Nanquim (II): o Templo de Confúcio e a memória da vida nas margens
Atravessando a ponte de pedra sobre o rio Qinhuai, entra-se no Bairro do Templo de Confúcio, no centro do qual se encontra o templo dedicado a Confúcio (551 a.C. – 479 a.C.), um pensador e educador importante da China Antiga, a quem é atribuído o título honorífico de “mestre” (em chinês fuzi). As funções primordiais do templo eram a celebração da sua memória e a educação.
Ao contrário dos templos de Confúcio noutras regiões, o de Nanquim tem a sua origem na Dinastia Jin Oriental (317-420), quando ali funcionava uma escola oficial. Durante a Dinastia Song do Norte (960-1127), o templo foi ampliado sobre o antigo local da escola, consolidando gradualmente uma configuração que integrava templo, mercado e ruas.
Atrás do templo ficava a escola pública oficial, estabelecendo-se a disposição com “templo à frente e escola atrás”. Os estudantes jovens dedicavam-se ao estudo dos clássicos, enquanto, do lado de fora do mesmo portão, os vendedores montavam as suas bancas, oferecendo mercadorias a discípulos e moradores. Foi precisamente esta justaposição entre o espaço de culto e ensino, e o bulício da rua que impediu o templo de se fechar sobre si mesmo, integrando-o diretamente na vida quotidiana do bairro comercial.
O espelho de água diante do templo é o que melhor ilustra esta simbiose. Segundo a tradição ritual, a entrada principal do Templo de Confúcio de cada região deveria ser precedida por um lago cerimonial semicircular chamado panchi, cuja travessia simbolizava o início da jornada de aprendizagem.
Na maioria das cidades, o panchi era um tanque estático, escavado artificialmente dentro dos muros. Mas os construtores de Nanquim tomaram uma decisão rara: alargar um troço natural do rio Qinhuai para servir de panchi. O que corre diante do portão do templo não é um tanque fechado, mas um curso de água urbano por onde navegam barcos e circulam pessoas. Para delimitar o espaço cerimonial, os construtores ergueram na margem sul do Qinhuai uma enorme parede decorativa de tijolo e pedra com mais de cem metros de comprimento que define o perímetro ritual do templo, sendo a estrutura mais longa do género ainda existente na China.
A leste do conjunto arquitetónico do Templo de Confúcio, ergue-se outro vasto complexo – o Jiangnan Gongyuan, centro de exames imperiais da região. Se o Templo de Confúcio representa o ideal da Educação, este espaço revela a sua face mais pragmática. Fundado em 1168, durante a Dinastia Qing (1644-1912) tornou-se um dos maiores recintos de exames imperiais da China.
O sistema de exames imperiais era o mecanismo através do qual a China antiga selecionava os seus funcionários. Em cada época de exames, multidões de candidatos afluíam a Nanquim, necessitando de alojamento, alimentação, livros, pincéis e tintas, uma procura que impulsionou o comércio nas redondezas, com o aparecimento de restaurantes, estalagens, livrarias, bancas de papel e tinteiros em torno do centro de exames.
A disposição interior do complexo impressiona ainda hoje. No seu auge, o Jiangnan Gongyuan contava com mais de 20 mil haoshe – pequenos cubículos individuais, estreitos e independentes, reservados exclusivamente aos examinandos.
Cada compartimento não era muito maior do que uma cabine telefónica: três paredes de tijolo e uma face aberta, sem porta sequer. Os candidatos ali permaneciam vários dias, utilizando duas tábuas para responder às provas, comer e dormir – a tábua de cima servia de mesa, a de baixo de banco e, à noite, juntavam-nas para fazer uma cama. O resultado de um exame não só punha à prova anos de estudo, como podia mudar o destino de toda uma família.
O sistema imperial durou cerca de 1300 anos, tendo sido oficialmente abolido em 1905, pondo fim à função do recinto como local de exames. Hoje, no seu lugar, ergue-se o Museu dos Exames Imperiais da China, onde os visitantes podem ver réplicas dos cubículos.
A maior parte dos edifícios na área do Templo de Confúcio foi reconstruída na década de 1980, segundo o estilo das dinastias Ming e Qing (1368-1912), embora alguns elementos originais da época Ming tenham sido preservados. Contudo, o que mantém vibrante este bairro até hoje não são os edifícios em si, mas as tradições que perduram – os Festivais de Lanternas, a gastronomia e a atividade comercial.
O que melhor traduz esta continuidade é o Festival das Lanternas do Qinhuai, realizado todos os anos entre o Ano Novo Chinês e o Festival das Lanternas (que encerra as celebrações do Ano Novo). Esta tradição tem mais de 1700 anos, tendo atingido particular esplendor durante as dinastias Ming e Qing. Os enormes dragões-lanterna refletem-se nas águas do rio, enquanto as praças se enchem de famílias carregando lanternas de papel – uma imagem festiva que permanece viva na cidade até aos nossos dias.
INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS

