"Índios sabem coisas sobre as espécies da Amazónia que no início os biólogos não acreditam"

Biólogo equatoriano-venezuelano, Alejandro Arteaga ganhou fama pela descoberta de 29 espécies de animais na floresta amazónica e não só, mas também merece destaque o seu contributo para a preservação na natureza através da Fundação Khamai, ONG baseada no Equador, que conseguiu fundos para salvar 106 hectares da floresta húmida Chocó. O DN conversou com o cientista latino-americano durante a GlexSummit 2023, organizada pela Expanding do português Manuel Vaz e pelo Explorers Club de Nova Iorque e que este ano se realizou em Angra do Heroísmo. Ainda há muito por descobrir na Amazónia e populações indígenas por vezes dão pistas aos biólogos.
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Comecemos logo pelo que mais impressiona no seu currículo, a descoberta de 29 espécies. Estamos a falar de répteis, de aves, de que tipo de espécies?

As espécies que descobri são os anfíbios e os répteis. Principalmente rãs, cobras, lagartos.

Sempre animais, então?

Sim. Bem, flora não. Posso eventualmente até ter descoberto espécies de flora, mas não trabalhei nelas. Por isso não as publiquei.

Tecnicamente não as pode reclamar como descobertas científicas suas?

Exatamente, mas quem sabe, talvez num dos seus passeios encontre uma nova orquídea, uma nova palmeira e fique aí a pensar, "não sou botânico, nunca vou saber".

Quando estamos a falar de descobrir 29 espécies, isso também é possível, porque a Amazónia continua uma floresta muito por explorar. Foram todas espécies da Amazónia que descobriu?

Não, todas, mas muitas.

E em que outras partes do mundo é que fez descobertas?

Nos Andes, na região da floresta do Chocó, e nas Galápagos.

Falando da Amazónia, é sempre possível descobrir novas espécies? Há ainda muito por estudar naquela que é a maior floresta tropical do planeta?

Sim, e também porque, embora pareça que a Amazónia é relativamente homogénea, as técnicas moleculares de investigação científica não tinham sido utilizadas antes. Portanto, agora estamos a ver que muitas das espécies amplamente distribuídas que estão no Brasil, Equador, Bolívia, Venezuela, não são realmente uma espécie, mas cada uma é endémica de diferentes segmentos do rio. Ou uma está a norte do rio Amazonas, outra está a sul do rio Amazonas e são diferentes. Portanto, há bastantes.

O que diz é que na observação de alguém que não é especialista parece tratar-se da mesma espécie, mas com as adaptações locais, através do processo evolutivo, tornaram-se espécies diferentes?

Sim, essa é outra das razões pelas quais estamos agora a descobrir muitas espécies na Amazónia. É também porque agora existe finalmente a possibilidade de comparar a informação que temos num país com a dos outros países. Isso não era possível antes. Por exemplo, um cientista brasileiro em Manaus lia uma descrição de uma espécie sem fotografias e lia a mesma descrição de um colega equatoriano e dizia, bem, é a mesma espécie. Mas agora temos fotografias, vídeo, ADN, informação acústica de algumas espécies que cantam e podemos comparar. Com o mesmo e-mail ou telefonema, falamos, comparamos e dizemos, não, não são a mesma espécie.

Muitas pessoas associam automaticamente a Amazónia ao Brasil, mas, na verdade, estamos a falar da Venezuela que tem a Amazónia, do Peru que tem a Amazónia, da Colômbia, do Equador. A Amazónia tem mais unidade ou tem mais diversidade?

Quando se pensa na Amazónia, quando se fala, por exemplo, de Belém do Pará, perto do Atlântico, e se vai para a Amazónia perto dos Andes, estamos a falar de duas realidades completamente diferentes. Totalmente diferentes. As espécies que encontramos não são sempre as mesmas. De facto, é raro encontrar uma espécie com uma distribuição totalmente amazónica, por exemplo, uma que está nos dois lados pode ser a anaconda verde. Mas na Amazónia, perto dos Andes só temos uma espécie, a anaconda verde, e perto de Belém, perto do mar, há duas ou três espécies. Portanto, é diferente, não é a mesma espécie de anaconda. Por exemplo, a espécie que está presente na foz do delta do Amazonas é uma espécie que não está presente, por exemplo, perto da Cordilheira dos Andes. Portanto, a composição das espécies é diferente e o número de espécies é diferente. É interessante ver que existe um gradiente de diversidade e que há mais espécies à medida que nos aproximamos dos Andes. Isso também é interessante.

Tem alguma explicação para aumentar o número de espécies quanto mais a floresta se aproxima das altas montanhas?

Não propriamente. É realmente muito interessante.

Quando se chega aos Andes, em termos de espécies, há um mudança gradual ou há um momento em que há um limite de altitude em que tudo muda?

