"Vila Franca de Xira, janeiro de 1974. Estou prestes a fazer 17 anos, vivo a excitação do baile de finalistas do meu liceu (Padre António Vieira, secção de Vila Franca) e preparo com igual entusiasmo a viagem de finalistas à Madeira, em abril. Será a primeira vez que acontece e, para muitos de nós, será também a primeira viagem de avião e o passar uma semana fora do controlo parental, apesar de irmos devidamente “escoltadas” por vários professores, claro!.As conversas entre amigos focam-se quase todas neste tema, até porque também estamos a preparar um espetáculo, no cine-teatro cá do burgo, com vista a angariar fundos para ajudar alguns colegas a suportar as despesas da viagem. Primeira contrariedade: apesar de ser uma simples récita com meia dúzia de quadros dançados e alguns poemas, teve de passar pela aprovação da Censura Prévia!!! E esta imposição lembra-nos (se é que era possível esquecer) que estamos permanentemente sobre escrutínio, ainda mais aqui, num meio propício à disseminação das ideias antifascistas, com forte implantação do Partido Comunista e influência cultural do movimento neo-realista..Aqueles de nós que, ou por via familiar ou por ter ligação ao movimento associativo (que tem sido forte e combativo nesta região) estamos já bem despertos para esta realidade, encontramos abrigo na Cooperativa Alves Redol. Lugar de venda de livros, de torneios de xadrez, de colóquios e sessões musicais, de encontro de amigos ao fim da tarde e à noite, de reuniões conspirativas entre os que desenvolvem já algum grau de militância política, a Cooperativa é o “nosso” lugar. São raros os colegas deste 7.º ano que não passam por aqui, normalmente depois de sair das aulas e beber um café..Apesar de vivermos a 20km de Lisboa, com comboio direto, é muito raro deslocarmo-nos até à capital. De carro então nem pensar, mesmo os que já têm 18 anos terão de esperar até aos 21, a menos que o pai (atenção, o pai!!!) lhes dê a emancipação..E a verdade é que não nos queixamos de tempos mortos. Até porque precisamos de preparar os exames de fim do liceu e, no caso de alguns que queiram prosseguir os estudos, os de acesso à Faculdade. Mal sabia eu que o 25 de Abril ia acontecer uma semana após a viagem à Madeira, que a preparação política das tardes da Cooperativa viria a formar tantos empenhados militantes de várias tendências, algumas visceralmente antagónicas, e que Vila Franca de Xira prestaria um tributo inestimável ao movimento neo-realista através de um museu de referência.”.Texto recolhido por Alexandra Tavares-Teles