A Ordem dos Médicos manifestou esta sexta-feira, dia 20 de fevereiro, em comunicado enviado às redações, a sua “profunda preocupação face às notícias tornadas públicas esta semana que dão conta da morte de doentes, nos últimos três anos, enquanto aguardavam cirurgia cardíaca”. Ao DN, o diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital Santo António, André Luz, um dos subscritores da carta, assumiu ter havido “doentes com consequências fatais” e outros que ficaram com mais complicações na doença, pelo tempo de espera para uma cirurgia cardíaca ou para uma implantação de válvula aórtica.Mas numa entrevista à RTP, quinta-feira, dia 19, André Luz terá referido que houve uma dezena de doentes que morreram nos últimos três anos enquanto esperavam. E a Ordem dos Médicos exige agora à Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) “o apuramento rigoroso e transparente de todos os factos, designadamente a identificação do número de mortes ocorridas em lista de espera, a caracterização clínica dos casos, os tempos médios e máximos de espera e as condições organizativas que possam ter contribuído para estes desfechos”.Segundo refere na nota emitida esta sexta-feira, a confirmaram-se tais “factos representam uma falha grave na resposta assistencial e colocam em causa princípios essenciais de equidade, qualidade e segurança dos cuidados prestados às pessoas com doença cardíaca, frequentemente em situação de elevada vulnerabilidade clínica”.Para a Ordem, este esclarecimento “é imprescindível” e “deve ser promovido com carácter de absoluta urgência pela DE-SNS”, que acusa de estar a ter uma “atuação nesta matéria manifestamente insuficiente”. Atribui também responsabilidades ao Ministério da Saúde, a quem, diz, “compete assegurar a tutela efetiva, a coordenação estratégica e a responsabilização política das decisões tomadas”..Hospitais do Norte alertam ministra para listas de espera em cirurgia cardíaca: “Há doentes em risco”.Recorde-se que a carta enviada à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, na noite de quarta-feira, pelos diretores de Serviço de Cardiologia de quatro hospitais do Norte - Santo António, Vila real, Matosinhos e Penafiel - alertava para o facto de os centros de referência que prestam cuidados na área da cirurgia cardíaca e implantação da aórtica, nos hospitais de Gaia e São João, estarem sobrecarregados e sem capacidade para dar resposta a todos os doentes em tempo adequado, enquanto há serviços na região que têm infraestruturas e competências técnicas para prestar estes cuidados e não o podem fazer.O diretor de Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo António, André Luz, confirmou esta situação ao DN, explicando ainda que "ninguém quer tirar nada a ninguém. O nosso objetivo é poder tratar os doentes". Mas assumir que os hospitais de Santo António e de Viela Real têm infraestruturas e competências técnicas para tratar os próprios doentes em vez de os referenciar para Gaia e São João, está a gerar "fricção" entre serviços. Gaia, por exemplo, e em reposta a perguntas do DN, considera que a haver investimentos da tutela nesta área, estes têm de se feitos nos serviços que integram a rede de centros de referência. O diretor de serviço de Cardiologia explica que, para já, queremos poder tratar os nossos doentes para que não fiquem em lista de espera, depois podemos discutir a nossa integração na rede de centros de referência. Do lado da Ordem dos Médicos, o presidente do Colégio de Cirurgia Cardiotorácica, José Neves, defendeu ao DN que há uma rede de referenciação e que esta deve ser respeitada. O Ministério da Saúde, por outro lado, e em respostas ao DN, assumiu nada ter a opor à criação de uma unidade, desde a criação destas fosse uma deliberação do Conselho de Administração da ULS Santo António.O DN questionou, na quinta-feira, o CA da ULSSA, sobre o que iria fazer a seguir e o objetivos que tinha para o futuro, mas não obteve resposta. Mas já questionou também a Direção Executiva do SNS e Direção Geral da Saúde, a quem compete encontrar “soluções urgentes” para as listas de espera, segundo afirmou ao DN, o Ministério da Saúde, sobre o que iriam fazer em relação a esta situação, e também não obteve respostas.No seu comunicado, a Ordem dos Médicos recorda-se que “a Rede Nacional de Referenciação de Cirurgia Cardíaca foi criada para concentrar competências, garantir equipas diferenciadas e assegurar qualidade e segurança clínica. A sua atualização mais recente, em 2023, integrou novas unidades hospitalares, mas qualquer alteração estrutural deve ser sustentada em evidência técnica sólida e acompanhada de recursos humanos adequados”. Por outro lado, alerta que “a escassez de médicos especialistas em cirurgia cardíaca é uma realidade conhecida, o que torna o equilíbrio da rede particularmente sensível a decisões precipitadas ou a constrangimentos orçamentais que infelizmente o Orçamento de Estado de 2026 está a impor em muitas áreas”..Ministério quer “soluções urgentes” para resolver listas de espera na cardiologia do norte.A Ordem sublinha ainda que “a gestão de listas de espera para procedimentos de elevada complexidade não pode ser tratada como mera variável administrativa. Exige planeamento estratégico e monitorização contínua. Quando um doente com indicação cirúrgica morre antes de ser operado, estamos perante uma possível falha sistémica que tem de ser analisada com seriedade e responsabilidade. A confiança das pessoas no SNS constrói-se na garantia de que, perante uma doença potencialmente fatal, o sistema responde atempadamente. Essa confiança não pode ser fragilizada”.