Essa é uma boa pergunta. Já vi que é gradual, mas depois dos 900 metros de altitude já não se começam a ver tantas espécies amazónicas. Começa-se a ver outras espécies endémicas, andinas. Até aos 900 metros de altitude, encontramos espécies típicas, há muitos animais que são típicos da Amazónia. Por exemplo, certos jacarés ou certos tucanos que se encontram em quase toda a Amazónia. Portanto, quase até esse limite, aproximadamente 900 metros. É aí que começa a tornar-se mais amazónico.

Como diz, os 900 metros são uma fronteira invisível.

Sim, e acho que tem mais a ver com a temperatura do que com a altitude.

É perigoso trabalhar na Amazónia? E estou a falar de perigos como os animais, mas também de algum tipo de criminalidade relacionada com o tráfico de droga, em tempos até com guerrilhas. Como é, para um biólogo, trabalhar na Amazónia?

Dos sítios onde já fiz investigação, acho que a Amazónia é um dos mais seguros, na verdade. Tem os pequenos riscos relacionados com o trabalho de campo, como picadas, mordidas de cobra, quedas. Há esses riscos, obviamente.

O tráfico de droga e outra criminalidade não é visível?

Sim, há, claro. Há, sobretudo nas grandes cidades da Amazónia, é preciso ter cuidado. Mas mesmo assim, não trabalho muito lá, quanto mais longe as pessoas estiverem, melhor. E quando se trabalha com as comunidades e se organiza bem, elas tomam conta de nós e tudo.

Está a falar de trabalhar com comunidades indígenas. Como cientista é bem aceite pelos índios?

Sim, claro. É preciso seguir certos protocolos. Por exemplo, se for a uma comunidade Huaorani ou a uma comunidade Achuar, primeiro tenho de ter um bom contacto na comunidade e planear com eles, envolvê-los, certificar-me de que a minha visita é um benefício para eles. Aí quase não há problemas. Se formos a um sítio sem planear previamente, sem fazer esse contacto e aproximação com as pessoas, muitas vezes podemos ter surpresas, más surpresas. Por exemplo, entrar numa terra que não sabemos quem é o dono e eles intercetarem-nos com armas.

E na sua experiência como biólogo, há alguma pista científica que tenha recolhido junto dos índios? O conhecimento que têm da floresta dá-lhe possíveis ideias de que pode haver aqui ou acolá uma espécie diferente?

Claro que temos de estar sempre atentos ao que eles dizem e à perspetiva das comunidades. Deixe-me dar um exemplo. Fui à procura de um lagarto num sítio e o que fiz foi mostrar fotografias do lagarto. E eles diziam-me que sim, já tinham visto o lagarto que procurava e encontrámo-lo mesmo onde eles disseram. Mas o mais interessante é que muitas vezes dizem-me que há outros iguais, mas de outra cor, azul. E com os meus conhecimentos, o que eu sabia era que não havia nenhum que fosse parecido com aquele em azul, como é que podia ser? E depois começámos a perguntar-lhes e, surpresa, surpresa, existe, é uma nova espécie.

Portanto, os índios podem ser uma ajuda para um biólogo.

Claro, os índios sabem coisas sobre a Amazónia que no início os biólogos não acreditam. Bem, é normal termos dúvidas, porque há muitas vezes em que não usamos a mesma linguagem. Um exemplo é também que há várias partes do Equador em que se referem a uma espécie de anfíbios sem pernas como cobras. A cobra azul é o nome que usam, incorretamente do ponto de vista da ciência, para um animal que não é uma cobra, por exemplo, que é sim um anfíbio sem pernas. Mas claro que, nesse caso, sei o que querem dizer, mas há outros casos em que não faço ideia e prefiro acreditar na palavra deles e ir verificar o que é. E aprendo.

Fala-se muito na Europa que a Amazónia está ameaçada pela ação humana para a agricultura, a criação de gado e a exploração mineira. Sente, quando está a trabalhar, que há uma verdadeira ameaça à Amazónia?

Sente-se, chega-se e vê-se a destruição, onde quer que se vá, como estão a destruir a floresta, fazem pastagens, há sempre incêndios, gado, pessoas a tirar madeira, a caçar, se a pressão for forte. Cada vez as estradas vão mais longe e já não nos sentimos tão isolados. Antes, nas primeiras vezes que fui, pensei que estava num sítio muito remoto. Agora vai-se e tem-se a loja, tem-se tudo o que se tem na cidade, nas aldeias até é pequeno. E as pessoas preferem ter um pasto a uma floresta, principalmente os colonos. As comunidades indígenas são diferentes, mas diria também que muitas, ao contrário da perspetiva europeia - porque muitas vezes há esta perspetiva de que a maior parte das comunidades indígenas vivem em perfeita harmonia com a natureza -, da minha experiência muitas vezes não é assim. Há muitas que utilizam os recursos para a sua existência da mesma forma que os colonos. Portanto, é um equilíbrio complicado.

leonidio.ferreira@dn.pt

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