Onde eu estava por... Filipe Vieira de Castro

Onde eu estava por... Filipe Vieira de Castro

Nasceu em Lisboa em 1960. É arqueólogo marítimo.
Publicado a
Atualizado a

Os meus pais diziam que eram salazaristas, mas nunca acreditei. É curioso, uma das imagens mais nítidas que guardo dos tempos imediatamente anteriores ao 25 de Abril, são os escritos anónimos que apareceram (julgo que foi mesmo em março) nas paredes do Tribunal de Santarém. O autor denunciava o preço de alguns bens de consumo - do bacalhau e do azeite - e rematava com a ameaça “no 1.º de Maio conversamos”. Os dizeres, é claro, depressa foram apagados a mando do governador civil, porém não sem antes se tornarem alvo de conversas na cidade.

Era uma cidade provinciana, longe de tudo. Ir a Lisboa era uma aventura, por umas picadas com engarrafamentos e buracos enormes, camiões que deitavam um fumo preto para cima dos carros com um ruído insuportável, por entre vilas e aldeias encardidas pela poluição.

Em março de 1974 tinha 13 anos. Quando penso na minha adolescência, penso num mundo mágico, excitante, com livros e revistas, mas dentro de casa. A minha casa cheirava a cera. A rua era feia e desinteressante, com pessoas pobres, carroças e burros.

Não imaginava o que seria uma preocupação, a não ser quando morria um peixe num aquário. A escola era triste e escura, os meninos das filas de trás nem sempre tinham sapatos e eram regularmente espancados com uma régua de madeira. Entrei diretamente para a 2.ª classe e sabia de cor as províncias e as linhas do comboio, sempre com algum embaraço, porque nas viagens com os meus pais tinha visto a pobreza das Beiras. Era bom a aritmética, mas dava erros de ortografia. Raramente apanhava da professora porque eu e o meu parceiro corrigíamos os ditados um ao outro. Enganar o professor que nos espancava parecia-nos uma coisa de senso comum.

Os meus heróis eram o Tintin, a Becassine, os livros do Marcel Pa- gnol. No sótão, havia livros dos meus pais e uns volumes encadernados do Diabrete, banda desenhada infantil dos Anos 40. E revistas em pilhas. Uma que o um tio trazia de Paris, Hara Kiri, journal bête et méchant, uma revista de humor, que me parecia o cúmulo da modernice. Lia muitas vezes sentado no chão, polido a enceradora regularmente.

A televisão era uma seca e as bebidas alcoólicas só às escondidas, mais do que nunca proibidas em razão de meses antes ter chegado a casa a cair de bêbado e com um pato ao colo, vindo da Feira do Ribatejo.

Fui nascer a Lisboa porque o meu pai tinha medo dos médicos e das freiras de Santarém. Em 1960 nem havia enfermeiras. Havia freiras. O meu pai, veterinário, adorava arqueologia. Levava-me a ver ruínas, que havia por todo o lado. O interesse pela arqueologia pegou e as antiguidades de Santarém, juntamente com os verões na praia, são as melhores recordações que tenho desses anos. O meu pai contava-me que “os selvagens” tinham demolido a porta por onde D. Afonso Henriques entrara em Santarém e eu indignava-me por a torre da Igreja do Alporão ter sido demolida para passar o carro de D. Maria II.

Os meus pais diziam que eram católicos, mas eu nunca acreditei. Arrastavam-nos para a missa todos os domingos, às 11.00 da manhã, e eu não conseguia deixar de prestar atenção. A igreja era gelada. Recordo os jantares semanais com o padre e uma tia medonha. O 25 de Abril seria divertidíssimo. Os meus pais aterrorizados e a vida no meu liceu cada vez mais excitante e mais divertida. De repente, éramos adultos.

Depoimento recolhido por Alexandra Tavares-Teles

Diário de Notícias
www.dn.pt