Meio milhão volta à escola para "um período imenso" e "nada fácil"

2.º e 3.º ciclos regressam esta segunda-feira ao ensino presencial. Diretores de escolas lamentam extensão do período letivo e antecipam dificuldades em manter níveis de concentração.

O terceiro período arranca esta segunda-feira, com o regresso de cerca de meio milhão de alunos dos 2.º e 3.º ciclos ao ensino presencial. Pela frente estarão 67 dias úteis de aulas, até julho, para o pré-escolar, 1.º e 2.º ciclos (ver caixa). Um período significativamente mais longo do que o habitual.

A situação preocupa Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, que defende "a utilização de estratégias para motivar e cativar os alunos em contexto de sala de aula". "Até julho, professores e alunos vão ter dificuldade em manter os níveis de concentração. No 1.º, 2.º e pré-escolar, as aulas vão até ao verão. É um período letivo imenso. Houve aqui uma bipolaridade, passamos do oito para o oitenta. Vamos ter de fazer o melhor, mas é um período que abrange quatro meses, semelhante a um 1.º período, o mais longo do ano. Não vai ser nada fácil", explica.

Para o responsável, a saúde emocional é, por isso, "algo que precisa de atenção redobrada". "Estou preocupado com o bem-estar de alunos e professores. É também por isso que não defendo escolas de verão ou horários mais alargados. Espero que a equipa de trabalho de recuperação de aprendizagens não caia na asneira de fazer escolas de verão, com aprendizagens em agosto, mas que enverede pela qualidade das aulas, e não pela quantidade, com um ensino personalizado e mais apoios, sobretudo do 1.º ciclo", defende.

Um regresso com testagem e sem vacina

A testagem dos professores dos 2.º e 3.º ciclos tem lugar entre esta segunda-feira e a próxima sexta-feira. Já a vacinação para os docentes e funcionários dos ciclos que esta segunda-feira regressam ao ensino presencial está marcada para o próximo fim de semana, altura em que serão imunizados cerca de 150 mil profissionais.

Arlindo Ferreira, diretor do Agrupamento de Escolas Cego do Maio, na Póvoa de Varzim, explica ao DN que no seu agrupamento serão testados, de novo, os docentes e não docentes do pré-escolar e 1.º ciclo, por se tratar de um concelho com grande número de contágios de covid-19. "Vamos ser testados segunda e terça, embora o ideal tivesse sido ter feito a testagem antes do arranque das aulas", explica.

Já para o regresso ao ensino presencial, está tudo pronto. "Estamos preparados e ansiosos, obviamente com receio que a pandemia volte a descambar na sociedade. As pessoas continuam sem cumprir o distanciamento social, e isso é uma preocupação", confessa, ressalvando acreditar no cumprimento de regras por parte dos alunos do agrupamento. Já no que se refere à avaliação do 2.º período e as suas implicações no 3.º, muitas escolas optaram por mudar alguns parâmetros, de forma a ajustá-los ao ensino à distância. Foi o que se fez também no Agrupamento de Escolas Cego do Maio.

"[Este 3.º] É um período que abrange quatro meses, semelhante a um 1.º período, o mais longo do ano. Não vai ser nada fácil", diz Filinto Lima

"Cada escola define os seus parâmetros e cada escola deve adaptar os critérios conforme a sua realidade. Já fizemos uma adaptação aos critérios no 2.º período e, depois da análise dos resultados, verei se é necessário rever neste 3.º período", conta. Filinto Lima também acredita poder vir a ser necessário um reajuste na avaliação, mas lança um alerta. "Se tivermos de fazer ajustes, as escolas saberão dessa realidade. Espero que o Ministério da Educação não invada a nossa autonomia. Essa margem somos nós que a fixamos e reajustamos", salienta.

Ao DN, Rui Martins, presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE), diz ser este o "momento para repensar a avaliação. Era de bom tom que o governo e as escolas mudassem o sistema de avaliação. As metas e objetivos devem ser mais personalizados, tendo em conta o perfil do aluno e o seu ritmo de aprendizagem. Este é o caminho e é este o futuro". No que se refere à recuperação de aprendizagens, para o responsável da CNIPE a solução não passa por mais tempo na escola. "Não somos defensores desse tipo de estratégia. Devem ser reformulados os programas e mudar o rigor das aprendizagens para o que é, de facto, o essencial. O Estado afirma que 50% das aprendizagens não foram adquiridas, e não é verdade. Há tempo para recuperar sem escolas de verão", diz.

Segundo Rui Martins, a expectativa dos pais e alunos para o regresso é "muito grande", mas há muito receio de voltar ao ensino à distância. "A testagem é uma boa medida para evitar novos encerramentos, e o que nos foi dado a conhecer é que iria abranger os alunos dos 2.º e 3.º ciclos também. Defendemos essa testagem alargada, mas o primeiro combate deve ser feito em cada uma das nossas casas, e as escolas, estando preparadas como estão, devem dar-lhe continuidade", conclui.

3.º período termina a 8 de julho

Os alunos dos 9.º, 11.º e 12.º anos contam com 42 dias úteis no período que hoje se inicia. Terminam a 18 de junho. Os dos 7.º, 8.º e 10.º anos terão 53 dias de aulas, acabando o 3.º período a 23 de junho. São os alunos do pré-escolar, 1.º e 2.º ciclos os que contam com o maior número de dias de escola, num total de 67 dias, com término já no verão, a 8 de julho. Os exames nacionais arrancam a 2 de julho, com as provas de Português, e terminam com Geografia A, a 16 do mesmo mês.

DGS lança guia sobre lanches saudáveis

A Direção-Geral da Saúde (DGS) e a Direção-Geral da Educação lançam esta segunda-feira um guia sobre lanches escolares saudáveis, assinalando o regresso ao ensino presencial. "A pandemia de covid-19, em particular as medidas adotadas para a prevenção da sua propagação, que implicaram alguns períodos de interrupção da atividade letiva e a necessidade de uma permanência prolongada em casa, tem alterado a rotina de milhares de crianças e jovens. Menos atividade física e alterações no comportamento alimentar podem ser comportamentos promotores do ganho de peso ao longo deste período", explica a DGS, em comunicado. O mesmo documento relembra que "a pandemia modificou também as rotinas de muitas escolas, com implicações para o funcionamento dos bufetes escolares.

Os bufetes têm lotação limitada e em algumas escolas estes espaços encontram-se mesmo fechados. Em resultado destas alterações, muitos lanches começam a ser preparados em casa", pode ler-se.

Por isso a DGS lança um guia completo, com sugestões de lanches e ainda uma "checklist de verificação de um lanche saudável e diferentes estratégias para incentivar as crianças a valorizarem e a apreciarem lanches saudáveis".

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