Na visão de Andrés Delich, as línguas são irmãs.
Na visão de Andrés Delich, as línguas são irmãs.Foto: DR

OEI quer mais portugueses a falar espanhol e mais hispânicos a falar português

Com um financiamento da União Europeia (UE), projeto coordenado em Portugal levará o ensino dos idioma às escolas da fronteira com Espanha.
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Portugal vai coordenar um projeto da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) para a promoção da língua espanhola em Portugal e da língua portuguesa em Espanha, a partir das zonas fronteiriças. Esta iniciativa é uma das grandes apostas da organização para o ano de 2026. O plano de atividades deste ano foi apresentado ontem, num evento em Lisboa, com a presença de Andrés Delich, secretário-geral-adjunto da OEI. “Estamos a trabalhar intensamente nesta área”, começa por dizer ao DN.

Outras edições semelhantes já ocorreram, mas com recursos próprios. Agora, a entidade foi beneficiada com recursos financeiros da União Europeia (UE) para a sua implementação, o que permitirá uma nova dimensão e maior alcance. “O projeto europeu que ganhámos é muito importante, o financiamento está garantido e será muito positivo ter a coordenação a partir do nosso escritório da OEI aqui em Portugal”, destaca.

A primeira etapa, de escolha das escolas, já foi realizada. A próxima arrancará nos próximos meses, com a execução do projeto, centrada principalmente na zona da Galiza. “A ideia é ligar línguas diferentes e habituar as crianças a desenvolverem-se em duas línguas que, em geral, são as utilizadas nos seus territórios, especialmente em zonas fronteiriças”, adianta.

Além do idioma, em si, são ensinadas competências relacionadas com a multiculturalidade e a cidadania. No Brasil, apesar de as escolas terem espanhol no currículo, o projeto também será desenvolvido nas zonas fronteiriças com o Paraguai e a Argentina.

Na visão do secretário-geral-adjunto, tanto o português como o espanhol estão a crescer em várias zonas do globo. “O espanhol e o português são línguas cuja presença no mundo está a crescer de forma significativa, em diferentes regiões. Isto deve-se ao seu desenvolvimento histórico em vários lugares, mas hoje têm uma presença muito forte nos Estados Unidos. Basta ver o famoso espetá- culo da Super Bowl, com o artista Bad Bunny, de Porto Rico”, destaca.

O artista, o mais ouvido nas plataformas de streaming da atualidade, fez um espetáculo inteiramente em espanhol, no qual destacou toda a diversidade da América. Atualmente, os Estados Unidos têm mais de 40 milhões de falantes de espanhol.

Andrés Delich analisa ainda a força do português e do espanhol em regiões como a Ásia. “Em África, o português continua a crescer como língua importante e diria até que, também na Ásia, a presença do português é relevante. Hoje em dia, mais de 70 universidades na China têm programas de português - naturalmente também de espanhol -, mas o que quero dizer é que o português cresce na China como opção, tal como o espanhol. Ou seja, estamos a tornar-nos línguas de comunicação, e isso é muito importante”, detalha.

Na visão do argentino, as línguas são irmãs. “Não apenas pelas raízes linguísticas, históricas e sociais: são irmãs porque falamos uma e fazemos-nos entender. Tenho ainda de reconhecer, como falante de espanhol, que, em geral, são muito mais os falantes de português que fazem o esforço de falar espanhol e, seguramente,isso é-lhes mais fácil do que a nós, hispanofalantes. Mas a comunicação é sempre excelente”, reflete.

Portugal coordena mais projetos

Outro projeto da OEI coordenado a partir de Portugal é o You Decide, que incentiva jovens e crianças à participação cívica, definido como “um programa para a mudança”. O foco é atuar principalmente nas zonas com estudantes menos desfavorecidos financeiramente e apoiar para que sejam os líderes do futuro. Em parceria com os municípios, são realizadas atividades como workshops, programas-piloto a nível local e eventos. O programa também é realizado em Itália, Grécia e Roménia.

Em declarações no evento da OEI, Ana Isabela Xavier, secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, enalteceu a participação de Portugal na cooperação. “Portugal acredita que a relação entre a Europa e a América Latina tem de dar um salto político. Não basta a narrativa diplomática ou encontros locacionais. É necessária uma parceria estratégica baseada em valores e em interesses comuns. Por isso, temos defendido no espaço europeu uma relação União Europeia-América Latina mais política e menos instrumental. Uma cooperação estruturada em educação, ciência, cultura e inovação. Uma agenda comum de justiça social, igualdade de género e ação climática. E a defesa firme da democracia, dos direitos humanos e do multilateralismo”, disse. Para Ana Isabela Xavier, Portugal “assume-se, aliás, como uma ponte ativa entre a Europa e a América Latina”.

amanda.lima@dn.pt

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