Quando tinha 8 meses e meio, Sophie foi diagnosticada com um raro tumor no cérebro. Os médicos avisaram os pais de que ficaria quase ou totalmente cega e teria de enfrentar tratamentos de quimioterapia para evitar que o tumor crescesse, mas que a sua redução seria muito difícil. Os pais da menina autorizaram a quimioterapia, mas ao mesmo tempo iniciaram um tratamento experimental. Através do Facebook, descobriram os autores do documentário Weed the People e decidiram avançar: iam dar canábis à pequena Sophie.."Inicialmente, pensei que estavam todos loucos. Como é que ia dar marijuana à minha bebé?", confessou a mãe, Tracy Ryan, que é hoje CEO da CannaKids. A história foi partilhada no Congresso Mundial e Exposição de Negócios da Canábis (CWCBE), que terminou ontem em Los Angeles. Em dois meses a consumir uma combinação de 300 miligramas de THC (tetrahidrocanabinol ) e 100 miligramas de CBD (canabidiol), Sophie obteve uma redução do tumor que deixou os médicos boquiabertos. Um ano depois, já não precisava de transfusões de sangue por causa da quimioterapia; e dois anos depois o tumor continua a encolher a passos largos.."Isto não é um milagre, não foi pela graça de Deus", declarou Tracy. "Isto é o que a canábis pode fazer para ajudar uma criança." A planta tem propriedades analgésicas e anti-inflamatórias que começaram a ser estudadas de forma científica há relativamente pouco tempo. Tracy criou a organização CannaKids, que já tratou 650 crianças e está agora a conduzir testes clínicos em parceria com a Technion em Israel. O país do Médio Oriente é o líder mundial na área de investigação sobre a aplicação medicinal de canábis, algo que é difícil de fazer noutros países. Nos EUA, vários estados legalizaram total ou parcialmente o consumo da planta, mas esta continua a ser considerada uma droga ao nível federal e por isso há pouca investigação publicada sobre o seu uso clínico..É uma situação confusa, que deu origem a várias empresas nos últimos anos dedicadas exclusivamente à recolha e análise de dados num mercado em que a legalidade tem avançado aos poucos..A New Frontier é uma destas empresas. Criada há dois anos em Washington D.C., especializa-se em big data para canábis. Recolhe dados de fontes governamentais, IRS, operadores do mercado e entidades ligadas ao cultivo e distribuição da planta, aplica análises e publica relatórios e previsões. "Somos agnósticos. Não estamos contra nem a favor do movimento", explicita Gretchen Gailey, diretora de comunicação e relações governamentais. "O nosso único objetivo é educar e dar às pessoas um entendimento claro sobre o que se está a passar na indústria, para que possam tomar decisões responsáveis; em particular legisladores e reguladores, mas também operadores, empresas e investidores.".Em agosto, a New Frontier publicou um relatório para a Califórnia, que se pode tornar o maior mercado de canábis do mundo se a legalização do uso recreativo for aprovada nas eleições de 8 de novembro. Estamos a falar de algo como 6,5 mil milhões de dólares por ano, o que obviamente se traduzirá em receitas gordas de impostos para o governo estatal. As sondagens dizem que 60% dos eleitores são favoráveis à aprovação. "As pessoas já viram os benefícios da marijuana", avança Gretchen. "Os estudos mostram que esta foi a maior alteração de opinião numa questão social dos últimos anos, depois do casamento gay.".Esquerda segue o exemplo."As políticas proibicionistas têm-se revelado nefastas, em particular para os consumidores", afirma ao DN Moisés Ferreira, o deputado do Bloco de Esquerda que tem liderado os esforços do partido para a legalização do cultivo e consumo pessoal de canábis. Embora Portugal tenha descriminalizado o consumo de drogas em 2001, algo que ainda hoje é citado como caso de estudo mundial, a evolução parou por aí.."Legalizar, em vez da mera descriminalização, é um passo necessário", declara o deputado do BE. "Isso garantirá mais segurança para quem consome, um maior controlo sobre os produtos consumidos (combatendo-se produtos manipulados ou adulterados, como é o caso de muitos neocanabinoides) e um combate muito eficaz a redes de tráfico", resume..Miguel Pereira, técnico de informática em Sintra, concorda. "Se fosse legalizada, acabava-se com o tráfico e os problemas que daí advêm", diz ao DN. Miguel fumava canábis com os amigos quando era mais novo e gostaria de voltar a fazê-lo sem receios. "O conhecimento das autoridades sobre a planta não é o melhor", admite, referindo que muita gente receia que uma legalização de marijuana abra a porta a drogas mais pesadas..Mas o deputado Moisés Ferreira nota que a experiência nacional e internacional mostra que tanto a descriminalização como a legalização não significam mais consumo ou mais consumidores. "Significa, isso sim, que as pessoas que consomem o podem fazer em melhores condições, com maior segurança e sem estarem reféns do tráfico." No entanto, as propostas de alteração da legislação que o BE levou ao Parlamento foram chumbadas.