"Nunca mais ninguém entrou em nossa casa, nem nós na dos outros"

Paula e João foram dos primeiros a ser infetados pelo SARS-CoV-2 em Portugal. Os filhos de Vítor e de Ana, o mais velho e o mais novo, também. E o mesmo aconteceu à família de Armindo Cosme. Três testemunhos da doença contados ao DN em 2020. Uns depois de saírem do hospital, outros ainda em isolamento em casa com o vírus no corpo. Mas hoje todos falam das marcas deixadas e do futuro.

Na história da covid-19 em Portugal, as famílias de Paula e João, de Vítor e Ana e de Armindo Cosme farão sempre parte dos primeiros cem infetados. O vírus entrou-lhes no corpo e na vida de rompante em 2020, Paula e João nem sabem como, porque mais ninguém dos seus contactos ficou infetado. O que sabem é que ele esteve internado no Hospital Curry Cabral 22 dias, ela 68, dos quais 38 em cuidados intensivos a lutar pela vida - "sabia que estava viva quando ouvia o bip do termómetro, era isso que me dava força", contou há um ano ao DN.

Vítor e Ana identificaram a origem da infeção: o filho mais velho frequenta a Escola Secundária da Amadora e teve aulas com a professora de Físico-Química que deu positivo depois das férias do Carnaval. O mais novo, que foi o primeiro a dar sinal da doença, já foi infetado dentro de casa. A filha, gémea do mais velho, e eles nunca testaram positivo, mas tal não impediu que Ana tivesse de ficar longe da família 101 dias.

Armindo Cosme também sabe de onde veio o vírus. No início de março de 2020, pensava que estava a ter uma crise de rinite alérgica, quando na madrugada do dia 12 o seu sócio na farmácia teve de ser internado no Hospital São João com covid. Na manhã seguinte, os delegados de saúde estavam a fechar-lhes a farmácia e a fazer testes de rastreio. Ele estava positivo e a farmacêutica, que é diretora-adjunta, também. Dias depois, a sua mulher e os filhos estavam positivos também. Ficaram quase dois meses em isolamento.

As vidas de Paula e João, de Vítor e Ana, de Armindo Cosme e família nunca antes se tinham cruzado, nenhum deles se conhecia ou conhece hoje, mas terão para sempre a marca comum da pandemia que começou em Wuhan, na China. Tanto seja pelo medo que a doença lhes trouxe como pelo sofrimento ou isolamento dos outros. "É do que mais sentimos falta", dizem quase todos: "Nunca mais ninguém entrou em nossa casa, nem nunca mais fomos a casa de ninguém." Quase um ano depois, a vida que tinham ainda não está de volta, tal "como acontece com os outros portugueses", desabafam, mas a deles tem algum peso a mais, "estou na fase de aceitar as limitações", assume Paula. Vítor e Ana tudo fazem para que na vida dos filhos na pandemia não se torne "um medo em relação aos outros e ao mundo". E Armindo confessa que na sua vida e no seu negócio "ainda está tudo em suspenso".

Três relatos da marca covid-19, três relatos para não esquecer e para ter em mente sempre que se pense que já se pode baixar a guarda nas regras de proteção. Eles não o fazem, porque nunca se sabe o que pode acontecer com as novas variantes que andam por aí.

Um ano estranho e desafiante

Por isso, as conversas com o DN foram ao telefone e os encontros ao ar livre. A última explosão da doença no início deste ano também trouxe novos receios, apesar de acharem que aquilo por que passaram lhes deu alguma imunidade.

Paula e João, casados há 27 anos, ela com 56 anos e ele quase com 55, não querem sequer pensar que poderão ficar de novo afastados do trabalho e do que gostam fazer. Paula é enfermeira no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, há mais de 30 anos, 15 dos quais em cuidados intensivos, hoje na área da consulta externa para crianças com doença crónica complexa, só voltou ao serviço no dia 20 novembro, "um dia que nunca mais vou esquecer", oito meses depois de ter sido internada.

Paula chegou ao Hospital Curry Cabral a 15 de março, o marido já lá estava desde o dia 12, no dia 16 ambos entraram nos cuidados intensivos. Ele saiu ao fim de poucos dias, ela ficou 38, porque desenvolveu várias complicações. Quando saíram não conseguiam falar nem sequer andar. A partir daí, a luta tem sido constante para regressar à vida e ao que eram.

