Mentiras e recusa de testagem agravam cadeias de transmissão em todo o país

Os médicos de saúde pública já são poucos para rastrear e identificar as cadeias de transmissão provocadas pela infeção do SARS-CoV-2 e cada vez mais veem a sua tarefa dificultada. Agora, dizem, pelo comportamento dos cidadãos, quer pelas "mentiras" , pelas "recusas a dar contactos" ou pelas "recusas de testagem". Há mesmo quem faça autoteste, dê positivo e não informe as autoridades, contam. Resultado: as cadeias de transmissão são maiores e os casos vão continuando a aumentar.

Num sábado recente, Luís Cadinha, médico de saúde pública na região algarvia, estava a isolar uma família que testou positivo à covid-19 e fez as perguntas normais: com quem esteve, onde, quem conhece que esteve ou está infetado, etc. A todas obteve respostas, mas, algumas, de verdade nada tinham. A começar pelo facto de a família ter dito que não tinha estado em convívio com ninguém, que o filho, menor, também não, e horas depois o médico percebeu que, afinal, não era assim. Inicialmente, o caso parecia simples, não havia muitos contactos a fazer, não fosse a meio da tarde ter aparecido no centro de saúde o pai de um colega do filho menor daquela família a dizer que o filho tinha estado a jogar futebol com ele e o que deveria fazer a partir daqui. Afinal, havia muitos mais contactos a fazer. Este pai explicou ao médico que decidiu contactar as autoridades porque "a senhora disse que não tinha dado os contactos de ninguém para não nos estragar as férias".

Luís Cadinha, que acompanha a pandemia desde o início, diz ao DN que este é um dos muitos exemplos com os quais ele e os colegas têm de lidar diariamente e que "ao fim de ano meio, a situação está cada vez mais difícil, as pessoas mentem, recusam dar contactos e até fazer testes, e se avançamos com isolamento profilático é certo e sabido que podemos apanhar com um pedido de habeas corpus e lá vamos para o tribunal", argumenta.

"No início da pandemia encontrávamos estas situações de mentiras, de omissões ou de recusas só nos grupos mais vulneráveis, imigrantes que não estavam legais e que não nos diziam tudo pelo receio do que lhes poderia acontecer, mas agora a prática é generalizada, em famílias, na restauração, nas atividades ligadas às praias, etc.", explica.

896 026. Este é o número de infetados pelo SARS CoV-2 em Portugal. Só ontem, foram registados 3285 casos, com a região de Lisboa e Vale do Tejo a registar 1717 casos, o norte 821 e o Algarve, região bem mais pequena, com 321. Seguiu-se o Centro com 290 casos e o Alentejo com 57. A Madeira com 24 e os Açores com 37.

Uma situação que tanto ele como outros colegas dizem ser o que também está a contribuir para o aumento das cadeias de transmissão, porque com tudo isto não é possível identificar onde começam e onde acabam atempadamente, havendo pessoas que estão infetadas e que infetam terceiros. Aliás, sublinha Luís Cadinha, "já apanhámos casos de pessoas que estiveram infetadas e que passaram o processo todo sem avisar as autoridades e só foram detetadas por nós quando uma das pessoas que pode ter infetado acabou por precisar de cuidados médicos".

Os exemplos repetem-se quer seja no setor da restauração, nas atividades ligadas às praias em grupos de desporto ou de amigos. E como em tudo, diz o médico, "há os que são honestos e os que não são e dificultam cada vez mais o nosso trabalho". E enquanto aqueles que mentem ou vão dizendo "a verdade aos bocados" acham que estão a salvaguardar os outros, a verdade é que estão a colocar todos em risco, porque agora a doença não é tão grave, "está a afetar mais jovens, mas há sempre quem vá parar ao hospital".

