A onda de calor que teve início a 2 de julho começou a dar tréguas nas urgências hospitalares logo no início desta semana. Duas das maiores Unidades Locais do Saúde no norte e no sul do país chegaram a atingir uma média de mais de 400 atendimentos diários na urgência geral, mas este pico, que agora será analisado para haver certeza de que esteve associado às altas temperaturas, “não foi diferente de picos de outras épocas e não comprometeu a atividade programada”, explicaram ao DN responsáveis da ULS de São João, no Porto, e de São José, em Lisboa. O mesmo aconteceu com a onda de calor em junho, mas a passagem de nível um de alerta para o nível 2 dos planos de contingência vai manter-se, até por “precaução”. No Alentejo, o nível de alerta também se vai manter, mas esta fase foi ultrapassada, com “mais atendimentos”, mas sem números concretos ainda, segundo diz a ULS Alentejo Central: “os dados estão a ser tratados, pelo que ainda não é possível disponibilizar”. A ULS do Algarve não respondeu sequer ao pedido do DN.Na ULS São José o problema foi manter espaços climatizadosEm Lisboa, e de acordo com dados enviados ao DN, a ULS São José, que serve mais de milhão de pessoas de algumas das freguesias mais antigas do centro da capital, cuja maioria da população é idosa, mas que recebe também já muitos turistas, chegou a registar mais de 600 admissões diárias no mês de junho, durante a semana em todas as suas urgências (geral, ginecologia-obstetrícia e pediatria). Ao todo, 626 admissões por dia, mais 101 do que aos fins de semana (525), o que corresponde a um aumento de cerca de 19% relativamente a períodos homólogos.Segundo explicou ao DN, Bruno Castro, médico de Saúde Pública e coordenador técnico do Plano Sazonal, a urgência foi a principal responsável por estes valores, em que tivemos uma média de 343,6 atendimentos por dia aos fins de semana e 409,5 nos dias úteis”. Durante a onda de calor da primeira semana de julho, registou-se também um aumento da atividade, mas, neste período, foi a Urgência de Pediatria que “mais contribuiu para este aumento, passando de uma média de 154,8 admissões por dia para 162,6 (+5%), enquanto a urgência geral polivalente se manteve estável”.O médico refere que “a atividade global aumentou ligeiramente na primeira semana de julho, mas que a média de atendimentos nos dias úteis foi exatamente igual à de junho (626,3 admissões/dia)”, sublinhando que “o aumento observado resulta sobretudo da atividade no fim de semana que passou de uma média de 525 para 555 admissões/dia (+5,6%).No entanto, Bruno Castro destaca que, embora seja muito provável que este aumento de afluência às urgências tenha sido por causa da onda de calor, "nós só teremos certeza disso depois de fazermos uma análise dos motivos que levaram os utentes e dos internamento, pois a ULS São José já registou aumentos destes na atividade, mesmo em alturas em que não tivemos vagas de calor”. O verão, só por si, é uma “altura em que, naturalmente, os idosos têm mais descompensações das suas doenças crónicas. Portanto, os números não podem ser interpretados de uma forma bruta e absoluta, têm de ser analisados”, mas, para já, e quanto ao perfil do utente que mais acorreu à urgência nestes períodos, o médico confirma que o feed-back dos colegas é de que “foram pessoas com 75 ou mais anos, com doenças crónicas que descompensaram, turistas e pessoas com maior vulnerabilidade social, sem-abrigos”.O coordenador técnico do plano sazonal explica ao DN que, nesta primeira semana de julho, o aumento da afluência às urgências começou a ser sentido logo no primeiro dia da onda de calor, quarta-feira, dia 2, mas só a parir de sábado, dia 4, e até terça-feira, dia 7, é que “tivemos uma afluência mais significativa, digamos assim. E a partir de terça-feira, a taxa de ocupação da urgência geral começou a diminuir”. O médico explica que o nível 2 de contingência foi mantido por a ULS, apesar do aumento de afluência às urgências, ter ficado com capacidade para internar, com vagas nos cuidados intensivos e nos intermédios, e ter ainda equipas disponíveis para gerir. "Se tivéssemos subido para o nível 3, entraríamos num estado de alerta máximo, o que implicaria o cancelamento de algumas atividades, como consultas e cirurgias e outros procedimentos programados. E isto não foi necessário”.O mesmo aconteceu nos cuidados de saúde primários, onde Bruno Castro sublinha que na ULS São José não se registou sequer aumento de consultas abertas. O plano de contingência integra também os cuidados primários, que estavam preparados para “o aumento do número de horas destinadas à consulta do dia, ficando as equipas de saúde familiar mais uma a duas horas por dia, se necessário fosse, para atender as consultas reencaminhadas pela linha SNS-24. Mas o que verificámos foi que o reencaminhamento dos utentes pela SNS-24 não foi superior ou anormal face ao que se esperava”.O grande problema nesta ULS, assume Bruno Castro, “foi a gestão desta onda de calor ao nível da manutenção dos espaços devidamente climatizados. Tivemos várias avarias em equipamentos de ar acondicionado, tendo que fazer substituições por aparelhos novos, porque tivemos alguns setores das urgências com temperaturas que não eram boas