Um grupo de médicos da Unidade Local de Saúde de Braga lançou anonimamente uma carta aberta onde denuncia “situações graves”, que considera que “comprometem a qualidade dos cuidados prestados à população e a dignidade dos profissionais que diariamente trabalham na instituição”. No documento, a que o DN teve acesso, o grupo de médicos aponta o dedo ao presidente do Conselho de Administração da ULS, Américo dos Santos Afonso, médico dentista e autarca ligado ao PSD, nomeado em março do ano passado pela atual ministra, e à diretora clínica para a área dos Cuidados Primários, Aldara Braga, pelas “situações graves” existentes na ULS, que dizem estar a fomentar “a debandada de profissionais”.O grupo - que na carta diz ser movido apenas por um lema: “Deixem-nos trabalhar, não importa o partido ou a inclinação política, deixem-nos trabalhar, não destruam o património do SNS. Trabalhamos pelo doente e por nós e exigimos dignidade no trato, respeito entre colegas. Sejam competentes. Acima de tudo honrem os cargos que exercem” - enuncia sete situações, que a presidente do Sindicato dos Médicos do Norte (SMN), Joana Bordalo e Sá, diz serem “verdadeiras, foram confirmadas por nós”. O SMN “já pediu esclarecimentos formais à administração da ULS sobre tais situações e uma reunião urgente para discutir soluções”. Se tal não foi possível, “não descartamos a hipótese de levar tais denúncias à Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) para as investigar”. Joana Bordalo Sá diz mesmo serem “situações que prejudicam sobretudo os doentes, embora tenham uma componente laboral”.O DN contactou a administração da ULS de Braga para saber o que tinha a dizer às denúncias feitas nesta carta aberta, mas foi-nos dito que a “Administração da ULS Braga não profere comentários relativamente a denúncias anónimas”. A Direção Executiva foi igualmente contactada para sabermos se tinha conhecimento de tais situações e de como estas iriam ser resolvidas, mas o DN não obteve qualquer resposta.Consultas e relatórios clínicos perdidosNa carta, é referido que, dez meses depois de ter sido feita a transferência do sistema de registo clínico, do GLINT para o SClinic, ainda se “tenta gerir consequências graves e não resolvidas”, como: “Utentes que reclamam por consultas perdidas, não agendadas ou realizadas sem médico atribuído, o que os faz regressar a casa sem assistência” ou que ficaram sem poder fazer exames por “os Meios Complementares de Diagnóstico e Terapêutica pedidos pelos seus médicos não foram agendados, perderam a validade e não puderam ser feitos”. Mas há mais. “Meias de diagnóstico que se realizaram, mas cujos relatórios se perderam e têm de ser realizados de novo com custos para o utente e para o SNS”. Segundo é referido, há “relatórios clínicos que se perderam com a transição do sistema e que são hoje irrecuperáveis”, “agendas duplicadas de consultas para o mesmo médico em salas diferentes em simultâneo”; “agendas impercetíveis para secretários, que não conseguem saber o código de consultas nem esclarecer as agendas dos médicos”; “designações de consultas que não existem” e ainda “pedidos de consulta (internos) realizados para consultas que não existem levando a perda e atraso na orientação de utentes urgentes”. Para o grupo de médicos, “os factos descritos configuram uma falha grave na continuidade e qualidade dos cuidados de saúde do utente”. Do ponto de vista laboral, os médicos garantem não estar a ser possível “o registo de cirurgias e de atribuição de funções nas equipas cirúrgicas”, o que resulta, consequentemente, “no não pagamento de atos cirúrgicos realizados nestas condições de imprecisão de registos.Por tudo isto, o SMN reforça: “Queremos discutir soluções que garantam o cumprimento dos princípios de legalidade, equidade e respeito pelos profissionais e pelos utentes.” No documento é denunciado que “doentes oncológicos” estão a ter cirurgias adiadas, por “incompetência do Conselho de Administração da ULS Braga”. E explicam: “Durante o inverno de 2025 e primeiro trimestre de 2026, o Hospital de Braga, ativou incontáveis vezes uma medida excecional de contingência”. Esta medida de contingência já “fez cancelar cirurgias a doentes oncológicos não considerados prioritários, que têm engrossado as listas de espera”. E tudo porque, “a reavaliação de vagas no hospital não é realizada por sistema e de forma sistemática”, mantendo o estado de contingência quando não é necessário”. Ou seja, há cirurgias que são canceladas por falta de vagas no internamento, quando as vagas existem”, explicaram ao DN. Ora isto é “irresponsabilidade e displicência” e “clara violação dos direitos dos utentes do SNS”. Os médicos referem ainda “irregularidades na gestão da cirurgia adicional”, dizendo que tem havido uma “diminuição da atividade cirúrgica eletiva e adicional nesta ULS que tem levado à captação crescente dos vales cirúrgicos pelos setores privados”.O pior, dizem, é que a situação está a levar à “debandada de médicos, nomeadamente em dermatologia, mas também em Radiologia e Gastrenterologia”, dando como exemplo o facto de nos “poucos meses de 2026 já terem saído três médicos de dermatologia”. No caso de Gastroenterologia, os médicos referem que “o afastamento do diretor de serviço tem contornos desconfortáveis moralmente e reprováveis eticamente” e já levou à saída de dois médicos do serviço. Por outro lado, queixam-se de “interferência arbitrária” por parte da “diretora clínica em matérias da exclusiva competência técnica dos diretores de serviço”. .Hospital de Braga e cirurgião condenados ao pagamento de 132 mil euros pela morte de doente de 33 anos.Doentes oncológicos denunciam falta de medicamentos no Hospital de Braga.Greve a 13 de março no Hospital de Braga contra pagamento do estacionamento