Mochilas da escola serão kits de refugiados

No dia 6 de abril, estudantes de todo o país serão desafiados a vestir a pele de migrantes, escolhendo objetos essenciais

As mochilas que carregam às costas ao longo de milhares de quilómetros, por terra e pelo mar, são muitas vezes idênticas às que os estudantes usam para levar os livros e o material para a escola. Mas o que transportam lá dentro é muito diferente: pequenos objetos, como documentos, dinheiro, uma muda de roupa e medicamentos. O essencial para sobreviver. Por vezes, também, uma recordação do que deixaram para trás.

No próximo dia 6 de abril, estudantes de todo o país serão chamados a trocar simbolicamente de papel com estes migrantes - muitos deles das suas idades - que procuram um porto seguro na Europa. O nome da iniciativa - "E se fosse eu? Fazer a mochila e partir" - diz quase tudo.

"O objetivo é fazê-los refletir, de uma forma profunda, pondo-se na pele de um refugiado", conta ao DN o diretor-geral da Educação, José Vítor Pedroso. "Muitas vezes, nas nossas vidas, custa-nos pormo-nos na pele do outro. Esperamos que a iniciativa chegue às casas, levada pelos alunos, que tenha um impacto para além das escolas."

A ideia conta já com a adesão de "centenas de escolas", esperando-se que "muitas mais possam fazê-lo a partir de segunda-feira", com o regresso às aulas.

A Direção-Geral de Educação tem enviado para os agrupamentos um "guião com sugestões de abordagem de iniciativa em sala de aula, para os vários níveis de ensino, do pré-escolar ao secundário". Mas não há regras rígidas. Mesmo a mochila "pode ser mais simbólica do que física, até porque os alunos continuam a ter de levar o seu material para a escola. Podem, por exemplo, escolher os objetos que levariam e fotografá-los para os mostrar na escola", sugere.

"Um exercício de empatia"

"A ideia é, através de um exercício de empatia, sermos capazes de nos pôr no lugar do outro e perceber o que é para uma pessoa, seja homem, mulher, criança, ter de abandonar tudo e partir", diz Rui Marques, da Plataforma de Apoio aos Refugiados, outra promotora desta iniciativa. "Ser refugiado é ter de deixar tudo para trás, é ter a vida resumida ao que se pode levar numa mochila. De uma forma simbólica, esta pergunta - "e se fosse eu?" - ajuda a perceber melhor o que é ser refugiado e, se calhar, o que cada um de nós valoriza mais na vida, ao escolher o que põe numa mochila".

Fernando Nobre, presidente da Assistência Médica Internacional, já passou "há muitos anos por uma experiência na Bélgica, num cenário montado", em que tinha de repetir "o percurso de alguém que tem de passar fronteiras, suportar o enxovalho de humilhações, interrogatórios". Recorda "uma experiência muito dura". Esta iniciativa não será tão intensa. "Mas se for no sentido de sensibilizar os jovens para as dificuldades de quem tenta chegar até nós, será positiva."

João Garcia, alpinista, recusa comparar as suas aventuras voluntárias com a experiência dos refugiados - "eu sei que tenho uma casa para onde voltar", explica. Mas aplaude todas as iniciativas que ponham os jovens a pensar nos problemas do mundo. "A camada mais nova é o futuro do país. E têm de pensar nestes temas."

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