Menos alunos, professores mais velhos e salários de entrada na carreira em queda
O sistema educativo português enfrenta uma aparente contradição: a escassez de professores é apontada como um dos principais desafios, mas a população escolar continua a diminuir e a OCDE prevê uma nova redução do número de crianças em idade escolar nos próximos anos. Esta é uma das principais conclusões “Education at a Glance 2026”, um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que, este ano, tem como tema central a escassez de professores.
No capítulo dedicado ao sistema de ensino português, a OCDE começa por sublinhar que, em média, nos países da organização, o número de professores, medido em equivalentes a tempo inteiro, aumentou 13% entre 2015 e 2024 nas escolas públicas e privadas que ministram o 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, enquanto o número de alunos cresceu apenas 2%. Em Portugal, a evolução foi diferente: o número de professores aumentou 1%, mas o número de alunos diminuiu 8%. “O número de professores de que um sistema necessita não é determinado apenas pelo número de alunos”, refere o documento, explicando que as diferenças entre a evolução do número de alunos e de professores resultam também de opções políticas relacionadas com a dimensão das turmas, a carga horária dos docentes e o tempo de instrução. A tendência demográfica deverá continuar a pressionar a dimensão da população escolar. Segundo o documento, prevê-se que o número de crianças entre os cinco e os 14 anos diminua 6% em Portugal entre 2024 e 2033. A OCDE considera que esta evolução aponta para uma menor procura de professores, “caso as restantes políticas se mantenham inalteradas”.
Professores são os mais insatisfeitos da OCDE
Portugal lidera a tabela referente à insatisfação das condições de trabalho dos docentes. Os professores portugueses são os mais insatisfeitos da OCDE. Apenas 13,4% dos professores portugueses estão contentes com o seu vencimento.
Os docentes portugueses também são dos que mais se queixam das condições de trabalho: Se na OCDE, 68,4% está feliz com as condições de trabalho, em Portugal são apenas 39,1%. Apenas os professores japoneses superam estes números. O relatório relaciona a atratividade da profissão com vários fatores, entre eles as condições de trabalho e os salários. Em Portugal, os professores a tempo inteiro do ensino básico, secundário e profissional indicam trabalhar, em média, 38,4 horas por semana.
Salários: professores ganham mais, mas entrada na carreira recuou
No 3.º ciclo do ensino básico, os professores ganhavam, em média, mais 25% do que os restantes trabalhadores com qualificações de ensino superior em 2025. Entre os educadores de infância, a diferença era ainda maior: 35%. Contudo, a evolução dos salários de entrada na carreira recuou, diminuindo 10% entre 2015 e 2025.
O relatório regista uma evolução significativa dos níveis de escolaridade da população portuguesa. A proporção de jovens adultos, entre os 25 e os 34 anos, com formação superior passou de 33% em 2015 para 43%, em 2025. O valor continua, contudo, abaixo da média da OCDE (47%). A percentagem de jovens adultos sem conclusão do ensino secundário caiu de 33% para 15% no mesmo período. “Os níveis de escolaridade da população atingiram um máximo histórico em 2025, à medida que um número crescente de pessoas obtém qualificações mais avançadas”, refere o estudo. Ainda assim, a proporção de adultos portugueses em idade ativa, entre os 25 e os 64 anos, com formação superior é de 33%, abaixo dos 43% registados em média na OCDE. Também a proporção com ensino secundário ou pós-secundário não superior concluído é inferior: 32%, contra 39% na média dos restantes países. Há também uma diferença significativa entre homens e mulheres. Em 2025, 19% dos homens portugueses entre os 25 e os 34 anos não tinham concluído o ensino secundário, contra 11% das mulheres.
A percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que não trabalham, não estudam, nem frequentam formação profissional também diminuiu, baixando de 19%, em 2015, para 15%, em 2025. Apesar da melhoria, o valor continua acima da média da OCDE (13%).
Também o desemprego entre os jovens adultos com formação superior diminuiu significativamente. Passou de 13% em 2015 para 6% em 2025.
Maioria dos alunos que não termina o secundário em cinco anos desiste dos estudos
Há cada vez menos jovens sem o ensino secundário. A percentagem passou de 33%, em 2015, para 15%, em 2025. Estes alunos ficam retidos mais de dois anos e acabam por desistir de estudar quando completa 18 anos e termina a obrigatoriedade de frequentar a escola. Assim, a maioria dos alunos que não termina o secundário em cinco anos não conclui o ciclo de ensino.
Por outro lado, em 2024, 84% dos estudantes portugueses concluíram o ensino secundário no tempo previsto ou em até dois anos além da duração do curso.

