Onde eu estava... por Luís Filipe de Castro Mendes

Onde eu estava... por Luís Filipe de Castro Mendes

Diplomata, escritor, poeta e político, foi ministro da Cultura de 2016 a 2018. É natural de Idanha-a-Nova. Nasceu em 1950.
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Nesse mês de janeiro eu preparava os últimos exames que me faltavam para acabar o curso de Direito, Direito Penal e Direito Processual Penal, particularmente melindrosos (para mim como para todos os colegas militantes associativos, muitos dos quais foram fazer estas cadeiras a Coimbra) por termos de enfrentar o Professor Cavaleiro de Ferreira, que não perdoava aos ativistas agitadores que nós éramos a subversão que trouxéramos à Faculdade. O juízo era tendencioso, mas não era falso. Eu e todos os dirigentes da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito, presidida na altura pelo meu grande amigo Miguel Lobo Antunes, tínhamos sido “expulsos por seis meses de todas as universidades portuguesas”, pena que choca pela sua contradição interna em termos de gravidade, pelo contraste entre a severidade de uma expulsão de todas as universidades de Portugal e o tempo da penalidade, seis meses, que nem nos fazia perder o ano, porque deixara de haver faltas. A nossa punição derivava da ação subversiva que tínhamos desenvolvido na greve de 1970 em Direito, um momento alto nas lutas estudantis que não tem sido suficientemente evocado pelos seus protagonistas (não vos escapará o ligeiro toque de ironia desta frase).

Além de estudar para enfrentar o Professor Cavaleiro de Ferreira, num exame que teve lugar em fevereiro desse ano (passei!), eu colaborava com alguma regularidade no jornal República, para onde me trouxera a amizade do Mário Mesquita, e, meses depois, naquele dia luminoso de abril, foi para a redação do República que eu me dirigi, logo de manhã.

Em janeiro já se falava de movimentações nas Forças Armadas, mas no jornal só o Álvaro Guerra e o Carlos Albino (além do Dr. Rego, é claro) estavam no segredo dessas movimentações. Eu era já amigo de Melo Antunes, que conhecera através da Graça Marques Pinto, mas por essa altura já o Ernesto Melo Antunes tinha sido colocado nos Açores e nós não sabíamos de nada (e não tínhamos nada que saber).

Rui Oliveira / Global Imagens

No ano anterior ocorrera a fundação do Partido Socialista em Bad Munstereifel, que acompanhei por confidências do Mário Mesquita, ante o escândalo do Nuno Godinho de Matos com essa grave falha conspirativa. Fui convidado para aderir ao PS pelo Sottomayor Cardia e pelo António Reis (o Mário Mesquita conhecia melhor o meu “esquerdismo” da época para o tentar), mas nesse tempo eu andava na galáxia de onde saiu o MES, podendo dizer, como muitos, que fui ex-MES sem nunca ter sido MES. Mas o meu percurso político no PREC foi sempre ao lado de Melo Antunes e de Jorge Sampaio.

As surpresas começariam logo em fevereiro, com a publicação do livro do general Spínola...

Texto recolhido por Alexandra Tavares-Teles

Diário de Notícias
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