Onde eu estava... por Maria da Conceição Aguiar

Onde eu estava... por Maria da Conceição Aguiar

Tem dois filhos, quatro netos, dois bisnetos. Nasceu no Porto há 76 anos. É assistente dentária
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Há 50 anos vivia em Bruxelas. Saíra de Portugal em março de 1970, com uma filha de um ano, para ir reunir-me com meu marido, exilado político na Bélgica. Ele partira um mês antes, para escapar à guerra coloquial. A salto, por Chaves, depois do meu sogro ter dado bastante dinheiro - creio que 30 contos -, ao senhor que iria levar o filho ao lado de lá da fronteira.

Não foi fácil ir ter com o meu marido. O meu passaporte demorou algumas semanas. Na altura, trabalhava como técnica nos laboratórios de bacteriologia da faculdade de Medicina do Porto, a cidade onde nasci. Era, portanto, funcionária pública. Como não fazia ideia do tempo que teria de viver na Bélgica, nem se imaginava o fim do regime para tão cedo, vi-me obrigada a pedir a exoneração.

Sabia bem que no estrangeiro me esperavam duas alternativas: ou me declarava emigrante, ficando sujeita às tarefas possíveis - ser empregada doméstica ou de mesa -, ou pedia, à semelhança do meu marido, asilo político, ‘carta’ que dando acessão a melhores empregos e, mesmo, à universidade me deixava impedida de entrar em Portugal, nem que fosse para visitar a minha família.

Temendo as saudades, aceitei ser empregada doméstica. Servi à mesa em restaurantes. Fiz consertos de roupas nos armazéns Paris-Londres. Porém, rapidamente percebi que teria de escolher a segunda hipótese. Desde logo, porque queria estudar. Assim foi.

De maneira que em janeiro de 1974, a minha vida estava estabilizada. Vivamos numa casa muito simpática, o meu marido trabalhava num atelier de arquitetura e eu num dentista.

Maria da Conceição Aguiar nasceu há 76 anos no Porto.

Em janeiro, Bruxelas é gélida. Lembro-me da neve e de como a minha filha detestava ir para a escola nesses dias. A Bárbara andava num infantário onde havia crianças de várias nacionalidades, muitos filhos de exilados políticos. Em janeiro, estava prestes a fazer cinco anos. Pouco tempo antes, visitara os avós em Portugal. Era muito engraçado porque partia da Bélgica sem dizer uma palavra de português, apesar de em casa tentarmos falar com ela na nossa língua, e chegava, ao fim de um mês e meio, incapaz de dizer uma palavra em francês. Precisava de uns dias para se lembrar.

Quem aprendeu umas palavras em português foi o meu patrão. E alguns hábitos que levei da casa da minha mãe. Por exemplo, chá e bolachas a meio a tarde.

A Bélgica não foi um acaso. O irmão do meu marido já lá vivia há uns anos, também exilado político. Com os dois únicos filhos em Bruxelas, os meus sogros iam visitar-nos de vez em quando. As saudades eram muitas. Recordo-me bem de ter feito uma ceia de Natal em agosto. Bacalhau, rabanadas e sonhos a pedido do meu cunhado e de outros refugiados, ansiosos por revisitarem sabores e aromas portugueses. O Natal é mesmo quando quisermos que seja.

Em janeiro de 1974 eu tinha 26 anos. Em 20 de abril desse ano, comemorei o meu 27 aniversário longe de imaginar que dali a cinco dias Portugal iria mudar. Que em julho, finalmente, regressaríamos a casa.”

Texto recolhido por Alexandra Tavares Teles

Diário de Notícias
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