Morreu Isabelle, primeira a receber um transplante parcial da face

Isabelle Dinoire enfrentou vários problemas de saúde após a operação inédita, em 2005, e morreu com 49 anos

A primeira mulher no mundo a receber um transplante parcial da cara morreu em abril deste ano, aos 49 anos, mas a notícia apenas foi divulgada esta terça-feira pelo jornal francês Le Figaro e já foi confirmada, segundo a AFP, pelo hospital. A francesa Isabelle Dinoire ficou conhecida publicamente quando recebeu parte da face de um dador, em 2005, depois de o seu cão, um Labrador Retriever, a ter atacado e lhe ter arrancado parte da cara. As causas do óbito ainda não foram reveladas.

A 27 de novembro de 2005, Isabelle Dinoire, na altura com 38 anos, foi submetida a mais de 15 horas de cirurgia para receber um novo nariz, lábios e queixo. A operação foi a primeira do género e considerada um ponto de viragem no mundo da medicina. Apenas cinco anos depois, em 2010, um espanhol, Óscar, viria a receber um transplante total da face.

Após a cirurgia e o processo de recuperação, a francesa continuou a passar por momentos difíceis: o corpo rejeitou várias vezes os enxertos que recebeu. No ano passado, segundo o Figaro, Isabelle deixou de conseguir usar os lábios; nos últimos tempos, os tratamentos a que se submetia para evitar que o organismo rejeitasse totalmente o transplante fizeram com que lhe fossem diagnosticados dois cancros.

O caso de Isabelle foi notícia em todo o mundo e acompanhado de perto por milhares de pessoas, curiosas para saber como ficaria a primeira mulher a ter parte da face de outra pessoa. Muitos questionavam se deveria ter recebido o transplante, devido às circunstâncias em que foi atacada: Isabelle foi desfigurada pelo cão enquanto dormia, tendo contado que tomou "um grande número de medicamentos para dormir" e que acordou "numa poça de sangue". Houve quem defendesse que tinha tentado suicidar-se e era, portanto, uma candidata pouco viável à operação.

Na altura, os médicos consideraram os ferimentos tão graves que a única solução era o transplante: a reconstrução facial não iria ser suficiente.

A primeira aparição em público de Isabelle, que evitava constantemente falar à comunicação social ou posar em fotografias, foi em fevereiro de 2006. O evento foi muito aguardada pela comunidade científica, que queria observá-la um ano depois da operação.

A francesa mostrou-se agradecida aos médicos que a tinham operado e, com alguma dificuldade, falou: "Desde o dia da operação que eu tenho um rosto como toda a gente. Posso abrir a boca e comer. Recentemente, sinto os lábios, o nariz e a boca".

Em 2012, numa entrevista à BBC, Isabelle revelou que ocasionalmente tinha crises de depressão, mas que nesses momentos pensava na mulher que lhe doou parte da cara."Quando me sinto mal, ou deprimida, olho para mim mesma ao espelho e penso nela", disse à BBC. "E digo a mim mesma que não estou autorizada a desistir. Ela [a dadora] dá-me esperança"

Isabelle afirmou que continuava a ser a mesma, apenas com um rosto diferente. "Quando olho ao espelho vejo uma mistura de duas pessoas", contou, "a dadora está sempre comigo".

Desde 2005, já foram realizadas mais de 30 operações de transplante de rosto em todo o mundo.

[Correção: Isabelle Dinoire tinha 38 anos em 2005 e não 35 como inicialmente referimos]

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