Tuneladora utilizada no Plano de Drenagem.
Tuneladora utilizada no Plano de Drenagem.Foto: Leonardo Negrão/Global Imagens

Moedas quer alteração da lei que parou obras do plano de drenagem. Arqueólogos acusam autarca de querer destruir património

Presidente da câmara de Lisboa diz que obras num dos túneis do Plano Geral de Drenagem de Lisboa estão paradas desde maio por terem sido encontrados vestígios arqueológicos e a lei não impor prazos.
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O Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia (Starq) acusa o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, de culpar os arqueólogos pela paragem das obras no Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL) e de "incitar" à violação das leis que protegem o património. Dizem ainda que "é premente que os cidadãos tenham conhecimento das reais razões dos atrasos na empreitada".

A reação do Starq surge depois de o autarca, em entrevista esta semana ao canal televisivo Now ter revelado que os trabalhos num dos túneis deste projeto estão parados desde maio por terem sido encontrados vestígios arqueológicos e não haver prazo para a conclusão do trabalho dos arqueólogos.

"E agora tem de ser escavado até 20 metros à mão, para se ver esses vestígios, e cada dia que a obra está parada são 15 mil euros, que é o que o contribuinte de Lisboa, os lisboetas, pagam. Já estamos parados desde maio, portanto, já estamos com custos de mais de dois milhões de euros", disse Moedas. Em três meses escavaram-se 60 centímetros, acrescentou o autarca, exigindo que haja um "timing" para a conclusão do processo.

Carlos Moedas alegou que "a lei não obriga a um prazo", e disse que a lei tem de ser alterada. "Não podemos continuar a fazer leis sem olhar aos nossos recursos. É como se fossemos um país riquíssimo, como se estivéssemos num país como a Suíça. Nós não somos a Suíça, temos recursos muito, muito finitos, não podemos gastá-los desta maneira. Não é nada contra a Arqueologia, a obra neste momento está parada, eu espero que avance, mas tem de avançar mais depressa", sublinhou o autarca.

O Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia diz que Moedas não tem razão quando diz que “a lei não tem prazo”. Segundo o comunicado do Starq, "o Regulamento dos Trabalhos Arqueológicos (Decreto-Lei n.º 164/2014) estabelece procedimentos, responsabilidades e prazos administrativos. O plano de trabalhos arqueológicos, incluindo a sua duração, carecem de aprovação das entidades tutelares competentes. A duração de uma intervenção arqueológica não é decidida pelos arqueólogos".

Além disso, salientam que já "havia conhecimento prévio de que a obra incidia numa zona de sensibilidade arqueológica". "Não estamos, pois, perante uma obra que avançou sem qualquer conhecimento do potencial arqueológico do local e onde, inesperadamente, apareceram arqueólogos para a parar'. Eram conhecidas as condicionantes arqueológicas determinadas para o projeto", sublinham.

Consideram que a necessidade de trabalhos arqueológicos "deveria estar incorporada no planeamento, na calendarização e no orçamento da empreitada".

O Starq especifica que "foi identificado um sítio com elevada importância científica e patrimonial no decurso dos trabalhos realizados no troço do PGDL conhecido como Poço de Saída da TBM (tuneladora) (Solução de Contingência) na frente de obra TC1 Chelas. O arqueossítio foi identificado em junho de 2026, tendo tal sido de imediato comunicado a todas as entidades competentes", lê-se no comunicado.

Na sequência desta descoberta, "iniciaram-se de imediato os trabalhos de diagnóstico arqueológico, foi sendo submetida documentação técnica à CCDR-LVT e ao Património Cultural, I.P. e por estes definidas as respetivas medidas de minimização", medidas essas que estão a ser aplicadas asseguram.

O Starq diz que esta intervenção arqueológica decorre "há cerca de três meses", sublinhando que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa disse na entrevista que a obra está parada desde maio, "antes dos vestígios terem sido sequer identificados". Por isso, sustentam, "é premente que os cidadãos tenham conhecimento das reais razões dos atrasos na empreitada".

O Sindicato dos Arqueólogos considera que "eventuais derrapagens nos prazos e nos custos de execução da obra não devem, pois, ser imputadas à arqueologia. Deve a Câmara Municipal de Lisboa assumir as suas responsabilidades e esclarecer cabalmente as causas do incumprimento do projeto. É desonesto responsabilizar os arqueólogos pelos atrasos e pelo aumento dos custos desta obra. Na gestão de uma obra pública desta natureza exige-se planeamento, responsabilidade e transparência".

Os Starq considera que Carlos Moedas, na entrevista ao Now, "incita à violação da Lei, ou seja, à destruição do Património". "Carlos Moedas proclama que a Lei tem de ser mudada, para que o Património possa ser destruído e para que não existam contingências que atrasem o decurso das obras. Defende, portanto, a revogação da Lei de Bases do Património Cultural e também que Portugal deixe de retificar as Convenções Internacionais, designadamente a Convenção de Malta", aponta o sindicato.

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