João diz estar bem, mas quando falou ao DN em junho de 2020 achou que em agosto estaria pronto para começar a voar - é chefe de cabine na TAP e faz voos de longa duração -, mas só teve alta no final de novembro: "O cansaço levou muito mais tempo a passar do que imaginava."

O primeiro voo só o fez na terceira semana de janeiro deste ano. "Fui para Luanda, correu tudo bem", diz, mas foi atirado de novo para terra, com o novo confinamento. Tem esperança neste mês de março, já que o do ano passado foi marcado pelo vírus. Neste ano, tem novo voo marcado, "vamos ver se acontece", desabafa.

Um ano depois, João acha que a doença não o afetou muito, pensava que tinha ficado mais calmo, mas "parece que o nervosismo está a regressar", ri-se. A grande incógnita é o que vai acontecer daqui para a frente no trabalho, que diz adorar, e na doença, mas de uma coisa tem a certeza: "Deixei de sofrer por antecipação."

Paula admite sem temores que o seu regresso tem sido mais lento. "No início achei que estava muito bem, que estava a ultrapassar tudo de forma muito forte. Neste momento, tenho apoio psicológico, cheguei a uma altura em que senti que precisava e está a ajudar-me imenso. Às vezes, uma boa conversa com estratégias adequadas ajuda-nos a fortalecer e faz toda a diferença." Para Paula o cansaço ainda é um problema. "Tenho melhorado, mas ainda é bastante incomodativo. Estou muito mais lenta, se me excedo fico muito cansada." Isto e a memória, que ainda a trai às vezes, são o pior. "Passei a andar com papéis atrás para não me esquecer de nada."

Neste momento, assume, "estou a aprender a aceitar as limitações. Há dias difíceis, mas estou a aprender". Continua a ser acompanhada em várias especialidades, ficou com cicatrizes nos pulmões, e no trabalho teve de adaptar as suas funções para continuar, mas sobre o dia em que regressou afirma: "Senti que renasci. Fui muito bem recebida. Cheguei a casa com um sorriso de orelha a orelha, mas não estou a fazer cuidados diretos às crianças e nem visitas domiciliárias, ainda não consigo. Estou na parte de gestão de materiais, tudo o que as crianças e as famílias precisam."

Tirando o trabalho, Paula e João continuam isolados dos contactos com a família e com os amigos. Os pais e os sogros ainda vão vendo durante os passeios higiénicos que fazem na zona onde vivem em Lisboa, "eles moram aqui no bairro ao pé de nós, mas temos sempre muito cuidado. Só nos encontramos na rua, com máscaras, distância física e sem toques". Paula confessa que é do que sente mais falta. "Gosto muito de conversar e de estar com os outros. Tenho saudades de uma esplanada e dos amigos."

O ano de 2020 foi "estranho" para Paula, "desafiante" para João, apesar de tudo. A Paula no ano passado veio confirmar o que, de certa forma, já sabia, "temos uma linha muito ténue a separar-nos. Tão depressa estamos bem como de repente estamos do outro lado sem perceber o que nos está a acontecer. Aquilo que pensamos que só acontece aos outros também nos acontece a nós". Hoje, a sua relação com as crianças e com as famílias de quem cuida é diferente. "Sei que quando falo com elas, sorriem, como que a dizer, sabes o que sentimos." E só por isso, 2020 "valeu a pena".

"Que o outro não seja visto como uma ameaça"

Vítor e Ana Couto não foram infetados com o vírus, mas viveram a experiência do isolamento e da separação porque dois dos três filhos - o mais velho, João, agora com 14 anos, e Tiago, agora com 2 anos e 1 mês - foram infetados. O primeiro a dar sinais foi o mais pequeno, depois o mais velho. Tiago, na altura com 15 meses, teve de deixar de mamar no espaço de poucas horas, para ser internado com o irmão no Hospital Dona Estefânia. "Isso foi o pior", relembra a mãe. O pai ficou com eles e assim permaneceu por mais três meses. "Tive de meter baixa para acompanhar os meus filhos", explica.

Ana ficou com a filha, Rita, de 13 anos na altura, que tinha dado negativo. Mas quando saíram do hospital Ana teve de ser separada da família. "Tenho uma doença degenerativa pulmonar e sou uma doente de risco", tinha contado antes ao DN. Rita ficou com o pai e os irmãos.

