Quatro hospitais com serviços de cardiologia – Santo António, no Porto, Pedro Hispano, em Matosinhos, Padre Américo, em Penafiel – subscrevem uma carta sobre o panorama na cirurgia cardíaca na região Norte. Ao que o DN apurou, a carta será entregue já esta quinta-feira, 18 de fevereiro, ou nos próximos dias à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e pretende alertar para a lista de espera de doentes com problemas cardíacos a necessitar de cirurgia ou de implantação da Válvula da Aórtica e que só podem ser referenciados para os dois centros existentes nesta área, nos hospitais de Vila Nova de Gaia e São João."Hospitais que fazem o seu trabalho meritório, mas que não estão a conseguir dar resposta no tempo adequado, enquanto há outros serviços, como o nosso, com infraestruturas e competências técnicas para se tornar um centro cirúrgico e de implantação da Válvula da Aórtica e que há mais de dez anos aguarda autorização para o poder fazer”, explica ao DN o diretor de Serviço de Cardiologia do Hospital Santo António, André Cruz, promotor desta carta de alerta.Segundo explicou ao DN, o médico diz sentir-se indignado e não compreender como é que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) “pode continuar a desperdiçar meios e competências técnicas que existem num hospital central e universitário como o Santo António, preferindo manter doentes em lista de espera durante meses”.Fontes da área da cardiologia da região Norte indicam que até agora apenas existiam dois centros de referência para a área da cirurgia cardiotorácica e implantação de válvula da aórtica, um sedeado no Hospital de Vila Nova de Gaia, que integra a ULS Gaia/Espinho, e outro no Hospital São João, da ULS São João. Mas há um mês e meio surgiu o terceiro para responder aos doentes mais ao Norte ainda e do interior no Hospital de Braga e que estava definido desde 2023, na Rede Nacional de Referenciação, mas que só agora começou a funcionar. A questão é que, sublinham ao DN as mesmas fontes, os dois centros de referenciação têm de dar resposta aos seus próprios doentes e aos doentes destes quatro hospitais e de outros da região norte. Só no caso das quatro unidades que agora enviam a carta a Ana Paula Martins a alertar para o panorama das listas de espera, é dito ao DN que "todos os anos são referenciados entre 500 a 600 doentes para cirurgia e para implantação da Válvula Aórtica. No ano passado, o Santo António referenciou mais de 250 doentes, cerca de 190 para cirurgia e os restantes para implantação de válvulas”, afirma André Luz. Em relação aos outros hospitais, os números referidos ao DN não são tão concretos, mas garantem-nos que cada um deve ter encaminhado entre “120 a 160 doentes para cirurgia e 50 a 60 para implantação de válvulas”.Sobre a questão do que parece ser uma “guerra” entre serviços e hospitais, o diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital Santo António argumenta que “o problema não são os serviços ou quem faz o quê". "Não queremos tirar competências nem serviços a ninguém, queremos apenas fazer o trabalho para o qual estamos preparados em termos de infraestruturas e de competências técnicas para o fazer”, disse, ressalvando: “A questão é que há doentes em risco”, referindo um estudo elaborado pelos colegas do Hospital de Braga e publicado que indica que “a mortalidade nesta área é elevada.”.Diretor da Cirurgia Cardiotorácica de Coimbra defende aumento da eficiência do SNS .O médico relata mesmo que “há doentes que esperam meses - cerca de 40% dos doentes que referenciamos para Vila Nova Gaia são intervencionados fora do tempo regulamentar, e tivemos um que esperou mesmo 11 meses por uma intervenção -, outros que acabam por ficar com mais comorbilidades e outros que têm consequências fatais enquanto esperam. A verdade é esta”. André Luz volta aos exemplos noutras zonas do país para demonstrar que ainda há espaço e competência no país para se apostar na criação de centros cirúrgicos e de implante valvular em mais zonas do país. "O Hospital de Évora que encetou uma batalha para poder ter um centro de implantação de válvulas, conseguiu-o e está a registar resultados. No último ano, cerca de 300 doentes foram sujeitos a este procedimento terapêutico. Se é assim, porquê mantermos doentes em lista de espera?”, questiona.A situação vivida no Norte levou estes quatro hospitais a querem dizer “basta” e a escreverem à ministra para a recordar que recentemente abriu mais um centro cirúrgico em Braga, mas são precisos mais. “Basta ver as métricas”, defende o médico do Santo António. “Só na região norte devem existir cerca de quatro milhões de pessoas, de acordo com as métricas internacionais pode haver um centro cirúrgico por milhão de habitantes, o que quer dizer que ainda há espaço para a abertura de mais um centro nesta área no Norte”.A intenção do Santo António é mesmo esta, e não a negam: “Fazer crescer o serviço nas duas vertentes, centro cirúrgico e de implantação de válvulas”, assume o diretor de Cardiologia. O DN sabe ainda que o Hospital de Vila Real pretende tornar-se um serviço com competências na área da implantação de válvulas, tal como aconteceu no hospital de Évora. E que as duas outras unidades que subscrevem a carta de alerta a enviar à ministra da Saúde - Penafiel e Matosinhos - apenas o fizeram “pela lista de espera que se têm vindo a registar nesta área”.Secretários de Estado concordam com centro no Santo António, Colégio da Ordem nãoEm