"O ISEG é uma escola de debate, bastante politizada também, mas politizada de todas as frentes"

Clara Raposo foi a primeira mulher a candidatar-se e a ser eleita presidente do ISEG, a escola de Economia de Gestão da Universidade de Lisboa que esta semana celebra 110 anos. Afirma que a pandemia tem sido um momento de união entre professores, alunos e funcionários e aproveitou este período para fazer experiências pedagógicas. Bateram o recorde de candidaturas neste ano letivo e um dos objetivos para o futuro é aumentar o número de alunos estrangeiros, mas sem deixar que estes se sobreponham aos portugueses

Em 2018, foi a primeira mulher a candidatar-se à presidência do ISEG e foi a primeira mulher a ser eleita para o cargo. O que a levou a candidatar-se e o que sentiu quando foi eleita?
Quase já não me lembro. Foi em 2018, quase há três anos, mas com tanta coisa que aconteceu em três anos eu já quase não me lembro do meu estado de espírito nessa época e das circunstâncias exatas. Mas porque é que me candidatei na altura? De certa forma, porque eu tenho tido uma carreira académica normalíssima, boa aluna, faz mestrado a seguir, faz doutoramento, começa uma carreira académica, e é isso que tenho feito, e é algo que gosto, tenho carreira de investigação e ensino. Mas também gosto de atividades mais executivas e de uma ligação a esse lado mais prático. E, portanto, em 2018, não é que tivesse tido um grande plano, bem delineado, mas houve um conjunto de colegas de vários departamentos que falaram comigo e que me sugeriram. Ri-me quando me falaram disto da primeira vez, mas depois achei que a escola estava a precisar de alguém que agarrasse com alguma dinâmica os processos de acreditação internacionais, o trazer uma imagem um bocadinho mais moderna do ISEG para o exterior - como é a escola mais antiga, nós somos a primeira escola de Economia e Gestão em Portugal, o que é um ponto positivo, mas, por vezes, lá fora pode ter-se a perceção de por ser mais antiga é mais antiquada, coisa que não corresponde à realidade, somos uma escola de vanguarda em muitas áreas. Conversei com vários colegas e cheguei à conclusão que eu fazia aqui boa ligação entre os vários departamentos e as várias áreas da escola. Foram umas eleições super disputadas, porque havia também quem não achasse que era boa ideia, houve muita participação, houve imenso debate no ISEG, isso foi muito enriquecedor e vivemos todos pacificamente desde então. Houve também o aspeto simbólico de ser a primeira mulher que se candidatava e que foi eleita. Nunca tinha pensado na relevância disso, mas percebi que era muito importante para muitas pessoas, que isso teve um efeito psicológico importante. Até em estudantes, que nós pensamos que para os mais novos já é tudo absolutamente igual, mas, na verdade, não é, e tive muitas alunas que me disseram que ficaram muito surpreendidas e agradadas ao perceberem que era possível uma mulher desempenhar determinadas funções. É incrível! Foi um desafio novo e uma função executiva completa, que me ocupa, eu não diria 24 horas por dia, mas diria que em muitos dias me ocupa 20.

Quais são os desafios de liderar uma instituição como o ISEG, que celebra agora 110 anos?
Os desafios de liderar uma escola supercentenária são, em primeiro lugar, o peso da responsabilidade. É a escola onde o meu pai estudou, é a escola onde os maiores economistas e gestores portugueses se formaram e é uma escola pública, portanto, temos a responsabilidade de garantir não só que estamos a formar gestores com muita capacidade de dar resposta aos novos desafios, preparados com um bom conhecimento da teoria económica, de todas as teorias da gestão, que estejam atentos a tudo o que é tecnologia nova que vai saindo e que tenham essa capacidade de adquirir conhecimentos com novas tecnologias, que tenham essa agilidade. Temos de formar gestores que sejam ágeis para o futuro e que não percam aquela noção de conjunto, a tal noção de contextualização social que o ISEG, com toda a sua diversidade e pluralidade, consegue manter por ser, de facto, a grande escola pública. Onde é que estão aqui dificuldades? Há dificuldades em não sermos uma simples business school. O ISEG é obviamente uma business school, provavelmente aquela tem o maior corpo docente qualificado nestas áreas no nosso país, mas também temos uma escola de Economia e isso não se pode perder, porque o país vai precisar sempre que haja entidades que não estão só à procura da última moda, mas que mantêm rigor na preocupação com outras áreas que em determinados momentos da nossa vida coletiva podem não ser tão sexy, mas depois são muito importantes para toda a nossa vida. Aqui há uns anos ninguém falava em Economia do Ambiente, se calhar hoje em dia é muito importante termos alguém que se preocupe com essas áreas. E, portanto, temos de ter uma formação e uma qualificação do nosso corpo docente que seja suficientemente banda larga para estarmos preparados para, a qualquer momento, termos quem consiga estudar, analisar, um problema relevante em diversas áreas. E os grandes desafios são depois, simultaneamente com isto, garantir padrões de standards internacionais, que às vezes se aplicam a escolas mais pequeninas ou mais simples que estão mais focadas apenas numa área. Para nós é muito trabalhoso fazer isso, mas depois, quando o fazemos, fazemos muito bem, e é nisso que estamos apostados, em conseguirmos garantir esta internacionalização com muita qualidade, sem perdermos identidade.

