Diretores dos serviços de Cardiologia dos hospitais de Santo António, no Porto, de Vila Real, em Trás-os-Montes, de Matosinhos e de Penafiel endereçaram na quarta-feira à noite uma carta à ministra da Saúde, Ana Paula Martins. Nesta, descreviam a realidade que se vive há algum tempo na área da cirurgia cardíaca e da implantação de Válvulas Aórticas (TAVI, Transcatheter Aortic Valve Implantation, sigla inglesa). Ou seja, os dois centros de referência que prestam estes cuidados (a funcionar nos hospitais de Gaia e São João) estão "sobrecarregados" e "sem capacidade de resposta", quando “há outros serviços - como o do Santo António que ‘tem infraestruturas e competência técnica para a cirurgia e para TAVI’, e o de Vila Real, nos procedimentos TAVI - que poderiam prestar estes cuidados e ajudar a reduzir as listas de espera e que não o podem fazer”, afirmao DN am.Isto mesmo é relatado na carta à ministra, a qual - e como referiu ao DN o diretor do Serviço de Cardiologia do Santo António, André Luz, na edição de quinta-feira, dia 19 - pretende ser um alerta, pois a realidade “está a colocar em risco os doentes da região norte”, assumem. André Luz recordou ao DN que o problema em relação ao Hospital de Santo António tem mais de dez anos, já que a criação de um centro cirúrgico e de TAVI foi aprovada pelo ministro Paulo Macedo no último governo de Passos Coelho mas revogada pelo Governo seguinte. E “desde essa altura que é o deserto, nada acontece”, comentou. Os restantes diretores de serviço assumem que subscreveram a carta como um alerta para “o bem dos doentes”, porque “do ponto vista clínico é urgente que se tomem decisões”. O Ministério da Saúde, em resposta a questões do DN, admite que a tutela, através de um despacho assinado pelos dois secretários de Estado, no início de outubro de 2025, já manifestou “a não oposição à criação da referida unidade (cirúrgica, no caso do Hospital Santo António), caso essa unidade viesse a acontecer mediante deliberação do Conselho de Administração.” Acrescentando que, “havendo listas de espera acima do Tempo Máximo Regular Garantido (TMRG), é fundamental que os órgãos competentes, avaliem todas as soluções desde que, naturalmente sustentadas pelas melhores práticas clínicas e suportadas pelos peritos. Tais soluções envolvem sempre a DGS, DE-SNS e o Ministério da Saúde”. Por fim, o ministério diz que “dirigirá aos órgãos já referidos o pedido para que se apresentem soluções urgentes para estes doentes.”Na peça de dia 19, o médico André Luz relatava haver “doentes que esperam meses, cerca de 40% dos doentes que referenciamos para Vila Nova Gaia são intervencionados fora do tempo regulamentar, tivemos um que esperou 11 meses por uma intervenção, outros que acabam por ficar com mais comorbilidades e outros que acabam por ter consequências fatais enquanto esperam. A verdade é esta” - todos os anos estes quatro hospitais encaminham em média entre 500 a 600 doentes para cirurgia e para TAVI para os centros de referência dos hospitais de Gaia e de São João.Cristina Gavina, diretora do Serviço de Cardiologia, do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, diz ao DN que esta carta de alerta faz sentido por estarmos “a falar de listas de espera que incluem pessoas com uma clara indicação para intervenção e que podem esperar um ano, o que é inadmissível, porque a cada mês aumenta o risco de haver uma complicação. E temos tido, efetivamente e infelizmente, casos de pessoas que morrem enquanto estão em lista de espera. Se tivéssemos a oportunidade de ter um tratamento mais atempado, provavelmente teríamos outros resultados”. José Ilídio, diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital de Vila Real, em Trás-os-Montes, diz também considerar ser urgente que “alguém de consensos olhe para esta questão e que saia de fora dos lobbies que estão naturalmente sempre ligados a diversos panoramas e a diversas situações, e que, de forma desinteressada, olhe para o mapa do país e veja que há, realmente, uma zona do interior, com mais de 400 mil pessoas, provavelmente é a maior do país, que precisa de um centro para implantação de TAVI, de forma urgente, e que o nosso hospital tem um serviço com condições e com experiência para o fazer”. Do lado do Hospital Padre Américo, Penafiel, a diretora do Serviço de Cardiologia, Aurora Andrade, assume ter subscrito a carta por haver “uma necessidade urgente de colocar este tema na ordem do dia”. Aliás, o próprio Conselho de Administração da ULS Tâmega e Sousa, em comunicado enviado ao DN, admite que “a ULSTS não dispõe de cirurgia cardiotorácica e o seu Serviço de Cardiologia não tem no horizonte a pretensão de se constituir como centro de implantação de válvulas aórticas percutâneas”, mas que a “subscrição da carta enquadra-se numa reflexão mais ampla sobre a capacidade global da rede nesta área altamente diferenciada”. Segundo é referido, “o Serviço de Cardiologia da ULSTS entende que, sempre que estejam reunidos os critérios técnicos e de qualidade exigidos pelas entidades competentes, o eventual reforço da capacidade instalada poderá contribuir para otimizar