Em janeiro de 1974 eu era aluno do Seminário dos Olivais e da Faculdade de Teologia da Universidade Católica. Tinha 25 anos e concluíra a licenciatura em História na Faculdade de Letras de Lisboa e no ambiente estudantil da época.A entrada no Seminário decorrera do quanto fizera antes, como jovem leigo, no âmbito eclesial, participando na paróquia de origem e em vários movimentos, especialmente o Escutismo Católico. Fui percebendo que era esse o meu lugar, em dedicação plena e horizonte sacerdotal.Tudo acontecera com forte influência do Concílio Vaticano II (1962-1965) e da motivação que nos dera para participarmos mais consciente e ativamente na Igreja e no mundo. Éramos poucos, no Seminário, e em troca constante de ideias e projetos. Também no que respeitava aos acontecimentos nacionais e internacionais, que seguíamos atentamente. O nosso reitor era um sacerdote na casa dos 30, que se doutorara em Roma com uma tese sobre “os sinais dos tempos” e que nos ajudava a divisá-los na altura. Chamava-se José Policarpo e seria bispo em 1978 e patriarca de Lisboa de 1998 a 2013. .Jornada Mundial da Juventude Lisboa - dia 1Lisboa, 31/07/2023 - Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa durante a primeira conferencia de imprensa da Jornada Mundial da Juventude Lisboa (JMJ). A JMJ decorre em Lisboa, de 1 a 6 de agosto de 2023. A iniciativa promove o encontro de milhares Reinaldo Rodrigues/Global Imagen | REINALDO RODRIGUES.Seguíamos com especial atenção alguns acontecimentos nacionais que pressagiavam mudanças. Era forte o pressentimento de que o ano não acabaria como começava… Na Faculdade, com professores e colegas de várias proveniências socioculturais, o debate alargava-se, das aulas para os intervalos. Por tudo isto, o dia 25 de Abril não nos apanhou totalmente de surpresa..Desde 1971 tínhamos como patriarca D. António Ribeiro, nascido em 1928 e bem integrado no seu tempo. Fora o principal autor da Carta Pastoral no 10.º aniversário da Pacem in Terris, documento com que a Conferência Episcopal Portuguesa, relembrara, em 4 de maio de 1973, a encíclica que João XXIII dedicara “a uma justa organização da sociedade, com vista a atingir o precioso bem da paz”..Com efeito, nessa carta pastoral líamos frases como as seguintes, com aplicação imediata a Portugal: “Não poderemos descansar enquanto a expansão económica favorecer desmedidamente alguns, sem proporcionar a todos os cidadãos a parte equitativa que lhes cabe na produção e na distribuição de bens. Não poderemos deter-nos (…) enquanto as possibilidades de acesso à educação e à cultura não estiverem generalizadas a todos os portugueses, enquanto houver quem se sinta indefeso perante a doença e a velhice…” Mas ia-se mais a fundo, quando se exigiam condições essenciais para a participação sociopolítica, muito condicionada na altura: “A escolha dos dirigentes políticos é aspeto de principal importância na vida do País. Requer-se, pois, que nela haja participação consciente dos cidadãos, aos quais cabe o direito de sufrágio”. Ou ainda, quanto à necessidade de informação diversificada e livre: “Um dos fatores de maior significado, na existência real do pluralismo político, é o que se refere aos meios de comunicação social. O seu papel é decisivo na formação e informação da opinião pública. Numa constante procura da verdade objetiva e na justa avaliação das responsabilidades sociais e morais que lhes cabem, devem eles refletir o reconhecimento da liberdade de expressão das opiniões legítimas dos indivíduos e dos grupos.”.Com indicações como estas e outras no mesmo sentido, foi naturalmente com expectativa positiva e esperançosa que eu e os meus colegas acompanhámos daí a pouco o 25 de Abril. E nem os sobressaltos verificados até à consolidação do novo regime nos fizeram desistir dos ideais que compartilhávamos como sociedade e como Igreja..Texto recolhido por Alexandra Tavares Teles