A família esteve separada 101 dias, porque João esteve positivo 86 dias. "Só ao 13.º teste é que deu negativo e, na altura, era aconselhado que o isolamento deveria ser até o infetado ter dois testes negativos. Hoje, já não tem nada a ver, ao fim de dez dias a pessoa tem alta. Mas a cada semana tínhamos de gerir as expectativas, e isso foi o mais complicado", conta Vítor.

Para Ana, " os dias em que o João fazia o testes eram o mais difícil para mim, ficava ansiosa até saber os resultados". Depois, era mais uma semana a tentar manter energia para levar a vida para a frente, o regresso "foi muito, muito, muito desejado, mas, depois, um pouco complicado. Estive muito tempo afastada dos meus filhos, sobretudo do mais pequenino", admite.

Mas em conjunto começaram a regressar à vida. Assim que puderam começaram a sair todos os sábados para fazerem um piquenique. "Saímos de manhã e voltávamos à noite, descobrimos um outro Portugal, tínhamos dias que não víamos ninguém, só nós e o exterior." À noite, contam a rir, "o jantar era no MacDrive, menos para o mais pequeno. Era a loucura total".

Foi assim durante o verão, a partir de certa altura a vida passou a ser igual à de tantas outras famílias portuguesas. Talvez com uma diferença: "Como tivemos três meses mais complicados, depois conseguíamos olhar para a situação pela parte positiva e não pela negativa."

Mas este foi sempre o lema que Vítor e Ana praticamente impuseram a eles próprios durante a doença dos filhos e no regresso à normalidade: fazer tudo em família e de forma positiva. "O grande desafio foi tentar encontrar um equilíbrio psicológico para o nosso filho mais velho e arranjarmos formas para, apesar de ele estar isolado no quarto, estarmos todos juntos, as refeições eram feitas por videochamada e criámos jogos para fazermos online." A nível escolar tanto João como Rita saíram-se bem. O pai diz mesmo: "Aceitaram as aulas à distância muito bem. Agora, sentem mais o confinamento. Apesar de terem sempre todos os cuidados, estiveram juntos com os colegas e com os amigos."

Lá em casa ninguém esquece que a mãe é uma doente de risco. "Reduzimos a zero os contactos com a família e com os amigos. Nunca mais ninguém entrou em nossa casa, nem nós nunca mais entrámos na casa de ninguém." Nos três meses da doença, Vítor esteve assoberbado com a vida, com os filhos, com o manter-se imune à doença sem ter tempo para pensar. Ana, pelo contrário, "sozinha tinha tempo de sobra para pensar em tudo".

Hoje olham para trás e percebem que os filhos mais velhos deram "um salto grande em maturidade", que o mais novo, apesar de infetado, é o menos afetado pelo impacto da doença, só têm pena de que não conheça outra realidade que não a do distanciamento, "sem abraços ou toque, por parte dos avós, dos tios, dos primos".

Quando falámos com Vítor e Ana, de 38 e 37 anos, um engenheiro e uma farmacêutica, quase há um ano, ele dizia: "Não precisávamos de passar por isto para dar mais valor à vida, já passámos por muito." Agora, diz, "tudo o que aprendi neste ano é que tenho de me focar no que estou a viver e não no que me faz falta viver. Se não fosse a pandemia, se calhar, nunca teria passado tanto tempo com os meus filhos e em família."

Ana sente o mesmo, mas preocupa-a o crescimento saudável dos dois filhos adolescentes. "Preocupa-me o impacto que pode ter no futuro deles." Aliás, um receio que estende à sociedade em geral. "Espero que não se crie uma geração muito marcada pela pandemia, que olhe para o outro como um perigo, "o que nos pode transmitir?"" Vítor reforça: "Têm sido tempos de incitamento ao não estar com os outros, de que não nos podemos tocar, espero que a partir daqui também saibamos dar o salto de olhar para o outro sem que seja uma ameaça." Na família de Vítor e de Ana já há mais três bebés da pandemia, e o que esperam é que tudo volte o mais depressa possível "ao que se entende como normalidade".

"As nossas vidas ainda estão suspensas"

O vírus levou 42 dias a sair do corpo de Armindo Cosme, do Porto. "Não imagina a descompressão que foi quando pude sair de casa para ir às compras", diz. Armindo não esquece o dia 12 de março, aquele em que durante a madrugada ficou a saber que o sócio tinha sido internado no Hospital São João com covid-19.

