São muitos os desejos, mas é um longo passo para os atingir

São necessários, em média, 60 dias para adquirir um hábito sem ser um sacrifício. E às vezes o melhor é ter um amigo a ajudar

Finalmente vou deixar de fumar, emagrecer, ser mais pontual ou poupar para a minha viagem de sonho. Estas são algumas das mil e uma promessas que se fazem no início de um ano. Mas será que, afinal de contas, as conseguiremos concretizar? A psicóloga Teresa Espassandim, do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), diz que "dos desejos aos objetivos a cumprir vai um longo passo". Há que os fazer por etapas, com consciência e até contar com o apoio de um amigo. Caso contrário, podem gerar frustrações, desilusões e até reações depressivas.

Na realidade, diz a psicóloga do ISEP, "não são assim tantas as pessoas que estabelecem objetivos, mas sim as que formulam desejos para um novo ano". Tudo porque um desejo pode não passar disso mesmo, enquanto um objetivo é para cumprir. A psicóloga aconselha mesmo a ter consciência do esforço que é preciso fazer para alcançar os novos objetivos de vida a que nos propomos no início de um novo ano.

O verdadeiro segredo é "a motivação, a consciência das dificuldades a ultrapassar e o esforço pessoal para alcançar o objetivo", aconselha. "Não basta dizer que vou perder 30 quilogramas num mês. Há que fazer sacrifícios", avisa. Sejamos realistas: é necessário fazê-lo por etapas, estabelecer metas e períodos temporais para o conseguir alcançar com sucesso. E, mais do que tudo, perceber que não é de um dia para o outro que se emagrece assim. Teresa Espassandim alerta para as desilusões que as pessoas podem ter no caso de não conseguirem cumprir os objetivos desejados. E muitas delas acabam por abandonar esse mesmo propósito, pois tal exige mais esforço do que a pessoa está disposta a fazer.

Verdade se diga, se de repente alguém que nunca fez exercício físico se propõe fazê-lo três vezes por semana, tem de ser realista e perceber que o tem de fazer por etapas para se adaptar. Sabe-se que é difícil deixar de fumar e pode não acontecer de um dia para o outro. O fumador terá de ter consciência disso e não desistir à mínima dificuldade. "Nunca encontrar justificações em terceiros para a sua falha. É preciso querer muito. Está provado que são necessários, em média, cerca de 60 dias para se adquirir um hábito novo sem ser um sacrifício."

"Querer é poder"

Ora, "querer é poder", como diz o presidente do IPO do Porto, Laranja Pontes, que é adepto do "trabalho persistente e não da sorte fortuita". Ainda que não tenha por hábito formular desejos no final do ano, Laranja Pontes espera que 2016 traga um envelope financeiro maior para o IPO do Porto e "que haja vontade de pagar a quimioterapia oral aos doentes, que é uma luta já antiga". Também deseja continuar "a ter verbas próprias através de mecenato, espetáculos para investir na humanização e investigação".

Para Miguel Guedes, vocalista dos Blind Zero, o final do ano é um período de balanço. Mas isto das resoluções do novo ano "é uma falsa expectativa. São desejos que, muitas vezes, se confundem com nuvens". Na realidade, crê que temos de tomar decisões durante todo o ano e não numa noite de final do ano. Ainda assim, o músico deseja "um ano com muita criatividade, felicidade, esperança, recuperação económica e pessoal". Mais, conta, "em 2016, teremos um disco novo e pretendo ter mais tempo".

O fechar de um ciclo

Teresa Espassandim diz que, no final do ano, há como que uma lógica de calendário, há um ciclo que se fecha e as pessoas, a propósito dos rituais, fazem um balanço, querem mudar comportamentos". Mais, "é inevitável que aconteça, a propósito do ritual das 12 passas à meia-noite para pedir igual número de desejos". Há depois os rituais externos, como a compra de roupa interior nova de cor simbólica, como o azul na procura de saúde, o branco da paz, o vermelho do amor, etc. "No fundo, são superstições", refere. E existem ainda coisas antigas e pagãs, como o bater os testos dos tachos, que incorporamos na nossa cultura.

Mas, na realidade, aproveita-se esta altura para fazer o balanço do ano que termina. E formulam-se resoluções de um novo ano, como o deixar de fumar, emagrecer, mudar de emprego, arranjar mais tempo para a própria pessoa, etc. Ou ser mais organizada no trabalho. "Mas será que a pessoa está disposta a eliminar as distrações e a estabelecer tempos para trabalhar?" Compram agendas ou fazem downloads de aplicações para o telemóvel para aumentar a produtividade e a organização. "Se não tiver vontade própria, não há agenda ou programa que o salve. Sejamos realistas: não há nenhuma agenda que obrigue a cumprir o que a pessoa lá escreveu. Tem de haver compromisso."

O ator Mário Moutinho diz que isto de desejos não é coisa que o preocupe. "Pensar o final do ano como início de qualquer coisa, é disparatado, porque a vida é contínua. Não tem balizas no final ou no início do ano", afirma. Ainda assim, o ator que participou nas Mulheres de Abril, na RTP, deseja "mais produção audiovisual e teatral, que "seja menos complicado haver trabalho no teatro".

Ainda que também não seja de desejos de final do ano, o arquiteto Álvaro Leite Siza Vieira (o filho) vê no seu centro de documentação, com espólio da família, um desejo concretizado em 2015. Feito o balanço, refere ainda a publicação de um livro. "Foi um ano em que se fecharam portas e se abriram janelas. E 2016 será um ano de continuação, de não desistir. Gostaria de ter tempo para praticar desporto."

Também o jovem revelação do mundo do surf, Salvador Couto, prepara-se para a alta-competição. Entrar no top 10 - campeonato mundial sub-16, conseguir ser campeão nacional sub-16, entrar no top 15 europeu sub-18 e figurar no top 20 na Liga Moche Open e no top 5 no europeu de juniores. Estes são alguns dos seus desejos.

A psicóloga do ISEP aconselha que se alguém quer começar a fazer exercício físico é mais fácil se o fizer acompanhado de um amigo. Se quer emagrecer, o melhor é estabelecer metas, fazê-lo por períodos temporais e de uma forma sustentada. Implementar estratégias, tarefas que ajudem a cumprir. Para os não pontuais, o melhor é pensarem bem porque é que tal acontece. Porque é que andam sempre atrasados e a correr, se é em todas as situações, se é só em relação ao trabalho. Pequenas dicas: refletir no que o atrapalha pela manhã e optar por escolher a roupa na véspera antes de se deitar e deixar a mesa do pequeno-almoço já meio adiantada.

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