Já escreveu que o ISEG é o espaço de maior pluralismo que conhece na sociedade portuguesa. Porquê?
Posso dizer-lhe que é, na verdade. Qualquer almoço no ISEG, qualquer debate, qualquer conferência, consegue encontrar a maior diversidade de opinião, para além daquilo que é ciência. Somos um espaço muito representativo do que é a sociedade no seu todo. É uma escola de debate, de opinião, bastante politizada também, mas politizada de todas as frentes. É uma escola em que se discute vivamente e com muita tolerância tudo aquilo que está a acontecer. As pessoas aqui são - ao contrário do que vi na generalidade das escolas por onde fui passando, com a exceção talvez de Oxford - frontais na opinião, não fingem, quando estamos entre colegas sentimo-nos livres de dar a nossa opinião sobre um assunto e tratamo-nos com muita cordialidade.

Por onde passa o futuro do ISEG?
O ISEG, neste momento, tem entre quatro mil e cinco mil alunos, dos quais mais ou menos 20% são alunos internacionais, o que é uma boa percentagem. Claro que nós gostamos de alunos internacionais, porque enriquecem o debate na escola e aumentarmos de alguma forma a percentagem de alunos internacionais é positivo, mas não queremos tornar o ISEG uma escola descaracterizada. Muitas vezes com a globalização ir a qualquer sítio depois passa a ser absolutamente igual e nós achamos que também é importante que o ISEG, sendo uma escola internacional, continue a ser o ISEG e continue a ser uma experiência de estudar em Portugal. E, portanto, não é transformar estes 20% em 90% de alunos não portugueses. Mas aumentarmos de 20% para um terço de estudantes internacionais não me parece mal de todo. É algo está no nosso horizonte sempre, termos mais alunos internacionais. Noutro aspecto, temos uma oferta muito variada de cursos. Temos as licenciaturas em Economia e em Gestão que funcionam quer em português, quer em inglês, portanto são quatro licenciaturas. Temos a licenciatura estrela que é a Matemática Aplicada à Economia e à Gestão, top 10 do país nas escolhas dos estudantes em todas as áreas, é a licenciatura com a média mais alta do país nas áreas de Economia e Gestão, e que é em português. Depois temos ainda Gestão do Desporto, com a Faculdade de Motricidade Humana, participamos na licenciatura em Estudos Gerais da Universidade de Lisboa. Temos já uma oferta bastante diversificada nas licenciaturas e nos mestrados, temos 20 mestrados, exclusivamente nossos, onze em inglês e nove em português. Nos doutoramentos também temos expandido e na área da formação executiva temos reforçado muitíssimo. Continuamos a ter muitas pós-graduações, que têm muita procura, todas elas muito modernizadas estes últimos dois anos. Também temos o primeiro curso de Finanças Sustentáveis em Portugal, com uma procura imensa, que nem sei como é que vou conseguir sentar tanta gente daqui a duas semanas. Eu diria que o portefólio que temos é o mais variado que existe.

Como é que o ISEG fez face à pandemia? Das alterações que fizeram irão aproveitar algumas no futuro?
No dia 9 de março de 2020, a Universidade de Lisboa decidiu fechar as portas. E nessa noite enviei uma mensagem à escola a dizer 'amanhã não há nada, fechámos as aulas, vamos passar a um sistema online que começa na próxima segunda-feira'. Tivemos ali aquela primeira semana de embate e isto foi-se construindo. Houve um espírito de empreendedorismo enorme, em que estudantes e professores e funcionários estiveram muitíssimo unidos, e os estudantes sabiam que tinham de ajudar os professores naquelas primeiras semanas até saber onde é que clicavam, onde é que carregavam, e isto funcionou de parte a parte e adaptámo-nos. Estava tudo muito assustado, foi muito trabalhoso, mas fizemos com muita alegria e determinação. Foi um momento bonito na vida da escola. Eu também aproveitei, enquanto gestora, para fazer experiências que não teria conseguido fazer em condições normais. Metade dos alunos em sala, metade em casa, professor em sala, professor em casa. Fizemos um conjunto de experiências, até com alguma inovação pedagógica, equipámos todo o ISEG tecnologicamente, todas as salas têm câmaras, têm tudo e mais alguma coisa para podermos ter qualidade na transmissão. E aprendemos. Aprendemos que quando tivermos a opção de escolher o que é que queremos fazer online e o que é que queremos presencialmente achamos que vamos conseguir fazer bem as duas coisas. A pandemia, em termos do número de alunos, de candidaturas, tudo isso correu bem o ano passado para o ISEG. Temos número recorde de candidatos, de alunos nos mestrados, tudo isso funcionou. Mas, de facto, é muito duro ser-se estudante e professor nas condições atuais.