Na altura, contou ao DN que a origem da infeção teria começado por aquele contacto, o sócio tinha estado num jantar em Aveiro com empresários de Penafiel que tinham ido a Itália. Antes do diagnóstico, o sócio não se sentia bem e ele achava que andava com uma crise de rinite alérgica. Depois, confirmou-se que "era o vírus". O grande susto, conta, "é que o meu filho faz anos a 5 de março e nós tínhamos juntado família e amigos, mais de 30 pessoas, todas tiveram de ficar em isolamento, mas nenhuma testou positivo".

Logo aqui, Armindo sentiu que a sua vida tinha ficado suspensa. Ele, a mulher, a filha de 17 anos e o filho de 13 ficaram todos infetados. A farmácia de que é proprietário com o sócio na Baixa do Porto foi fechada. Os funcionários foram enviados para casa e desde aí que não sabem o que o futuro trará. "Depois do isolamento, voltámos a abrir a farmácia, em espelho, e usando o lay-off para manter o negócio. No verão, chegámos a ter a equipa completa a funcionar, agora voltámos às equipas em espelho e não sabemos o que aí vem", argumenta.

O farmacêutico do Porto esteve 42 dias positivo e isolado em casa. Ele e a família não tiveram necessidade de cuidados hospitalares, mas o vírus parecia não querer deixar a família. "O meu filho esteve 64 dias positivo. A minha mulher uns 35. Fomos sempre seguidos no São João. Houve uma altura em que não tínhamos sintomas e que achávamos que estávamos curados, mas ainda testámos positivo."

A primeira vez que falámos com Armindo Cosme, a sua farmácia integrava um lote de sete que tinham sido fechadas por casos de infeção. Ele e a família estavam em isolamento em casa ainda com o vírus, mas depois tudo mudou. E quando puderam voltar a sair de casa, recorda, sentia, que tinham ganho um estatuto que outros não tinham, "estávamos imunes à doença, mesmo agora, e quando anda tudo atrás das vacinas, nós estamos imunes. Na farmácia, temos testes serológicos, a minha filha fez um muito recentemente e ainda está imune", conta, acrescentando: "Quando abrimos a farmácia fizemos testes serológicos a todos os funcionários e os resultados deram imunidade. Só por esta amostra, sabemos que muito mais gente teve a doença sem saber."

O isolamento da família coincidiu com o encerramento das escolas, depois tiveram o verão que permitiu "desanuviar um pouco", e a realidade da família passou a ser "a de todas as outras." Por isso, o impacto maior da doença foi e continua a ser na área profissional. "Somos uma farmácia da Baixa do Porto e as coisa não estão nada fáceis. Nem para nós nem para todos os outros que têm negócios nesta zona. Não foram só os turistas que desapareceram, apesar de terem um peso importante na atividade, o problema é que todas as compras diretas que fizemos para 2020, com base no mercado de 2019, saíram completamente furadas. Foi investimento que não estamos a conseguir recuperar. Olhe, como dizia um jogador do Porto, prognósticos só no fim do jogo e nós não vemos o fim deste jogo."

Armindo admite que o que tem valido são os apoios do Estado, embora, critique, que estes exigem muita burocracia que deveria ser simplificada e que nem sempre chegam a quem precisa. E dá exemplos: "Nós não conseguimos nenhum apoio para as rendas, o nosso senhorio é uma sociedade anónima e não está obrigada a fazer o registo no portal das rendas. E para conseguirmos aceder ao apoio do Estado isto teria de acontecer. Temos um contrato de 1933, o senhorio fatura-nos a renda todos os meses, mas não temos qualquer apoio porque eles não são obrigados ao registo. Não faz sentido. Como nós há imensos comerciantes nesta situação."

Armindo Cosme diz que ainda não teve de despedir ninguém, mas desabafa: "Eu critico, mas quando olho à minha volta sinto que estou de barriga cheia, porque tenho um negócio que está de porta aberta. Há outros que têm os negócios fechados, não sabem se vão voltar ao trabalho. Conheço pessoas que estão completamente desesperadas."

Para o farmacêutico, um ano após a doença a principal preocupação "é o day after. Como vai ser? Como vamos conseguir voltar à normalidade quando tudo isto passar? No ano passado a nossa vida esteve completamente suspensa, um ano depois estamos na mesma em todos os sentidos. É o negócio, são os miúdos nas escolas que perdem anos de aprendizagem, e tudo isto me preocupa imenso. Quando olho para o futuro, só vejo interrogação."

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