Exploração de gás e petróleo assusta Costa Vicentina

"Nem Allgarve nem Oilgarve." População da Carrapateira, Aljezur, começou a mobilizar-se contra a prospeção de petróleo e gás

A sala do Centro Cultural Recreativo "Amigos da Carrapateira" encheu-se na quinta-feira à noite para ouvir falar de nomes estranhos como o fracking ou a fraturação hidráulica, que possibilita a extração de combustíveis líquidos e gasosos do subsolo. Mas nem alguma confusão criada pelos termos técnicos consegue mudar as certezas da população: Terra da costa vicentina, a Carrapateira (concelho de Aljezur) quer continuar a ser conhecida pelo surf e pela bela praia do Amado e não por ter furos para encontrar petróleo ou gás de xisto. "Nem Allgarve nem Oilgarve. Queremos o nosso Algarve", sintetizou ao DN Laurinda Seabra, presidente da Associação de Surf e Atividades Marítimas do Algarve (ASMAA).

Está em marcha um movimento popular e de autarcas algarvios contra a prospeção e exploração de petróleo e gás naquela "fatia" da costa, prevista tanto em terra (onshore) como no mar (offshore), na bacia do Alentejo e na bacia do Algarve. "Nem um furo, nem agora nem no futuro", é o nome da campanha da ASMAA lançada oficialmente na quinta-feira, com autocolantes para colar no carro, t-shirts e uma petição para as populações assinarem. A comunidade da Carrapateira foi a eleita para a primeira de várias sessões públicas de esclarecimento das populações dos concelhos de Aljezur e Tavira contra o "Oilgarve".

Ontem à noite estava prevista mais uma sessão, na freguesia de Rogil, hoje às 15.00 haverá uma em Odeceixe e na segunda-feira, às 9.30, será em Monchique. As concessionárias, a Portfuel, de Sousa Cintra, a Partex, a Repsol, a Galp e a ENI, garantiram ao DN que ainda estão numa fase de sondagens, o que também é sublinhado pelo Ministério da Economia (ver texto ao lado). A ASMAA, que leu e divulgou os contratos públicos de concessão no seu site, não acredita na palavra das companhias. E também não acredita no Governo.

Do fracking e outros perigos

A ativista ambiental Laurinda Seabra - que é também uma engenheira que trabalhou mais de 30 anos para petrolíferas na África do Sul - avisou a população da Carrapateira com o seu sotaque mesclado de inglês: "Sei do que estou a falar". Quando mostrou slides com imagens de derrames petrolíferos nos Estados Unidos e na Austrália, de gado morto e de água contaminada, ou de sismos em Oklahoma por causa do fracking - técnica de extração que injeta no subsolo uma mistura de água e produtos químicos a alta pressão para romper as rochas onde estão os hidrocarbonetos - ouviram-se expressões de horror na assistência. "É isto que queremos aqui?", perguntou. "Não, não", sussurravam uns, outros apenas abanavam a cabeça em protesto. "Vergonha...uma vergonha!", exclamou em português, mas com sotaque britânico, um homem na segunda fila do público, de cabelos louros compridos e pele bronzeada. A exploração por fracking está prevista no contrato da Petrofuel de Sousa Cintra e apesar de ainda não se estar nessa fase os receios já são muitos. A ativista deixou uma palavra de esperança: "Pela primeira vez em três anos estamos a ser apoiados pelas câmaras nisto". Não é um ponto de somenos importância: a grande maioria dos municípios algarvios são PS. Por outro lado, "o PS foi o partido no governo de Sócrates que negociou os contratos e depois entrou a coligação PSD-CDS-PP para o governo e manteve tudo", lembrou Laurinda.

Junta PS dececionada com Costa

Na sessão participou também o presidente da junta de freguesia da Bordeira (PS), a que pertence a Carrapateira. João Santos diz-se "dececionado" com o primeiro-ministro socialista António Costa, por ter dito no Parlamento, na sexta-feira passada e em resposta ao deputado do PAN André Silva, que os contratos são para manter. "Fico dececionado com António Costa e sei que o presidente da Câmara de Aljezur também. Os contratos estão assinados mas há que ouvir a população e os autarcas, que nunca foram ouvidos desde o início, em 2009". João Santos disse ainda que se sentiu "injustiçado" quando percebeu que na sessão parlamentar só o deputado do PAN interpelou António Costa. "Temos um secretário de Estado das Pescas, o José Apolinário, que é algarvio e não se pronunciou". "Lisboa não manda e o Algarve obedece!".

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