A Mesquita Hazrat Hamza, no Porto, terá até 31 de outubro para sair do espaço em que está instalada após a Livraria Lello ter comprado o edifício, na Travessa da Rua do Loureiro, ao anterior senhorio.A Lello Vitória – Livros e Turismo, Lda., sediada na livraria, adquiriu o imóvel, no 19A da Travessa da Rua do Loureiro, junto à estação de São Bento, num ato registado em 10 de fevereiro de 2025, que a Lusa consultou, tendo notificado a Associação Comunidade do Bangladesh do Porto de que o contrato de arrendamento não seria renovado após 31 de outubro.Segundo explicou à Lusa Alam Kazol, da associação, a Lello tinha adquirido o imóvel por causa de uma garantia dada pelo anterior presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, de que lhes cederia o direito de superfície de um imóvel, na Rua da Porta do Sol, em que a associação faria obras a expensas próprias, estimadas pelos próprios em 600 mil euros.As propostas para cedência dos direitos de superfície iam ser votadas no início de junho de 2025 pelo então executivo do independente Rui Moreira, mas acabaram por ser retiradas por o mandato autárquico estar a chegar ao fim e por não ser “recomendável” a promoção de “iniciativas que não são consensuais”, de forma a não contribuir para o exacerbamento de tensões na cidade, justificou à data o ex-autarca à Lusa.Já este mês, o atual presidente, Pedro Duarte (PSD/CDS/IL), anunciou a intenção de alienar, em hasta pública, os dois imóveis devolutos que o anterior executivo ia ceder a comunidades religiosas, esta e o Centro Cultural Islâmico do Porto, uma vez que “a construção de mesquitas na cidade do Porto não é uma prioridade” e as associações têm “igual possibilidade” de os adquirir, declarações para as quais a autarquia remeteu hoje quando questionada pela Lusa sobre a possível saída da mesquita.O contrato vigente termina a 31 de outubro, e por ali passam centenas de pessoas diariamente para rezar, e às sextas-feiras, o dia mais sagrado da semana para os muçulmanos, rondam as 1500.Contactada pela Lusa, a Lello declarou, numa resposta por escrito, que “não irá pronunciar-se sobre outras matérias” que não “a realização do grande evento cultural Babell, Cidade-Livro”, em junho, “e no projeto de expansão física da livraria”, assinado por Siza Vieira.A Lusa tinha questionado a livraria sobre a compra do imóvel e sobre a possibilidade de prolongar o contrato com a associação para lá de 31 de outubro, bem como o projeto que tem pensado para aquela morada, mas optou por não comentar dada a “fase particularmente exigente e determinante para a instituição”.O grupo Lionesa, que detém a Lello, adquiriu na última década vários imóveis naquele quarteirão, na Rua do Loureiro, onde tem a intenção, segundo foi anunciado em 2024, de instalar um “circuito criativo”.Segundo o fundador e presidente da Comunidade do Bangladesh na cidade, a mudança de direção da autarquia ‘apanhou’ a associação desprevenida, tendo percebido pela comunicação social do anúncio da hasta pública do imóvel para onde tencionavam mudar.“Negociámos com o anterior proprietário para adquirir” o imóvel na Travessa da Rua do Loureiro, “mas, no meio disto, Rui Moreira disse que a Câmara ia comprar e alugar-nos [o espaço na Rua Porta do Sol], mas tínhamos de assumir as obras nesse devoluto. Nós aceitámos. E agora? Nem comprámos, e a câmara quer vender em hasta pública. Mandámos uma carta a explicar que compraríamos pelo preço a que a autarquia comprou, mas não quiseram ir por aí”, explica Alam Kazol.Em resposta à Lusa, a Câmara do Porto explica que a constituição do direito de superfície do imóvel na Rua da Porta do Sol foi tramitada “no final do mandato anterior”, sendo que “as propostas não foram deliberadas pelos órgãos competentes”, e no presente “a referida Comunidade manifestou disponibilidade para a aquisição, que nunca veio a formalizar pelos canais oficiais”.Tinham proposto adquirir o imóvel ao preço a que o município o comprou, fazendo obras a custas próprias para uma cedência “por 30 ou 40 anos”, mas não receberam resposta.A mesquita existe desde 2003 e ali, diz, passam “muitos turistas muçulmanos”, além da comunidade local, e “nunca houve nenhum problema”, temendo agora que as pessoas acabem por não ter um sítio fixo para rezar, tendo de o fazer “em pequenos estabelecimentos ou nos carros”.Quando foram apresentadas, as propostas do anterior executivo contextualizavam que "na cidade do Porto existe uma grande comunidade muçulmana (cerca de 7.000 pessoas)" que "pratica o culto regularmente na mesquita da Rua do Heroísmo e da Travessa [da Rua] do Loureiro”, onde também são capacitados para facilitar a sua integração e viver em comunidade.Em ambos os casos estavam previstas cedências do direito de superfície por 40 anos, mediante o pagamento de rendas simbólicas de 50 euros.“A alienação dos imóveis por hasta pública está a ser preparada pelos serviços municipais, para data a anunciar em breve. Considerando o intervalo temporal entre a aquisição dos imóveis e as hastas públicas, o Município do Porto solicitou a reavaliação dos mesmos à data corrente”, explicou ainda o município à Lusa.