O degelo na Antártica é um dos fenómenos que vinha  a ser observado pelo satélite 'Terra'. -- Foto: NASA Earth Observatory via The New York Times
O degelo na Antártica é um dos fenómenos que vinha a ser observado pelo satélite 'Terra'. -- Foto: NASA Earth Observatory via The New York Times

O que vai acontecer quando a NASA deixar de olhar para a Terra? Estamos prestes a descobrir

Três satélites que estavam em operação há mais de duas décadas (Terra, Aqua e Aura), ajudando, por exemplo, a prever o tempo ou a gerir incêndios florestais, serão desligados em breve, forçando os cientistas a descobrir como ajustar a sua visão do nosso planeta.
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Em algum momento nos próximos anos, ninguém sabe exatamente quando, três satélites da NASA, cada um tão pesado como um elefante, irão desligar-se.

Os aparelhos já estão à deriva, perdendo altura aos poucos. Andam a observar o planeta há mais de duas décadas, muito mais do que se esperava, ajudando-nos a prever o tempo, gerir incêndios florestais ou a monitorizar derrames de petróleo. Mas a idade está a apanhá-los e em breve enviarão as suas últimas transmissões e começarão a sua lenta e derradeira queda para a Terra.

É um momento que os cientistas temem.

Quando os três satélites - Terra, Aqua e Aura - forem desligados, muitos dos dados que têm andado a recolher terminará com eles, e os seus equivalentes mais recentes não compensarão tudo o que fica a faltar. Os investigadores terão de confiar em fontes alternativas que podem não responder exatamente às suas necessidades ou procurar soluções alternativas que permitam que os seus registos continuem.

No que toca a alguns dados recolhidos por estes satélites, a situação é ainda pior: nenhum outro instrumento continuará a recolhê-los. Em poucos anos, a precisão de elementos que revelam sobre o nosso mundo tornar-se-á muito mais confusa.

“Perder estes dados insubstituíveis é simplesmente trágico”, disse Susan Solomon, química atmosférica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. “Justamente quando o planeta mais precisa que nos concentremos em compreender como somos afetados por ele e como o estamos a afetar, parecemos estar desastrosamente adormecidos ao volante.” 

A principal área que estamos a perder de vista é a estratosfera, a importante sede da camada de ozono. Através do ar frio e rarefeito da estratosfera, as moléculas de ozono estão constantemente a ser formadas e destruídas, atiradas e varridas, à medida que interagem com outros gases. Alguns destes gases têm origem natural, outros estão lá por nossa causa. Um instrumento o Aura, o braço-sonda de micro-ondas, dá-nos a nossa melhor visão deste drama químico fervilhante, disse Ross J. Salawitch, cientista atmosférico da Universidade de Maryland. Depois de desaparecer o Aura , a nossa visão diminuirá consideravelmente, afirmou. 

Recentemente, os dados captados pelo braço-sonda de micro-ondas têm provado o seu valor de formas inesperadas, disse Salawitch. Mostraram os danos causados ao ozono pelos devastadores incêndios florestais na Austrália no final de 2019 e início de 2020, e pela erupção vulcânica submarina perto de Tonga em 2022. Ajudaram também a mostrar quanta da poluição destruidora da camada de ozono estava a ser lançada na estratosfera acima do leste asiático pelas monções de verão da região.

Se não se desligasse tão cedo, a sonda também poderia ajudar a desvendar um grande mistério, disse Salawitch. “A espessura da camada de ozono sobre as regiões povoadas do Hemisfério Norte quase não mudou na última década”, disse ele. “Deveria estar a recuperar e não está”. 

Jack Kaye, diretor associado de investigação da Divisão de Ciências da Terra da NASA, reconheceu as preocupações dos investigadores sobre o fim da sonda, mas argumentou que outras fontes, incluindo instrumentos em satélites mais recentes, na Estação Espacial Internacional e aqui na Terra, ainda forneceriam “uma boa janela sobre o que a atmosfera está a fazer”.

As realidades financeiras forçam a NASA a tomar “decisões difíceis”, disse Kaye. “Seria ótimo que tudo durasse para sempre? Sim”, acrescentou. Contudo, parte da missão da NASA é também oferecer aos cientistas novas ferramentas, que os ajudem a olhar para o nosso mundo de novas formas. “Não é a mesma coisa, mas, sabe, se nem tudo pode ser igual, fazemos o melhor que podemos”, afirmou.

O momento do lançamento do 'Aura', em julho de 2004, um dos três satélites que está prestes a deixar de enviar dados para a Terra. -- Foto: Thom Baur/Boeing via The New York Times

Para os cientistas que estudam o nosso planeta em mudança, a diferença entre os mesmos dados e quase os mesmos dados pode ser enorme. Eles podem pensar que entendem como um acontecimento está a evoluir, mas só monitorizando-o continuamente, de uma forma imutável, durante um longo período de tempo, é que poderão ter certezas sobre o que está realmente a acontecer.

Mesmo uma pequena quebra nos registos pode criar problemas. Digamos que uma plataforma de gelo desmorona na Gronelândia. A menos que esteja a ser medido o aumento do nível do mar antes, durante e depois, nunca se terá a certeza de que uma mudança repentina foi causada pelo colapso, disse William B. Gail, ex-presidente da Sociedade Meteorológica Americana. “Podemos supor, mas não temos um registo quantitativo”, sublinhou.

No ano passado, a NASA consultou cientistas sobre como o fim de Terra, Aqua e Aura afetaria o seu trabalho. Mais de 180 deles responderam à chamada.

Nas suas cartas, que o jornal The New York Times  obteve através de um pedido ao abrigo da Lei da Liberdade de Informação, os investigadores expressaram preocupações em relação a uma vasta gama de dados dos satélites - informações sobre as partículas no fumo de incêndios florestais; poeira do deserto; plumas vulcânicas; medições da espessura das nuvens; mapas em escala precisa das florestas, pastagens, zonas húmidas e culturas no planeta.

Mesmo que existam fontes alternativas para estas informações, escreveram os cientistas, podem ser menos frequentes, ou de resolução mais baixa, ou limitadas a determinados horários do dia, tudo fatores que determinam a utilidade dos dados.

Liz Moyer aborda de perto o estudo da atmosfera da Terra voando com instrumentos através dela, em jatos que viajam a muito mais altitude do que a maioria dos aviões pode atingir. “Entrei nisso porque é emocionante e difícil chegar lá”, disse Moyer, que leciona na Universidade de Chicago. “É difícil construir instrumentos que funcionem lá em cima, difícil fazer medições, difícil conseguir aeronaves que vão até lá.” 

Será ainda mais difícil quando o Aura se for, acrescentou.

Os aviões podem recolher amostras da química da atmosfera diretamente, mas para compreender o panorama geral os cientistas ainda precisam de combinar as medições das aeronaves com as leituras dos satélites, disse Moyer. “Sem os satélites, estamos por aí a tirar fotografias sem contexto”, afirmou. 

Grande parte da investigação de Moyer centra-se nas nuvens finas e geladas que se formam entre 15 e 20 quilómetros acima do solo, numa das camadas mais misteriosas da atmosfera. Estas nuvens estão a ajudar a aquecer o planeta e os cientistas ainda estão a tentar descobrir como as alterações climáticas induzidas pelo homem as estão a influenciar. 

“Parece que vamos parar de observar essa parte da atmosfera, exatamente no momento em que ela está a mudar”, disse Moyer.

O fim do Terra e do Aqua afetará a forma como monitorizamos outro fator importante do nosso clima: a quantidade de radiação solar que o planeta recebe, absorve e devolve ao espaço. O equilíbrio entre essas quantidades ou, na verdade, o desequilíbrio, determina o quanto a Terra aquece ou arrefece. E para entendê-lo, os cientistas contam com os instrumentos da NASA do Sistema de Nuvens e de Energia Radiante da Terra, ou CERES , na sigla inglesa.

Neste momento, quatro satélites estão a voar com instrumentos CERES: Terra, Aqua, além de dois mais recentes que também estão a chegar ao fim. No entanto, apenas uma substituição está em andamento. A sua expectativa de vida? Cinco anos. 

“Nos próximos 10 anos, passaremos de quatro missões para uma, e a que resta já terá passado do seu auge”, disse Norman G. Loeb, o cientista da NASA que lidera o CERES. “Para mim, isso é realmente preocupante.”

Hoje em dia, com a ascensão da indústria espacial privada e a proliferação de satélites em torno da Terra, a NASA e outras agências estão a explorar uma abordagem diferente para manter os olhos no nosso planeta. O futuro pode estar em instrumentos menores e mais leves, que poderiam ser colocados em órbita de maneira mais barata e ágil do que Terra, Aqua e Aura foram na sua época. 

A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA está a desenvolver uma frota desse tipo para monitorizar o tempo e o clima. Loeb e outros cientistas da NASA estão a trabalhar num instrumento leve para continuar a medir o balanço energético da Terra, mas para que essas tecnologias sejam úteis, disse Loeb, elas precisam de começar a voar antes que os satélites de hoje fiquem inoperacionais. “É necessário um bom e longo período de sobreposição para compreender as diferenças e resolver os problemas. Caso contrário, será muito difícil confiar nessas medições, se não tivermos a oportunidade de as comprovar em relação às medições atuais”, disse.

De certa forma, é um crédito para a NASA que Terra, Aqua e Aura tenham durado tanto, salientaram os cientistas. “Através de uma combinação de excelente engenharia e muita sorte, já tivemo-los durante 20 anos, já”, disse Waleed Abdalati, ex-cientista-chefe da NASA, agora na Universidade do Colorado, em Boulder. “Ficamos quase que hipnotizados por estes satélites. Somos vítimas do nosso próprio sucesso”, assumiu Abdalati. “Um dia, a sorte acaba”, acrescentou.

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