a resposta assistencial aos doentes na região. A posição da ULSTS centra-se exclusivamente na garantia de continuidade de cuidados e no acesso seguro e adequado dos seus utentes às intervenções necessárias.” .Hospitais do Norte alertam ministra para listas de espera em cirurgia cardíaca: “Há doentes em risco”. O DN questionou ainda o CA da Unidade Local de Saúde de Santo António, no Porto, já que a carta de alerta foi promovida pelo seu serviço, pois o próprio hospital aspira há muitos anos a criação de um centro cirúrgico, mas não obteve qualquer resposta. “Não é admissível que o Norte não tenha o mesmo acesso aos cuidados que o Sul” Cristina Gavina, de Matosinhos, explica que a solução que defendem para os doentes da região Norte já é praticada no Sul e com “bons resultados” - ou seja, tanto o Hospital de Évora como o de Almada têm serviços onde é feita a implantação da válvula aórtica - e “não é admissível que esta resposta não seja igual para todo o país”. A cardiologista reconhece que o serviço que dirige é, entre os que subscreveram a carta enviada à ministra da Saúde, “aquele que é menos diferenciado. Estamos na base da pirâmide, porque não temos laboratório de hemodinâmica”, mas se “subscrevi esta carta - posição que dei conta à direção clínica - é porque nos alinhamos indiscutivelmente na luta pelo interesse no acesso do doente a todos os cuidados”. A médica refere que o seu serviço, que tem uma área de influência de 330 mil pessoas, juntando as da Póvoa do Varzim e de Vila de Conde, está a drenar os doentes para o Hospital de São João (HSJ), que “está extremamente sobrecarregado na capacidade de resposta e com limitações, inclusivamente financeiras”, alerta. Por exemplo, “posso dizer-lhe que o HSJ - cujos colegas fazem um excelente trabalho e com quem temos uma ótima relação -, no caso da TAVI, tem imensas limitações financeiras pelo número de dispositivos que lhe são permitidos implantar a cada ano. E isto faz com que as listas de espera vão aumentando sucessivamente.” A médica reforça ainda que aquilo que "nos preocupa neste momento é não haver capacidade efetiva de drenagem dos doentes. Chegamos a ter doentes internados mais de um mês no hospital a aguardar uma cirurgia cardíaca. É inadmissível”, sublinhando que "o problema está nos hospitais que neste momento têm autorização, digamos assim, para realizar estes procedimentos que têm muitos constrangimentos”. Ao DN, a médica especifica ainda que “a decisão sobre se deve haver mais centros cirúrgicos ou se se deve otimizar os centros que já existem, é política, mas a questão que levantamos agora é a de que tem de haver mais resposta para os doentes do norte. E, esta, é uma questão clínica, que tem de ser resolvida rapidamente”. Aliás, sublinha, “foi possível uma solução em Évora e em Almada, colocando serviços preparados a fazer este tipo de procedimentos, no norte existem também serviços com competências e vai ter de ser possível fazer-se o mesmo”, porque “não há nenhuma razão objetiva para que seja diferente”.Cristina Gavina concorda com o colega André Luz quando diz que “a situação dura há vários anos e que se tem vindo a agravar pela incapacidade de resposta na área da cirurgia cardíaca e na área das TAVI. E quem tem doentes em listas de espera precisa que o problema seja resolvido rapidamente”.José Ilídio, diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital de Vila Real, defende o mesmo. “O problema tem de ter uma resposta rápida”, disse ao DN, explicando que a tomada de posição através de uma carta de alerta, nada tem a ver “com os serviços de cirurgia cardíaca do Porto estarem a trabalhar mal, não. São serviços excelentes. No caso de Vila Real, os doentes são drenados para o Hospital São João que nos dá o apoio possível. Mas é um apoio com limitações, porque o número de doentes com necessidade destes tratamentos tem aumentado, devido ao aumento da esperança de vida aumenta, e a capacidade de resposta nos cuidados não aumentou na mesma proporção”. .Cardiologistas querem que espera para cirurgia seja no máximo de três meses. O médico refere que o seu serviço drena para cirurgia e TAVI mais de uma centena de doentes por ano, quando “no que diz respeito à implantação de válvulas aórticas, a patologia mais frequente na população idosa, temos capacidade para tratar estes doentes e em tempo adequado, o que não é o caso dos doentes referenciados para o Porto”. E reforça: “O serviço em termos de prática tem números que nos permitem trabalhar com segurança e manter técnicas da melhor qualidade possível”. Para Vila Real, ou para a região de Trás-os-Montes e Douro, um centro de implantação valvular faria toda a diferença, porque “estamos a falar de uma região do interior, com mais de 400 mil pessoas, sobretudo idosa, que já tem dificuldade em chegar ao nosso hospital quanto mais aos do Porto”. Os médicos dos quatros hospitais esperam agora que “alguém nos chame para que possa ser discutido com quem está no terreno soluções eficazes que garantam aos doentes a capacidade de resposta, que não existe. Isto é o mais importante no momento”, alerta Cristina Gavina.