A higiene das mãos é uma “ação que salva vidas” no cuidado ao doente. Aliás, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esta ação tem “impacto não só na segurança dos doentes, mas também na dos profissionais e até na eficiência dos recursos, mesmo em contextos adversos”. Por isso, recomenda aos países para que nos seus sistemas de saúde sejam “asseguradas todas as condições para a implementação de um plano de prevenção consistente”. Mas não só. Neste Dia Mundial da Higiene das Mãos, que se assinala a 5 de maio, a OMS apela ainda “a todos os que prestam e apoiam cuidados de saúde que reforcem o seu compromisso com a higiene das mãos”.Em Portugal, a Direção Geral da Saúde (DGS) junta-se a este apelo com o lema “Salve Vidas, Higienize as mãos”, já que, e como afirmou ao DN a diretora do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA), Ana Lebre, “todos os anos morrem cerca de mil pessoas devido a infeções bacterianas resistentes a antibióticos”, lembrando mesmo que, se nada for feito, o pior dos cenários da OMS aponta para que, em 2050, a mortalidade devido a esta causa atinja a do cancro, dez milhões de pessoas no mundo e cinco milhões na Europa. Ana Lebre explica: “Esta projeção assenta em modelos matemáticos predictivos internacionais e já em 2014 alertava para o impacto que pode ter a resistência aos antimicrobianos. Os modelos podem variar, mas têm vindo a apontar para uma tendência de agravamento. Portanto, esta projeção é mais que um número, é um problema que tenderá a agravar-se se nada for feito”.O relatório que a DGS publica para assinalar o Dia Mundial da Higiene das Mãos indica que o cumprimento das regras durante os cuidados aos doentes tem vindo a aumentar por parte dos profissionais desde 2015. A pandemia também ajudou. E os dados de 2025, indicam que a maioria dos profissionais já cumpre as regras, tendo sido observadas 530.512 oportunidades de higiene das mãos, das quais 436.321 foram efetivamente realizadas, correspondendo a uma taxa de cumprimento global de 82,2%, um aumento face aos três anos anteriores. Para Ana Lebre, estes dados, que traduzem a informação recolhida pelas unidades locais de saúde que integram o PPCIRA, refletem “uma adesão robusta, apesar de não ser ainda a que gostaríamos de ter alcançado. O nosso objetivo é a plenitude. Mas, a verdade, é que estamos perante um resultado que está ao nível do melhor que se faz noutros sistemas de saúde”. Acrescentando: “O número observado, mais de 530 mil oportunidades de higiene das mãos registadas em instituições de norte a sul do país, do setor público ao privado e social, reflete uma tendência de melhoria consistente.”De acordo com o documento, a taxa de cumprimento mais baixa, em relação aos cinco momentos importantes de higienização das mãos (antes do contacto com o doente, antes de procedimentos limpos ou asséticos, após risco de exposição a fluídos biológicos, após contacto com o doente e após contacto com o ambiente do doente) respeita ao primeiro momento, cujo cumprimento das regras continua nos 75,8%. No entanto, é destacado que os valores registados em 2025 “aproximam-se da taxa de cumprimento observada em 2020, ano marcado pela pandemia da covid-19”. Ana Lebre destaca que “a taxa global de cumprimento (82,2%) reflete o esforço consistente das equipas, traduzindo-se num aumento sustentado da percentagem, que tem vindo a crescer desde 2015, quando se registava cerca de 73%”. Contudo, “ainda se verifica a necessidade de continuar a investir em estratégias que permitam alcançar níveis de excelência, alinhados com os referenciais internacionais”, defende. A médica salienta o alerta da OMS sobre: “As Infeções Associadas aos Cuidados de Saúde ainda são uma ameaça e contribuem para o aumento da resistência aos antimicrobianos (RAM), causando sofrimento significativo a doentes, familiares e profissionais de saúde, podendo provocar morte prematura e incapacidade”. Esta situação tem também “custos acrescidos para os sistemas de saúde, comprometendo os esforços que garantem cuidados de elevada qualidade”. Neste relatório, a DGS reforça que “a proporção significativa das infeções adquiridas durante a prestação de cuidados de saúde pode ser prevenida, se a higiene das mãos e outras medidas de prevenção e controlo de infeções (PCI), forem realizadas nos momentos adequados e com a técnica recomendada”, relembrando mesmo que “o uso de luvas não substitui a higiene das mãos; que o uso desnecessário de luvas reduz o cumprimento da higiene das mãos e que o uso excessivo de luvas apresenta um elevado impacto ambiental”.A diretora do PPCIRA argumenta que “a lavagem das mãos é um gesto simples que pode ser praticado por todos, tanto profissionais como doentes, e todos podem contribuir desta forma para a prevenção deste tipo de infeção”, sustentando: “Realizar este gesto nos momentos adequados, de forma a ter o maior impacto, protege os nossos doentes, quem cuida deles, ajuda a manter o sistema de saúde sustentável e seguro, que é o que queremos, e que o dinheiro poupado com este simples gesto seja utilizado noutras áreas da saúde”. Para a DGS, este dia mundial deve servir para relembrar que “as IACS são uma potencial ameaça diária para os doentes em todos os sistemas de saúde, incluindo contextos de emergência em saúde pública”. Por isso mesmo, o desafio traçado para 2026 é “reforçar a mobilização de profissionais e instituições a garantir que a higiene das mãos é um padrão incontornável de qualidade e segurança para os doentes.” Mas para tal não basta só a aposta na “formação ou conhecimento dos profissionais. É preciso que as lideranças das instituições tornem a segurança do doente uma prioridade, ajudando a criar ambientes que facilitem o comportamento correto por parte dos profissionais”..Menos consumo de antibióticos e de resistência das bactérias, mais infeções hospitalares em 2020 .DGS apela a hospitais para reforçarem medidas de controlo de infeções