Olhos voltados ao céu para contemplar o escurecer do sol
Foi uma tarde como nenhuma outra. Aos 89 anos, Maria Alice Moreira de Campos carregava na bolsa duas garrafas de água, que trouxe congeladas, para aguentarem, ainda frescas, as horas sob o sol. Além da bengala, para apoiar os movimentos. “Vou tentar subir, não sei se vou conseguir”, disse ao DN com um sorriso rasgado, sem nenhum lamento pela falta de mobilidade. A subida seria ao teto do Museu de Arquitetura, Arte e Tecnologia, o MAAT, em Lisboa, onde centenas de pessoas se reuniram para presenciar este momento único da história da astronomia.
Olhar para um eclipse exige cuidados e Maria Alice cumpriu as orientações. “A semana passada comprei dois pares de óculos, para mim e para a minha sobrinha”. A expectativa para testemunhar o fenómeno era grande. “A nova geração já não vai voltar a ter a possibilidade de presenciar um eclipse destes. As coisas da natureza, para mim, são uma maravilha. Chego a levantar-me às 3h00 da manhã para ver a Lua cheia entre dois prédios.”
Quem também não pecou na preparação foi a turma de formação de técnicos Auxiliares de Saúde do IEFP, um grupo de cerca de 10 pessoas que celebrou o momento com animação. “Há cerca de duas semanas mandámos vir estes óculos”, contou a formadora, Joana Amaro. “Vai ser um momento único”, dizia ansiosa a aluna Patrícia Calado.
No MAAT, a distribuição gratuita dos óculos não chegou para quem quis. Os irmãos Victor e Vinicius Assis ainda conseguiram um. “Foi uma confusão, mas deram para as crianças”, contou o mais novo, celebrando o facto de ter 13 anos. Já Victor, de 18, foi categórico: “Vamos dividir.”
Os óculos não foram os únicos acessórios presentes. O teto do museu, que já está preparado para ser um miradouro diário, tornou-se ponto de acampamento. Toalhas espalhadas, com adultos, crianças, até animais de estimação. Sónia e a família trouxeram cadeiras. “Estamos muito felizes. O último aconteceu em 1912, na época da minha avó”, contou. A brasileira disse que ia espalhar por aí que teve essa experiência. “Vamos dizer pra todo mundo que vimos, aos amigos lá no Brasil”.
André Leão e a família trouxeram um pequeno telescópio. “É o mais simples possível”, explicou sobre o equipamento, comprado como presente para o enteado, “para ele aprender mais sobre os planetas”.
Era por volta das 19h30 quando começou a sentir-se a luz realmente a atenuar. Às 19h32 ouviram-se as primeiras palmas e exclamações de “Uau!”, quando as sombras ficaram mais intensas. Foi tudo muito rápido, como já era previsto. De acordo com o mapa traçado pela Agência Espacial Norte-americana (NASA), o eclipse total pôde ser visto no norte da Sibéria, em pontos do Oceano Ártico e do Atlântico Norte, passando pela Gronelândia, Islândia, Espanha e Portugal, mas por cá apenas Bragança teve o privilégio de contemplar o eclipse total perfeito.
Marco para a Ciência
Sempre que ocorre um eclipse, a Ciência celebra. O fenómeno do Sol a ser tapado pela Lua traz não apenas um encantamento quase sobrenatural, mas também alterações reais que são alvo de muitos estudos. Para acompanhar este momento, a NASA enviou uma missão com dois jatos de alta altitude.
Os pilotos partiram do Aeroporto de Keflavík, no extremo Oeste da Islândia, rumo à Gronelândia, a Norte, fazendo depois uma curva para seguir para Sul, numa trajetória ligeiramente arqueada a cerca de 64km da costa islandesa, voando a uma velocidade de 460 milhas por hora (aproximadamente 740km/h).
Os jatos estiveram o mais perto possível do Sol, para fotografar a coroa solar no ápice do eclipse. Segundo a NASA, durante um eclipse é possível estudar a atmosfera da Terra sob condições incomuns, fundamentais para a compreensão dos impactos da luz do Sol, do vento solar e fluxo de partículas emitidas para o Sistema Solar. Além dos jatos, a agência enviou duas equipas com balões para a Islândia e Espanha, para captar outras alterações.
Diferente da oscilação que acontece diariamente ao amanhecer e ao anoitecer, um eclipse solar traz a possibilidade de se estudar a atmosfera superior, onde a energia solar gera uma camada de partículas carregadas, conhecida como ionosfera. É nela que estão situados muitos satélites que transmitem sinais de comunicação, como ondas de rádio e de sistemas de GPS. Segundo a NASA, alterações nesta camada podem impactar de forma significativa sistemas de tecnologia, daí a relevância de se compreender o seu funcionamento.
Todo o eclipse gera descobertas científicas, mas gera também uma memória única. “Vi assim uns 90% do Sol coberto, depois ficou como uma Lua minguante” descreveu Victor Assis. “Rápido, mas valeu a pena.” Outro como este, em Portugal, só daqui a muitos anos. “Por isso, vim aproveitar”, disse, satisfeita, Maria Alice, fascinada com esta experiência que, quase a completar nove décadas de vida, veio para marcar.
caroline.ribeiro@dn.pt

