A onda de calor que teve início há uma semana - e que levou o Governo e a Direção-Geral da Saúde (DGS) a colocar o país em alerta vermelho para a prevenção nos fogos e na saúde, assumindo mesmo que a previsão das autoridades apontava para um aumento da mortalidade - começa a atenuar, mas veio confirmar que as temperaturas muito elevadas podem, de facto, desestabilizar, sobretudo, idosos e doentes crónicos e ter consequências fatais. De acordo com os dados analisados pela DGS e disponibilizados ao DN, vêm confirmar, precisamente, que as duas ondas de calor mais recentes, sentidas em junho, a partir do dia 10, e já em julho, a partir do dia 2, registaram óbitos acima do que era expectável. Ao todo, e de 13 de junho até 7 de julho, a análise feita pela DGS confirma a existência de 125 mortes acima do expectável e que estarão associadas ao calor, 63 ocorridas ainda em junho, com o dia 16 a ser aquele que registou maior número de mortes por esta razão, e 62, nesta última semana, com o domingo, 6 de julho, a ser o dia mais fatídico.Segunda explica ao DN a diretora-geral, Rita Sá Machado, “há dois momentos importantes na análise da mortalidade em excesso, o primeiro momento tem a ver com a estimativa do índice ícaro, produzido pelo Instituto Nacional do Dr. Ricardo Jorge (INSA), antes das próprias ondas de calor, e, que nestes dois casos, nos dava uma previsão de risco de, aproximadamente, 60 óbitos em excesso. Depois, o segundo momento é quando se analisa o número de óbitos que, de facto, ocorreram”. Rita Sá Machado confirma mesmo que “o estudo retrospetivo feito pela DGS aos dados recolhidos na primeira onda de calor demonstra, exatamente, aquilo que era a previsão do índice ícaro, aproximadamente 60 óbitos, registaram-se 63 óbitos em excesso”, confirmando ainda que “o dia 16 de junho foi aquele em que se registou um grande impacto na mortalidade. Não foi o dia em que morreram mais pessoas em todo o país, mas aquele em que se registaram mais mortes que podem estar associadas a descompensações devido às altas temperaturas". Em relação à segunda onda de calor, com início na semana passada, a diretora-geral assume que “ainda será necessário uma análise mais aprofundada do impacto na mortalidade, mas, para já, os dados recolhidos também estão de acordo com as estimativas do índice ícaro, que apontavam igualmente para 60 óbitos, tivemos 62”, sendo que, neste caso, domingo, 6 de julho, foi o que teve maior impacto na mortalidade associada ao calor. Segundo afirma, “esta análise reflete o que já se sabe da onda de calor de junho e da de julho, mas ainda poderemos levar mais 10 a 15 dias das próximas semanas a analisar e a caracterizar o impacto nos óbitos”.Padrão de mortalidade mantém-se, afetando sobretudo idosos com 75 ou mais anosNo entanto, até agora e comparando com ondas de calor de 2025, “aquilo que se vê, se olharmos para um período homólogo com ondas de calor, de 29 de junho a 12 de julho, é que o padrão relativo ao que é designado por excesso de mortalidade se mantém”. Ou seja, “é um padrão de mortalidade que se concentra na população mais idosa, nos 75 ou mais anos, sabendo nós, também, que o maior predomínio das causas estabelecidas está associada a situações circulatórias e respiratórias, além dos cancros. Portanto, mantém-se aquilo que é o padrão habitual dos óbitos que ocorrem em território nacional para a época”.Ao DN, Rita Sá Machado faz ainda questão de esclarecer que “é muito raro haver óbitos específicos pelo calor - ou seja, pela exposição direta ao calor. Não quer dizer que não haja, mas é muito raro. Posso dizer que, numa primeira análise destas duas ondas, sabemos que existem alguns, mas falamos de óbitos que nunca ascendem a mais de cinco ou de oito”. Mas para classificar o padrão de mortalidade durante este período, a diretora-geral refere: “De forma muito simplista, podemos dizer que temos uma população bastante envelhecida e com muitas comorbilidades e que estes óbitos decorrem de descompensações destas, portanto não existe qualquer alteração no padrão e nas causas de morte associadas a estes óbitos.”Aliás, sublinha, “se olharmos para o contexto europeu, e para a informação que nos permite comparar os excessos de mortalidade entre vários países, vemos que Portugal está, sem dúvida alguma, incluído no grupo dos que apresentam valores, até a nível de todas as causas de mortalidade, abaixo do limiar do excesso”. O que, por exemplo, já não acontece com outros países da Europa do Sul. “Por exemplo, se olharmos para os dados europeus e para o que ocorreu em Espanha e França, na semana 26 deste ano (22 a 28 de junho) ou até no Reino Unido, vemos que estes já registam algum excesso de mortalidade bem acima do expectável face às ondas de calor”, reforçando que “não é o que se passa em Portugal, já que os óbitos em excesso estão de acordo com as estimativas”. Questionada sobre se estas duas ondas de calor, em junho e julho, embora a que se viva agora já seja a sexta deste ano, levaram a um aumento de internamentos nas unidades do SNS, a diretora-geral diz que não. “O que vemos nos indicadores nacionais é que não há, efetivamente, um aumento dos internamentos”, explicando que o que se tem vindo a assistir nesta última semana “é um ligeiro acréscimo no que eram os acionamentos do INEM e de chamadas para a Linha SNS24”. Recorde-se que, segundo dados do INEM, publicados pelo DN na segunda-feira, dia 7 de julho, em junho, os Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) receberam 141.017 chamadas, face a 133.013 registadas no mesmo mês de 2025, representando mais 8.004 chamadas (+6,0%), cerca de mais 267 chamadas por dia, mantendo-se esta tendência na onda de calor de julho. Rita Sá Machado diz que, “obviamente, tivemos maior procura por parte de utentes, mas não em muito maior número do que é comum para esta época”.Em relação às altas temperaturas, a diretora-geral também recorda que a melhor forma de combater as suas consequências é através da prevenção. “É a melhor forma de ganharmos às complicações que podem surgir com o calor. Por isso mesmo, a DGS tem vindo a produzir informação, guias e a lançar apelos para que todas as recomendações feitas sejam seguidas. E vamos continuar a divulgar mais informação”. Conforme foi noticiado na semana passada, este ano a DGS, além de um guia com recomendações para os trabalhadores ao ar livre, produziu também um outro com medidas para as autarquias em conjunto com a Associação Nacional dos Municípios e a Associação Nacional das Freguesias, as quais “são parceiros fundamentais na implementação de medidas preventivas”, diz a diretora-geral.Ao cidadão, Rita Sá Machado lembra que “é preciso que conheça, em primeiro lugar, as medidas básicas de proteção ao calor, que têm sido disseminadas pela DGS, mas é preciso também que saiba onde estão os abrigos na sua zona para onde pode ir se as temperaturas se mantiverem muito elevadas e precisar de descansar durante duas ou três horas para diminuir a temperatura corporal”. Para a diretora-geral, “os próximos tempos vão ser, não só de mais ondas de calor, mas de mais situações climáticas diferentes das que conhecíamos e das que estávamos habituados. E as boas práticas têm de ser incorporadas na nossa rotina do dia-a-dia”. .Onda de calor. Governo pede às autarquias e à população que ajudem os mais vulneráveis .Na rua, em casa ou no trabalho, o que fazer para se proteger do calor extremo que aí vem? .Administradores de hospitais pedem resolução urgente de casos sociais para responder a onda de calor