"Está a situação de calamidade." Foi desta forma que David Neves, presidente da Federação Portuguesa das Associações de Suinicultores (FPAS), descreveu ao DN, esta sexta-feira, 30 de janeiro, em Leiria, o cenário na região e nos concelhos vizinhos após a passagem da depressão Kristin. O dirigente alerta para a destruição que, em muitos casos, é invisível para quem não conhece o terreno: "Ninguém tem noção do que é que aconteceu nesta zona".A situação nas explorações pecuárias é crítica. Sem eletricidade, água ou acesso a rações, os produtores enfrentam o desespero de não conseguir manter os animais vivos. Estão "com os corações devastados, completamente devastados. E isto é gravíssimo", relatou. Segundo o presidente da FPAS, as empresas da região ficaram "completamente devastadas", especialmente nas zonas mais florestais, onde as infraestruturas de suinicultura são predominantes e onde as consequências da tempestade foram "absolutamente catastróficas".A falta de serviços básicos forçou os produtores a medidas extremas. "Já vi pessoas aproveitarem a água da chuva, canalizar a água que aparece da chuva para dentro das explorações, para alimentar os animais, porque estamos numa situação muito, muito complicada", descreveu ao DN. A grande angústia, sublinha, é o bem-estar animal: "Como é que alimentamos os animais? É ver os animais a morrer de fome".Perante o isolamento de muitas explorações devido à quebra nas comunicações, a federação reativou uma linha de apoio urgente. "Criámos uma linha de apoio, uma linha SOS para que as pessoas possam comunicar conosco, dizer o que é que têm", explicou David Neves, referindo que as chamadas chegam de centenas de explorações situadas entre "a zona do Carnaval, Sertã e acima de Coimbra".Para o dirigente, esta crise ultrapassa o prejuízo individual dos agricultores, tratando-se de uma questão estratégica para o país. "Nós estamos a falar de soberania alimentar, nós estamos a falar de uma região que produz mais de 50% da produção nacional. E, portanto, é preciso olhar para isto, é preciso criar condições para que estas pessoas se possam reerguer".Pressão sobre o Governo: "Não vamos arredar pé"David Neves aproveitou a presença do Presidente da República e da ministra da Administração Interna na região para exigir uma intervenção rápida do Executivo, tendo também uma reunião agendada com o Ministro da Agricultura para o dia 3 de fevereiro. O objetivo é garantir que o setor não seja esquecido no processo de reconstrução. "Da nossa parte, há uma coisa que o senhor Ministro pode ter a certeza: nós não vamos arredar pé sem encontrar soluções para estas pessoas", garantiu.A federação espera ter um diagnóstico completo dos danos do setor até à próxima segunda-feira, de forma a sustentar os pedidos de apoio que apresentará à tutela. Com RSF