Dos nadadores-salvadores à restauração

Nos últimos tempos, desde que abriu a época balnear, Luís Cadinha conta que "foram detetados vários casos positivos em nadadores-salvadores e estes nunca trabalham sozinhos, mas uns diziam que sim outros recusavam dar contactos e mandavam-nos falar com os concessionários das praias e alguns fizeram o mesmo e na tentativa de travar qualquer medida mais restritiva que atingisse a concessão".

A solução foi recorrer à capitania do porto para que interviesse junto dos concessionários e fosse possível fazer o levantamento do número de pessoas que ali trabalhavam e obter todos os contactos. O mesmo tem acontecido na restauração. "Há os empresários que são conscientes e que olham logo mais para a frente, colaborando com as autoridades assim que há um caso positivo, dando os contactos e fazendo testes, para que a situação não avance mais, mas há outros que não o fazem e que tentam sempre empurrar a situação para não ficarem com o estabelecimento fechado, o que acaba por ser pior", refere.

O médico acredita que este tipo de comportamento pode ter muito que ver com a crise económica e com o facto de já termos passado por dois confinamentos gerais, mas, salienta, "ao atuarem assim só fazem que as cadeias de transmissão aumentem ainda mais". E exemplifica: "Temos o caso de uma pizaria em que o empregado que testou positivo não deu contactos, o dono também dizia que não havia muitos empregados e só ao quinto infetado é que aceitou dar todos os contactos para serem testados. Ora, quando conseguimos apanhar esta cadeia de transmissão já havia muito mais gente envolvida."

"Os autotestes são importantes para o rastreio, mas, mais uma vez, há pessoas para tudo. Algumas dão positivo e como não têm grandes sintomas não notificam as autoridades."

Segundo explica, antes, uma cadeia de transmissão poderia dar quatro a cinco casos, agora há algumas que dão dez ou mais. E alerta para outra situação: "Os autotestes são importantes para o rastreio, mas, mais uma vez, há pessoas para tudo. Algumas dão positivo e como não têm grandes sintomas não notificam as autoridades. Recentemente detetámos um caso positivo, que precisou de cuidados e que nos disse ter feito o teste quando se sentiu mal porque um colega tinha feito um autoteste e tinha dado positivo. Quando chegámos a esse caso, já tinha mais de dez dias de doença e esteve sempre a trabalhar."

Do Algarve ao norte, passando por Lisboa

Esta realidade não é exclusiva do Algarve, embora tudo isto esteja a contribuir para que esta seja uma das regiões do país, a par de Lisboa e Vale do Tejo, com maior pressão no aumento de casos de covid-19 - Albufeira, por exemplo, que está com uma média de 480 casos por 100 mil habitantes, foi dos concelhos que regrediram no desconfinamento. Noutros pontos do país, outros colegas de Luís Cadinha confirmam situações idênticas.

Uma médica da região norte, que preferiu o anonimato, diz mesmo já não saber o que é possível fazer, sempre acreditou que a aposta deveria ser "na educação da população, e continuo a achar, mas não é fácil", admite.

Além de serem poucos para todo o trabalho, têm de lidar com "constantes obstáculos que surgem do comportamento das pessoas", sublinhando, contudo, que "se estamos a rastrear casos de zonas pequenas, onde todos se conhecem, é mais fácil saber se estão a dizer a verdade ou se estão a violar o isolamento, mas se são casos em centros urbanos tudo é mais difícil. E, muitas vezes, só percebemos que a cadeia de transmissão tem outras pessoas por acaso".

"Há quem minta por querer ir de férias. E dão-nos contactos de quem nunca responde, e quando atendem nunca ninguém esteve com ninguém. É muito difícil".

A médica afirma também que, ao fim de ano e meio de pandemia, ainda ouve todo o tipo de respostas. No início, as pessoas poderiam não dizer tudo por receio, por não se saber com o que se estava a lidar, retraíam-se por não saberem o que lhes ia acontecer, agora não. A crise económica conta, há muita gente que tem medo de perder o emprego, mas "há outros que mentem por quererem ir de férias. E dão-nos contactos de quem nunca responde, e quando atendem nunca ninguém esteve com ninguém. É muito difícil".

