No monte dos Surdos bebe-se do furo há 30 anos
Campo maior "Repare na força desta água. Olhe como é limpinha. É melhor que a rede pública e bem mais barata", atesta Manuel Vitorino enquanto abre a torneira e aponta a mangueira em direção às viçosas folhas da trepadeira. Depois enche o próximo copo e bebe de golo. "Sempre fresquinha", sublinha. É assim há quase 30 anos no monte do Surdos, em Campo Maior, desde que o perfurador escavou a terra, fazendo o furo artesiano que continua a abastecer de água a casa das quatro pessoas que lá vivem e a regar os campos agrícolas ali à volta.
Só é preciso estar atento à bomba e não deixar enferrujar nenhuma peça. Afinal, o equipamento está debaixo de água. Funciona num sistema automático, consoante a pressão atribuída. Encontra-se sempre em carga pelo que nunca falta água nas torneiras da casa.
"Mas de três em três anos tem de se fazer a revisão. Se alguma peça enferruja tem logo de ser trocada. Se a bomba se queima, temos de comprar uma nova. Custa quase 2 mil euros", refere, admitindo que os cuidados para garantir o acesso à água nesta região, marcada por sucessivas secas, são redobrados, anulando, à partida, qualquer descuido.
Aliás, foi devido à falta de água para rega que a Cooperativa Agrícola de Produção Alentejo Livre decidiu há 30 anos avançar com a solução do furo. A água da rede passava longe - e continua a passar - enquanto a albufeira que servia esta zona de Campo Maior não tinha volume suficiente para tanta procura. "Era preciso criar condições dignas para quem aqui morava. Até hoje nunca faltou água aqui", insiste Manuel Vitorino, sublinhando que apenas em anos sucessivos de seca o furo dá ténues sinais de escassez. "Mas isso também acontece na rede pública", acrescenta, reforçando que mesmo assim, a qualidade tem sido a norma por estas paragens. E lá volta a levantar o copo de água cristalina, que comprova a ausência de qualquer tipo de acento. Diz que a qualidade é assegurada pelas análises a água a cada dois anos e à terra a cada três. Também as plantas regadas são examinadas anualmente.
E quanto ao preço? O monte dos Surdos está isento de qualquer tarifa porque não ultrapassa o débito dos 5 mil litros por hora, segundo a avaliação feita pelos técnicos na altura da instalação da bomba. Eis um dos motivos que leva Manuel Vitorino a nem admitir a possibilidade de um dia o monte vir a ser contemplado pela rede de abastecimento público. O outro motivo explica-se com o facto da rede pública ficar a uns quantos quilómetros do monte.
"O único problema é se algum dia a veia seca. Na estrada de Ouguela - a uns quilómetros dali - já aconteceu. Construíram tantas casas e abriram tantos furos que o aquífero foi à vida e precisaram da rede pública", relembra o agricultor.