O plano é o próximo ano letivo já ser normal?
Na minha cabeça, não. Acho que o plano, o nosso plano, está sempre contigente daquilo que nos for dito pelas autoridades. Se me disserem que tenho que continuar a manter toda a gente com máscara ou o distanciamento dois metros, não posso voltar a um regime em que estamos cá todos ao mesmo tempo, todos os dias. Aquilo que eu espero que aconteça é uma progressiva normalização da situação. Se calhar, quando arrancarmos o ano letivo, se ainda não estivermos todos vacinados, vamos continuar com alguns cuidados e, se calhar, até fazer a vinda ao ISEG por turnos. O nosso planeamento do ano letivo está a ser feito com um calendário muito flexível, semelhante ao do ano passado, e que no nosso caso nos permite a qualquer momento deixar vir todos, ou apenas poderem vir alguns, ou subitamente todos termos que voltar ao online. Com a esperança de, se calhar, a partir do segundo semestre do próximo ano letivo já conseguirmos ter toda a gente aqui no dia a dia de forma um bocadinho mais livre.

Sendo especialista em Economia, Gestão e Finanças como é que vê o impacto que a pandemia teve em Portugal e como é que vamos conseguir recuperar?
O impacto que teve em Portugal está à vista de todos. Tivemos, no ano passado e este ano outra vez, com o segundo confinamento, uma queda brutal no nosso produto. Tudo o que eram setores estrela antes da pandemia - o turismo, a própria aviação - passaram a ser profundamente prejudicados e grandes contribuintes para o nosso sucesso económico nos últimos anos passaram a ser o problema principal na atualidade. A economia portuguesa atingiu um ponto de gravidade, em que é preciso muito apoio social. Vamos ter de esperar para ver em que medida é que a confiança no fim da pandemia faz com que as pessoas retomem uma vida mais normal. Há aqui um conjunto de empresas e de setores que, com os apoios que tiveram entretanto, podem retomar o tipo de atividade que tinham antes e até verem algum potencial de crescimento. Algumas que até experimentaram soluções digitais que não teriam experimentado de outra forma e até poderão ver uma outra forma de dinamizar os seus negócios. Portanto, a pandemia também não foi má para todos os setores, há setores nesta área da transformação digital que viram uma expansão da sua procura. Vamos ver como é que corre e se os tais fundos europeus vão ser suficientes para dar ao Estado o conforto para conseguirmos progressivamente reequilibrar as contas e não comprometer o endividamento externo de forma a que depois os nossos ratings piorem e venhamos a ter problemas de financiamento da dívida pública, que também não desejamos de todo. Eu tenho confiança na capacidade de regeneração da nossa economia, particularmente, havendo um bom enquadramento europeu com o Green Deal e com uma certa orientação quanto aos negócios do futuro em que devemos investir e o conjunto de transformações em que a maior parte dos setores de atividade devem apostar. Estas questões da recuperação económica portuguesa dependem obviamente da forma como forem aplicados em Portugal os fundos do PRR e do Quadro Plurianual, o que depende não só do Estado, mas também das ideias e da iniciativa dos privados. Quero acreditar que se surgirem bons projetos vamos conseguir financiá-los e é disso mesmo que o país precisa, de negócios inovadores e de qualidade que nos tornem exemplares em áreas que fazem com que sejamos bons alvos de investimento internacional. Temos de conseguir começar a fixar mais capital em Portugal que seja identificável como capital português, para não estamos permanentemente endividados. Conseguirmos beneficiar de tudo isso é um equilíbrio difícil, mas vai ter que ser feito.

Passou oito anos no Reino Unido como aluna e professora. Como viu todo o processo do brexit e como acha que vai ser a relação entre as duas partes?
Vi com bastante tristeza a saída do Reino Unido da União Europeia, porque acho que enriquecia a UE. Era bom termos o Reino Unido com a Europa para a Europa ser um bloco mais consistente e com mais força em qualquer negociação. A saída do Reino Unido é um sinal, de certa forma, de fraqueza das nossas democracias, por não estarmos a conseguir equilibrar a opinião das pessoas, não valorizarem o bom que esta União Europeia também nos traz. O Reino Unido trazia um certo equilíbrio à UE com um pendor menos burocratizante, de maior rapidez na tomada de decisão, que ajudava numa estrutura que é toda ela tão complexa. Agora, acho que o Reino Unido deve ser penalizado por ter feito isto à União Europeia. Vi com uma certa satisfação a dificuldade que foi sair. Vamos ver como é que o Boris Johnson vai negociando com a União Europeia nos próximos anos e espero que seja possível mantermos alguma boa colaboração. O brexit enfraqueceu a União Europeia, mas também não acho que tenha fortalecido o Reino Unido.

ana.meireles@vdigital.pt

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