A única explicação que estes médicos encontram é a de que "as pessoas perderam o medo da pandemia, umas desvalorizam os sintomas porque acham que agora só acontece aos mais novos", sublinha.

As respostas e os argumentos sucedem-se numa espiral para fugir ao isolamento e à testagem e os médicos vão ouvindo, quer seja no norte, no centro em Lisboa e Vale do Tejo, o mesmo: "Não estive com contactos" ou até quem ainda assume a referência com indignação: "Há pouco tempo tive de ligar a uma senhora e disse-lhe que o estava a fazer porque fulana tal deu positivo e disse que tinha estado com ela no café, e do outro lado ouvi: "Ai disse? Não acredito que ela me fez uma coisa dessas." Há de tudo", comenta.

Um dos médicos argumenta mesmo não saber o porquê deste comportamento: "Ou é a mensagem que não é bem passada às pessoas, é certo que há muita informação contraditória, ou são os exemplos que não estão a resultar. Agora, até a vacinação passou a ser justificação: ouvimos muito "já tenho uma dose da vacina e os meus velhinhos já estão vacinados". E isto é um erro, porque sabemos que há pessoas vacinadas com uma e até com duas doses que acabam por ir parar ao hospital."

O resultado é: "Mais casos. É inevitável"

À pergunta onde é que isto vai parar?, os médicos não têm dúvidas: "Em muitos mais casos. É inevitável, porque está a ser cada vez mais difícil identificar as cadeias de transmissão. As pessoas reagem muito mais e temos tido algumas questões de má-educação", afirma a médica do norte.

"Trabalho com uma equipa que está esgotada. Estamos a ter outra vez um aumento de casos, o que implica mais telefonemas por dia e estamos a deparar com pessoas que não querem aceitar a o isolamento, não querem fazer testes, o que implica contactar autoridades de segurança e deslocações aos locais. Começamos a ficar a cansados disto tudo."

Como dizem, a pandemia não se combate só com as autoridades de saúde e regras proteção, "depende muito do comportamento e da boa vontade de cada um e ao fim deste tempo "ainda há quem não o tenha percebido", afirma outro médico, destacando que na sua zona "há uma situação muito comum. São situações de café, de esplanadas e até de convívios em jardins. Há um caso infetado e a pessoa diz que esteve com um amigo com quem costuma jogar às cartas. E nós perguntamos: "Como se chama?", a pessoa responde: "João." "E o apelido?" "Não sei." "Sabe onde mora?". "Também não." "Tem algum contacto?" Às vezes têm, depois ligamos e a pessoa não atende ou o telefone está desligado. Numa situação destas não há forma de conseguir identificar quem é aquela pessoa. Logo aqui é um contacto de risco que se perde".

3 720 680.Este é o número de pessoas com vacinação completa, 36% da população. Com uma dose há 5 740 878, 56% da população. Lisboa e Vale do Tejo e Algarve são as regiões mais atrasadas na na vacinação.

Os números da doença indicam que daqui a dias Portugal poderá estar a registar quatro mil casos diários. A ministra da Saúde já o admitiu, mas os médicos no terreno dizem que não ficarão chocados se até forem mais. "O R(t) não vai baixar tão depressa. As pessoas não estão a cumprir as medidas de segurança", dizem. Por isso, defendem que, se calhar, "o mais eficaz era a fiscalização para quem não cumpre. Ninguém tem medo de andar na rua sem máscara e isso continua a ser um risco".

Neste momento, Portugal soma 896 026 casos de infeção e 17 126 mortos e mais de 40 mil casos ativos. Os números não apontam para a redução do R(t) ou da incidência. As autoridades de saúde são cada vez mais desautorizadas ou têm de lidar com mais obstáculos. A única solução parece ser a vacinação rápida de toda a população. O Conselho de Ministros reúne-se hoje e poderá determinar restrições a mais concelhos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG