públicas das dificuldades sentidas diariamente por pessoas com mobilidade condicionada ou deficiência. Na abertura, Vítor Coutinho, presidente da direção da instituição, enquadrou a importância do tema para uma escola que forma profissionais em áreas como Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Gerontologia.O encontro contou também com a presença de Ana Sofia Antunes, antiga secretária de Estado da Inclusão e primeira pessoa cega a exercer funções governativas em Portugal. A sua intervenção trouxe ao debate uma perspetiva política e pessoal sobre os obstáculos que persistem na sociedade portuguesa.“Estas pessoas, das quais eu faço parte”, disse, “fogem ao que consideramos normal na sociedade. E o ser humano médio rejeita por natureza aquilo que não é familiar. Essa estranheza é normal, o que não é normal é o preconceito.”, sublinhou Ana Sofia Antunes.A dimensão técnica da acessibilidade foi abordada por Patrícia Graça e Liliana Costa, terapeutas ocupacionais da Santa Maria Health School. Patrícia Graça tem mais de 20 anos de experiência em intervenção precoce, reabilitação pediátrica e educação inclusiva, sendo atualmente coordenadora da Licenciatura em Terapia Ocupacional. Liliana Costa é especialista em ergonomia, acessibilidade e interação pessoa - ambiente, com trabalho nas áreas da reabilitação neurológica e ortopédica.As especialistas defenderam que o desenho inclusivo deve estar presente desde a fase inicial do planeamento urbano e não apenas como resposta posterior a obstáculos já criados. Liliana Costa alertou ainda para as limitações existentes no contexto escolar. “A escola está muito longe de ser inclusiva, já há algumas escolas com o cuidado com a acessibilidade física, mas a formação apropriada dos funcionários continua a ser um problema. Cada criança tem uma necessidade diferente, há uma incapacidade genérica - e os próprios professores têm dificuldade em lidar com situações concretas em ambiente de ensino.”Linguagem inclusiva em debateCom moderação da jornalista Catarina Marques Rodrigues, a segunda mesa do encontro centrou-se na linguagem inclusiva e na forma como as palavras podem reforçar preconceitos ou contribuir para uma cultura de maior respeito. Ana Sofia Antunes criticou expressões ainda usadas no discurso comum, como “portador de deficiência” ou “invisual”, defendendo que se deve dizer “pessoa com deficiência” ou “pessoa cega”.“Quanto muito sou portadora de mochila”, ironizou. A antiga secretária de Estado rejeitou em particular o termo “invisual”, por considerar que este não corresponde à forma como muitas pessoas cegas se veem a si próprias. “Invisual, eu até acho que tenho um bom visual”, afirmou, acrescentando que passa muito tempo sem se lembrar de que não vê.Nesta mesa, foi também abordada a tendência para a infantilização e o paternalismo em relação às pessoas com deficiência. A perspetiva foi sublinhada por Patrícia Graça, que alertou para a importância de tratar cada pessoa com autonomia, sem reduzir a sua identidade à deficiência ou assumir, à partida, incapacidade.O debate integrou testemunhos de vida e de superação. Bento Amaral, professor universitário, consultor e atleta paralímpico, partilhou a sua experiência após o acidente que o deixou tetraplégico e o percurso que o levou a tornar-se campeão mundial de vela adaptada e representante de Portugal nos Jogos Paralímpicos de Pequim, em 2008.“A sociedade somos nós. Se mudarmos a atitude, a sociedade muda a atitude -e estamos cá para ajudar a mudar. Isto começa com cada um de nós, temos de fazer nós.”, afirmou Bento Amaral.O antigo atleta paralímpico, professor universitário e consultor, com um percurso que cruza o mundo do vinho, o desporto adaptado e a inclusão, destacou também o papel dos terapeutas ocupacionais na autonomia das pessoas com deficiência. “Quero agradecer aos terapeutas ocupacionais, é graças a eles que consigo estar aqui, que consigo estar a trabalhar, que consigo viver em ambiente social. E é essencial que os alunos tenham noção da sua importância para as pessoas que necessitam de ser integradas. E os terapeutas ocupacionais devem ser ouvidos nas decisões sobre a cidade.”A fechar o painel, Diana Machado, gestora do Projeto Emprego da Associação Salvador e atleta federada de andebol em cadeira de rodas, modalidade em que é Campeã da Europa e do Mundo, sendo uma referência no desporto adaptado em Portugal, trouxe para a discussão as dificuldades sentidas nas entrevistas de emprego. Segundo a responsável, muitas pessoas com deficiência continuam a ser avaliadas antes pela sua condição física do que pelas suas competências. Sublinhou ainda que, em muitos casos, o grau de deficiência não torna as pessoas menos capazes de desempenhar as funções em causa, partilhando também a sua experiência no apoio à integração profissional de pessoas com deficiência motora. O testemunho reforçou a importância de criar oportunidades reais no mercado de trabalho e de reconhecer o potencial de todos os cidadãos.O encontro “Acessibilidade e Espaço Público: Uma Cidade para Todos” procurou, assim, ir além do diagnóstico dos problemas, apontando caminhos para uma cidade mais inclusiva, onde o espaço público seja pensado para acolher todas as pessoas — e onde a linguagem, as atitudes e as oportunidades acompanhem essa transformação.A Escola Superior de Saúde de Santa Maria, criada em 2016, herdou o património físico e formativo da Escola Superior de Enfermagem de Santa Maria, cuja origem remonta ao ensino da enfermagem iniciado em 1949 no Hospital de Santa Maria, no Porto. Atualmente, é uma instituição de ensino superior politécnico que ministra cursos nas áreas da Enfermagem, Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Gerontologia e Cuidados de Longa Duração. E também a Licenciatura de Gestão de Dados e Tecnologia em Saúde.