Esquadra do Rato foi um dos locais de busca.
Esquadra do Rato foi um dos locais de busca.Foto: Reinaldo Rodrigues

MP investiga polícias que viram vídeos de tortura na esquadra do Rato e não denunciaram

Mais sete polícias foram detidos, sendo esta operação resultante de uma certidão retirada do primeiro inquérito do MP Em causa estão crimes de inação, que podem ser punidos com prisão.
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Alguns polícias ficaram a saber, através de um grupo no WhatsApps, das alegadas agressões nas esquadras do Rato e do Bairro Alto, mas não denunciaram os casos. Agora, podem ser acusados do crime de inação. O Ministério Público (MP) e a Polícia de Segurança Pública (PSP) estão a investigar a situação e mais sete polícias foram detidos.

Os cacifos dos agentes foram alguns dos alvos das buscas e apreensões realizadas esta quarta-feira, 04 de março, soube o DN junto de fonte da PSP. Os sete polícias serão agora ouvidos por um juiz que lhes aplicará as medidas de coação. Recorda-se que dois polícias já estão acusados e presos preventivamente desde o ano passado.

Esta investigação, que decorre desde o verão de 2025, começou após denúncia da PSP, que teve conhecimento dos factos. Neste inquérito investiga-se a eventual prática de crimes com tortura grave, violação, abuso de poder, ofensas à integridade física qualificadas.

Segundo despacho do MP, a que o DN teve acesso, os polícias comentaram as agressões em grupos de mensagens após o envio de fotos e vídeos em que aparecem as vítimas a ser torturadas fisicamente. “Vai andar na rua de cabeça baixa”, “vai acordar todo f***do amanhã” e “quando vir a cor azul ele corre” são algumas das frases citadas.

Mas há mais: “Foi pena não ter morrido esse paneleiro” e “Eu metia o gajo no Tejo”, sendo que um polícia respondeu. “Mano, se tivesse morrido távamos na merda”. De acordo com o despacho de acusação, uma das vítimas, natural de Marrocos, além de torturada fisicamente, foi obrigado a beijar as botas dos polícias, enquanto diziam “Welcome to Portugal” e “Beija, kiss, kiss, car***”.

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MAI reage

“O Governo é absolutamente claro: não há lugar nas forças de segurança portuguesas para práticas de violência ilegítima, maus-tratos ou qualquer forma de violação dos direitos fundamentais. Sempre que existam indícios desses comportamentos, devem ser apurados e punidos nos termos da lei”, indicou, em comunicado, o gabinete do ministro Luís Neves.

O Ministério da Administração Interna (MAI) destaca que “as detenções ontem realizadas mostram que as instituições do Estado estão a funcionar e que quaisquer suspeitas de comportamentos ilegais por parte de agentes das forças de segurança serão investigadas com total rigor”. Ao mesmo tempo, o novo MAI afasta generalizações: “A esmagadora maioria dos profissionais da PSP serve Portugal com elevado sentido de missão, coragem e respeito pela legalidade democrática”.

Por fim, o ministério afirma que acompanhará o caso “e continuará a colaborar plenamente com as autoridades judiciárias para o completo esclarecimento dos factos e a responsabilização de quem tiver de ser responsabilizado”, conclui. Após assumir o MAI, Luís Neves afirmou que não seriam tolerados “comportamentos desviantes” de agentes de autoridade.

Trabalho de prevenção

A operação do MP ocorreu um dia após o diretor nacional da PSP, Luís Carrilho, ir ao Parlamento falar sobre a atuação da PSP e os direitos humanos. Na ocasião, o chefe desta força de segurança afirmou que foram excluídos 85 candidatos a agentes, na sequência do reforço de provas psicológicas de despiste de atitudes radicais e agressivas.

Além disso, este ano, haverá um reforço em matérias de “prevenção da discriminação, extremismo e radicalismo, uso de redes sociais e telemóveis pessoais, passando estas a ser matérias obrigatórias”. Atualmente, está a decorrer um novo curso de formação de agentes. Carrilho foi chamado ao Parlamento por requerimento do Partido Socialista (PS) após o caso de tortura.

A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) recebeu 1722 queixas contra a atuação das forças de segurança em 2025. Foram mais 211 do quem em 2024, quando foram denunciadas 1511, tendo em 2023 chegado a esta inspeção 1436.

amanda.lima@dn.pt

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