Exclusivo "O papel das farmácias na pandemia foi altamente valorizado pelas pessoas" 

Nuno Vasco Lopes está há 17 anos na direção da Associação Nacional das Farmácias, sendo vice-presidente desde 2013. Nas eleições de dia 29 é candidato a presidente da ANF e, se for eleito, terá de fazer face a uma dívida de mais de 400 milhões de euros. Garante que não há o risco de falência da associação, mas admite que terão de ser tomadas decisões difíceis.

Como é que a ANF chegou a uma dívida que ronda os 400 milhões de euros? Pode falar-se em risco de falência?
O risco de falência é um risco que não entendemos como sendo real, não existe risco de falência. Quando falamos em valores dessa grandeza, na casa dos 400 milhões de euros, o que estamos a falar é de um valor consolidado de todas as responsabilidades bancárias de todas as unidades e empresas que fazem parte do universo empresarial da ANF. E uma das componentes mais importantes tem a ver com o adiantamento que a associação faz das comparticipações pagas pelo Estado relativo à dispensa dos medicamentos nas farmácias. Esse valor neste momento ronda os 400 milhões de euros, mas houve momentos em que ultrapassou os mil milhões. Quanto ao risco sobre essa exposição bancária, esse resulta também da consolidação das responsabilidades bancárias de diversas empresas. A associação tem dentro do seu universo empresarial algumas empresas com dimensão muito significativa. Há três empresas que são muito relevantes, a Alliance Healthcare, a Glintt e a CUF. São empresas sólidas, com bons indicadores económicos, e que a dívida que têm resulta de uma forma de garantir que continuam a fazer investimento para melhorar o funcionamento da sua atividade em prol da farmácia. Os investimentos feitos pela Alliance Healthcare ao longo dos últimos anos na distribuição farmacêutica têm sido feitos de forma sustentada e a empresa tem crescido de forma significativa. É uma empresa saudável que gere o endividamento de uma forma que lhe permite ter preços de financiamento perante a banca muito reduzidos. A Glintt, que é a empresa tecnológica líder no mercado português em termos de serviços de transformação digital na área da saúde, teve uma reestruturação no ano de 2015 com muito significado. A Glintt resulta da fusão entre a ParaRede, que era uma empresa cotada em bolsa, e a Consiste. Essa fusão aconteceu em 2008 e, entre 2008 e 2015, a empresa esteve num processo de consolidação das duas operações. Nem tudo correu da melhor forma e, em 2015, foi necessário fazer uma reestruturação da empresa. Nesse momento, tinha um endividamento de cerca de 58 milhões de euros e depois da reestruturação tem vindo a evoluir de forma muito positiva. Neste momento, o endividamento reduziu de forma substancial, está neste momento na casa dos 37 milhões de euros, e isto não implicou que fosse prejudicado o crescimento da própria empresa. Houve efetivamente duas empresas que tiveram alguns desafios adicionais em 2020. Uma foi a HMR, que é a empresa de inteligência de mercado, e que teve um processo de internacionalização muito acelerado. Essa internacionalização foi muito rápida e é claramente uma das áreas em que nós temos que investir no sentido de reorganizar essa atividade. Outro aspeto teve a ver com a performance da CUF. A ANF tem uma participação de 30% do capital na CUF e a CUF em 2020 teve um ano muito difícil. Não nos podemos esquecer que estamos num contexto de pandemia que afetou muito a procura dos serviços de saúde em Portugal. E isso implicou uma redução de receitas que levou a que a CUF tivesse um resultado negativo de cerca de 22 milhões de euros. Fazendo parte do nosso universo, sendo uma empresa participada, tivemos que consolidar esse resultado negativo da CUF dentro das contas da associação. E essas são as duas unidades que tiveram performance negativa. A HMR uma performance negativa de 8 milhões de euros e a CUF uma performance negativa consolidada do lado da Farminveste de sete milhões de euros. Isto dá cerca de 15 milhões de euros de resultados negativos, que é o resultado negativo da própria Farminveste. Relativamente à CUF, já está a atingir as receitas que estavam estimadas em orçamento. Em conclusão, os rácios económicos têm que ser melhorados em algumas unidades e tem de ser feito algum investimento numa eficiência operacional e redução de custos, principalmente nestas unidades, mas também a nível central. A atividade da farmácia exclusivamente relacionada com o medicamento não traz viabilidade económica. E as farmácias procuram, e têm que procurar, garantir novas fontes de receita para conseguirem equilibrar as suas contas.

A atual direção da ANF, da qual faz parte, apresentou um Plano de Recuperação Financeiro, que já foi classificado de irrealista pela sua adversária. Se for eleito vai prosseguir com esse plano?
A vantagem de estarmos em eleições é que podemos ter diferentes pontos de vista e as farmácias podem tomar as suas opções. O primeiro facto que queria salientar é que o plano económico e financeiro foi aprovado em conselho nacional pelas farmácias. Entendo que o plano é realista e serviu de suporte para a implementação das primeiras medidas de reorganização interna e também para demonstrar aos parceiros financeiros a sustentabilidade e a capacidade de libertar tesouraria suficiente para cumprir as responsabilidades bancárias. De qualquer forma, na nossa lista propomos que se consiga implementar um esforço adicional relativamente à redução do endividamento. Seguramente que vamos ter que tomar decisões difíceis, algumas áreas já foram descontinuadas e outras estão em avaliação para poderem ser ou reposicionadas no mercado ou encontrarmos soluções para que elas não continuem. Dois exemplos do que podemos fazer e que já estamos a tomar medidas para fazer são: o encerramento de uma operação de inteligência de mercado que temos na Alemanha - é uma operação interessante a médio e longo prazo, porque o mercado alemão é o maior mercado de medicamentos na União Europeia, no entanto, o tempo que demora a libertar resultados para termos retorno desse investimento é muito longo; outro exemplo tem a ver com a suspensão da atividade no Brasil.

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