Em janeiro de 74 tinha 17 anos e frequentava o 7.º ano do “Garcia”. Graças ao reitor, o professor Adriano Vasco Rodrigues, homem culto e próximo de Veiga Simão, o Liceu Garcia de Orta era o mais avançado da época; nas aulas, conseguíamos discutir, muitas vezes nas entrelinhas, os temas proibidos..Por essa altura, incentivado por um professor, estreei-me nas edições, com o Jornal de Filosofia - eu e dois amigos, o Joaquim Carmona e o José Manuel Fonseca. Produzido na revolucionária fotocopiadora Xerox da fábrica de meu pai, causou escândalo e logo foi apreendido. Basta dizer que um dos seus textos era dedicado a “marxismo e psicanálise”, episódio que, a par de uma manifestação contra uma professora de Inglês que não dominava o idioma, nos valeu uma longa suspensão. .Como o José Manuel, mais tarde administrador da Casa da Música, era sobrinho do professor e melómano Manuel Dias da5 Fonseca, acabámos por ter sessões de música clássica em casa deste, em Matosinhos, ouvindo Schoenberg na companhia de Eugénio de Andrade..Os estudos diários decorriam quer no Café Bela Cruz - que pena ter fechado as portas! -, quer em casa da João e da Suzana Ralha (que viria a abrir a escola de música dos Gambozinos). O nosso disco favorito era o recém-chegado Killing Me Softly With His Song , de Roberta Flack, que substituíra o cansado e já riscado Je T’Aime, Moi Non Plus, de Gainsbourg e Birkin. .Os fins de semana eram dedicados à vela, às regatas de Snipe, em Leixões, sempre coroadas por uma passagem pela discoteca Batô, que ainda existe, e que abria ao fim da tarde..A vida era muito diferente do que é hoje. O país parecia recusar teimosamente a modernidade. Em casa, à noite, ouvia as discussões políticas eternas entre o meu pai e o seu inseparável irmão Mário, que me trouxera de Paris, escondido na mala, Le Portugal Bailloné, de Soares, que li e ainda guardo. Tal como me trouxera um par de Levi’s e, sempre que se lembrava, algumas garrafas de Coca-Cola, que eu guardava religiosamente, depois de consumidas..Estávamos a meses do 25 de Abril, mas até eu, com 17 anos, percebia que vivíamos numa cápsula do tempo, num regime velho. Já ninguém acreditava no que nos continuava a ser dito. E quanto mais esclarecidas eram as pessoas - mesmo aquelas que acreditavam ou tinham interesse na manutenção do regime -, maior era a sua convicção íntima de que estavam a viver os últimos dias de um tempo velho..Talvez por isso, nunca tive receio ou ansiedade por ter de ir para a guerra. Pressentia, e tinha razão, que acabaria antes de eu ser chamado, mesmo que isso sucedesse precocemente e por inadequado comportamento. Depois, tudo mudou um dia..Texto recolhido por Alexandra Tavares Teles