para os utentes nem para os profissionais. E, este, em infraestruturas como a urgência de São José, um edifício com mais de 100 anos, é sempre um desafio todos os anos, mas temos uma equipa que faz regularmente este levantamento e felizmente conseguimos definir prioridades, substituir os equipamentos e manter as áreas climatizadas”. Se houver uma próxima onda de calor, esta “será uma das nossas preocupações, certamente”.ULS São João registou uma média de cinco internamentos a mais por diaNo norte, as ondas de calor de junho e de julho também se fizeram sentir na urgência da ULS São João, com “um ligeiro aumento da atividade assistencial”, mas “sem impacto relevante na capacidade de resposta da instituição”. Segundo foi explicado ao DN, e comparando os dados obtidos em junho e julho, “a média de admissões passou de 446 por dia (na primeira semana de junho) para 482 por dia (na primeira semana de julho), o que representa um aumento de cerca de 8%”. No entanto, “deste total de admissões, cerca de 20 doentes por dia, em média, foram encaminhados para o Centro de Atendimento Clínico (CAC)”. Em relação aos internamentos, a ULS refere ter verificado “um acréscimo de 5 internamentos por dia, não existindo, contudo, evidência que permita estabelecer uma associação direta entre esta evolução da atividade assistencial e a onda de calor, pois só uma análise epidemiológica mais abrangente e consolidada, à escala nacional, permitirá tirar tal conclusão”. Quanto ao tipo de doentes que mais acorreram às urgências e porque motivo, a ULS São João diz necessitar de uma análise epidemiológica mais profunda para tirar tais conclusões. Por agora, a sua grande preocupação “é manter a atividade assistencial urgente e não urgente (programada)", o que "foi conseguido, sem intercorrências”, mantendo apenas ativado o nível 1 do plano de contingência sazonal.À urgência do Alentejo Central acorreram sobretudo idosos com doenças crónicasAs temperaturas mais elevadas fizeram-se sentir no coração do Alentejo, mesmo assim a Unidade Local de Saúde do Alentejo Central, que integra a urgência do hospital de Évora, diz que houve “um acréscimo de utentes”, mas que tal não “comprometeu a atividade programada”. Ao DN, a ULS explica que na urgência foram observadas “sobretudo pessoas idosas, frágeis e com várias doenças crónicas”, já que, assumem, “o calor, como é habitual, levou ao agravamento de quadros cardíacos, respiratórios e renais”, bem como “algumas situações mais diretamente ligadas às temperaturas, como desidratação”. Mas, segundo garantem, a ativação do nível de 2 de contingência permitiu “agir de forma proativa e preventiva, para reforçar o acompanhamento da procura no serviço de urgência e garantir uma gestão dinâmica e eficiente das camas hospitalares”. A ULS diz que tanto “a capacidade de resposta da urgência como no internamento estiveram sob controlo, não comprometendo a atividade programada, nomeadamente a cirúrgica. As medidas que foram sendo tomadas com antecedência e a colaboração de todas as equipas da ULSAC permitiram garantir esta resposta ao longo deste período”.Médicos de família confirmam que não houve grande pressão nos centros de saúdeDurante a onda de calor, a Linha SNS 24 aumentou o volume de chamadas atendidas, o INEM passou a ter cerca de seis mil chamadas por dia, mas o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Nuno Jacinto, garante ao DN que em termos de cuidados primários não notaram “uma diferença muito grande, ou muito significativa, em relação àquilo que é habitual todos os anos na época do verão”. O médico explica que todos os anos “aparecem sempre casos de descompensação de doenças respiratórias, alguns de desidratação, com maior ou menor gravidade, mas o que aparece sobretudo são os doentes crónicos e os idosos mais dependentes”.Nuno Jacinto acredita que “a mensagem para o cumprimento das recomendações feitas pela Direção Geral da Saúde tem vindo a passar, sobretudo para que se evite a exposição solar direta nas horas de maior calor, comidas pesadas e que se mantenha uma hidratação adequada. Isto é pelo menos o que nos é possível avaliar, porque não tem havido um impacto diferente do expectável para esta altura do ano na procura dos cuidados de saúde primários”. Aliás, refere, “do que temos conhecimento nos cuidados primários não houve sequer necessidade de alterar a atividade programada”. O médico destaca ainda que o feed-back de outros colegas é de que “não tem havido necessidade de elevar o nível de contingência, mesmo em zonas onde a temperatura é habitualmente muito elevada”. Por exemplo, “no Alentejo, as pessoas já estão habituadas e sabem, minimamente, como lidar com estas situações”.Esta semana, as temperaturas altas começaram a dar tréguas e vão manter-se assim até ao final da próxima, quando devem atingir novamente os 30.º C e mais. Por agora, os hospitais vão manter os níveis de alerta de contingência mais baixos e por uma questão de precaução, mas a verdade é que mesmo s em onda de calor há serviços de urgência que começam a sentir grandes constrangimentos..Administradores de hospitais pedem resolução urgente de casos sociais para responder a onda de calor .Onda de Calor atinge regiões a sul do Tejo. Mora chegou aos 40,3ºC