Tanto quanto me lembro, regressara há pouco a Lisboa, depois de cerca de um ano passado a frequentar, em Vincennes, um Curso de Sociologia/Cinema/Psicologia, de que creio só ter feito uma cadeira, um trabalho sobre esquizofrenia. Reencontrara velhos conhecidos, tentava voltar a uma vida “normal” e pôr fim ao exílio interior criado por 20 meses de prisão em Caxias, a que se tinham seguido, em pouco mais de três meses, as mortes do meu pai e da minha mãe. Um período perturbado, marcado por grande instabilidade pessoal e laboral, em que apenas a solidariedade de algumas pessoas amigas me manteve alguma sanidade mental..Trabalhava como copywriter (já então se usava o inglês…) numa agência de publicidade, tentando conciliar o dever profissional com algum respeito pela verdade, algo sempre difícil nessa atividade, sonhando com o dia em que pudesse voltar ao jornalismo e acreditar no que escrevia, mas sabendo que muitos dos camaradas de trabalho partilhavam da mesma sensação de reserva e desdobramento de personalidade… A “verdadeira vida” (citando Claire Etcherelli) começava depois, nas conversas fora de horas, em que se tentava fazer a análise da vida no país e no Mundo, pensar alguma esperança no futuro ou o risco de um golpe militar que tornasse o regime ainda mais autoritário e sufocante..O exemplo do Chile pesava sobre nós. Kaúlza de Arriaga era o nome mais frequentemente evocado nesse âmbito e, ignorando embora a realidade no terreno, tentávamos perceber o que se passava nas três frentes de Guerra Colonial, mormente a da Guiné, após o assassínio de Amílcar Cabral, em quem depositáramos muita da nossa esperança..Conversas tensas em lugares confortáveis, como o Procópio ou o Metro e Meio, entre publicitários e gente dos jornais, veteranos de diversas crises académicas e grupos antifascistas, alguns deles já conhecedores das prisões do regime, unidos por gostos comuns de livros, filmes, canções e o sonho de um país onde pudéssemos viver livres, de onde desaparecessem a PIDE (entretanto crismada de DGS) e a Censura (rebatizada Exame Prévio), as conversas não se interrompessem à entrada de estranhos e nos telefones não houvesse ruídos que nos levavam a pensar nas escutas..Sonhos de noites de inverno. E um dia o golpe militar surge, mas é libertador. (Quanto baste. Ainda foi precisa a mobilização de advogados e membros da Comissão de Apoio aos Presos Políticos para que fossem libertados todos, sem exceção.) De repente, o sonho era partilhado por milhares, milhões, repercutindo-se no quotidiano de bairros, fábricas, empresas, até na publicidade: recusando servir os clientes de uma multinacional que deixara o país, os publicitários permitiram que dela nascesse uma cooperativa; na agência onde trabalhava, os salários aumentaram de modo inversamente proporcional, reduzindo drasticamente o leque salarial. Pudemos, por algum tempo, esquecer as sequelas do passado - que, afinal, e sem pessimismos, 50 anos depois continuam demasiado presentes entre nós.