setembro do ano passado, o Hospital de Santo António já tinha lançado um alerta à Direção Executiva e à Direção-geral da Saúde sobre a situação de agravamento das listas de espera, solicitando autorização para poder avançar com a prestação de cuidados nesta área que está “programada há mais de dez anos”, reforça André Luz. O mesmo pedido foi enviado aos dois secretários de Estado, que depois de solicitarem informação técnica e na resposta enviada à Direção Executiva a 2 de outubro afirmam nada terem “a opor do ponto de vista técnico”. Mas esta não é a opinião do Colégio da Especialidade de Cirurgia Cardiotorácica da Ordem dos Médicos.Ao DN, o presidente, José Neves, explica que em 2023 foi aprovada uma rede de referenciação para centros cirúrgicos e de implantação de válvulas pela própria tutela que apenas previa a criação de mais dois centros, em Braga, e em Faro, que se juntavam assim aos seis já existentes no país.No documento em que o Colégio da Especialidade em conjunto com a Sociedade Portuguesa de Cirurgia Cardíaca e Vascular toma posição, enviada à Direção Executiva do SNS, e à qual o DN teve acesso, é referido que a criação de novos centros cirúrgicos ou para procedimentos cardiológicos é vista com “reserva e extrema cautela”, sobretudo tendo em conta a “segurança dos procedimentos”. Na mesma, concluiu-se que “a expansão da integração estrutural em Portugal deve ser conduzida com prudência, salvaguardando a segurança dos doentes, a qualidade assistencial e a racionalidade na utilização de recursos humanos e técnicos”.O presidente José Neves sustenta ao DN não caber ao “colégio da especialidade definir quantos centros devem ser criados, esse papel é do Estado, do ministério ou da Direção Executiva do SNS”, mas “o que o colégio e a Ordem dos Médicos não podem aceitar é que sejam criados centros em serviços que não correspondem às normas internacionais para a prática destes procedimentos”.O presidente do colégio diz referir-se ao caso do serviço do Hospital de Santo António que, explica, “na proposta que fez para a criação de um centro deste tipo indica dois cirurgiões, sem sequer assegurar urgência durante 24 horas os 365 dias. Ora, querem fazer cirurgias e intervenções, mas depois se os doentes necessitarem de tratamentos adicionais são os outros hospitais que os têm de tratar?” Por isso, defende que “uma alteração à rede de referenciação não pode ser tratada “de ânimo leve”.Ao DN, André Luz explica que o serviço que dirige tem três cirurgiões, os mesmo que existem em qualquer serviço destes nos cinco hospitais privados do Porto, então estes também não poderiam estar a funcionar”, alega. “O que propomos é começarmos a fazer este trabalho aos nossos doentes, podendo receber doentes dos restantes hospitais e aliviando as listas de espera que existem, depois poderemos discutir até a nossa integração na rede de referenciação dos centros cirúrgicos”..Três milhões de euros para Centro de Cardiologia.Centro de Vila Nova de Gaia diz ter 170 doentes em lista de esperaDo lado dos hospitais que são hoje centros de referência, a opinião é a de que qualquer investimento feito pela tutela deve ser “nos centros que já existem para melhor se tratar os doentes”, argumentaram ao DN. Fonte da ULS Gaia/Espinho pormenoriza mesmo que “o Centro de Referência de Cirurgia Cardio-Torácica da ULS Gaia e Espinho realizou 1420 cirurgias cardíacas durante o ano de 2025, correspondendo a um dos maiores volumes de atividade a nível nacional”. E que em relação à lista de espera, “há data apenas 171 doentes para cirurgia cardíaca eletiva”.A mesma fonte garante que “os doentes rodos os são inscritos em lista de espera de acordo com a prioridade clínica definida pelas normas nacionais e que tempo médio de espera atual é de 2,35 meses, com mediana de 2,3 meses, valores que se encontram dentro dos padrões assistenciais esperados para este tipo de atividade altamente diferenciada”, explicando até que “houve uma redução de 38% do tempo de espera (de outubro de 2024 a janeiro de 2026)”.Por outro lado, salvaguarda ainda a mesma, “os resultados clínicos obtidos pelo centro são excelentes, encontrando-se alinhados com as melhores práticas e benchmarks internacionais, o que reflete a experiência acumulada das equipas e o elevado volume de atividade desenvolvido”.André Luz reconhece que “os centros de referência têm feito o seu trabalho e se não fazem mais é porque não podem”, voltando a reforçar que o que está em causa é o facto de haver serviços que podem trabalhar da mesma forma e não lhes é permitido. “Penso que esta notícia de que há centros que podem ajudar a limpar listas de espera é boa para os doentes e para o SNS, não percebo as resistências”.Para as fontes da ULS Gaia/Espinho, a questão é que “a abertura de novos centros cirúrgicos ou de implante valvular aórtico no Norte deve ter em conta a organização da rede assistencial nestas áreas e deve obedecer a critérios técnicos, científicos e de planeamento em saúde, garantindo simultaneamente qualidade, segurança, diferenciação e sustentabilidade do SNS”, justificando que a “Rede Nacional de Referenciação para a área da cirurgia cardiotorácica e das intervenções estruturais cardíacas, foi publicada em 2023 pela Direção Executiva do SNS, precisamente com o objetivo de assegurar uma distribuição racional da atividade assistencial, evitando dispersão de recursos altamente diferenciados e garantindo volumes adequados de atividade por centro”.