Uma semana e meia depois da passagem da depressão Kristin pelas zonas Centro e do Oeste, a presidente da Associação Nacional das Farmácias, Ema Paulino, faz um balanço ao DN. “Tivemos mais de 200 farmácias atingidas, algumas com muitos estragos até em infraestruturas, mas já todas conseguiram repor o seu funcionamento. Só há uma, numa freguesia do concelho de Leiria, que se mantém encerrada pelos estragos, mas como há outra ao pé a funcionar, o problema não é grave”. O mesmo já não acontece em Alcácer do Sal, onde as duas farmácias da cidade, situadas na mesma rua, foram encerradas na semana passada devido à subida, até dois metros, do caudal rio Sado que inundou uma parte da cidade. Desde essa altura, que "os utentes têm de ir a Grândola para terem medicação ou, nas situações urgentes, contactam-nos a nós que falamos com a Proteção Civil para que os medicamentos lhes sejam levados”, explica ao DN.Mas das mais de 200 farmácias afetadas Ema Paulino diz que ainda há mais de meia centena que estão a funcionar à base de geradores, para terem eletricidade, e com equipamentos de satélite, para garantirem comunicações, “senão não conseguiam ter portas abertas, porque hoje tudo está digitalizado e não teriam sequer acesso ao sistema informático para poder ler as prescrições e fornecer os medicamentos”. O pior é que, segundo as entidades no terreno, “esta situação ainda pode levar duas a três semanas a resolver, não é uma questão de dias”.Ema Paulina fala de farmácias de Leiria, Marinha Grande, Pombal, Vieira de Leiria, Barosa, Monte Redondo e de outras da zona Centro, com quem “temos estado sempre em contacto para saber das suas necessidades e a monitorizar a sua operacionalidade”, conta ainda que “também houve problemas de falha de eletricidade e comunicações em farmácias de Coimbra, Pedrógão Grande e na zona centro interior, mas foram resolvidas”. Ao DN, a dirigente reconhece que as primeiras horas e dias pós-Kristin, assim que o dia 28 de fevereiro clareou, “foram assustadoras”. “Não sabíamos os estragos que existiam e não havia rede de comunicações para contactarmos com as farmácias, mas através da nossa empresa tecnológica conseguimos identificar as que estavam sem eletricidade e sem comunicações e fomos para o terreno distribuir equipamento, sobretudo de satélite para que pudessem ter rede para aceder ao sistema e disponibilizar medicamentos”.E se não foi pior é porque, diz Ema Paulino, “as farmácias tiveram como lição o ‘Apagão de Abril de 2025’”. Muitas investiram em “geradores e nos kits de comunicação por satélite, porque sem este material não conseguiriam funcionar em situações como estas”.Em termos de danos materiais, o pior parece ser os que afetaram infraestruturas, mas, a verdade, é que “uma semana depois estão todas a funcionar e os medicamentos nunca deixaram de ser fornecidos”. No entanto, reforça, que, na passada sexta-feira, dia 6, “visitei muitas farmácias nas zonas mais afetadas no Centro. Fui à Câmara de Pombal que está a fazer os possíveis para resolver as situações no que lhe é possível, só que não pode fazer intervenções nos postos de eletricidade e de telecomunicações. Portanto, têm de aguardar pela ajuda especializada e nem eles próprios têm perspetiva de quando é que tudo estará reposto e a funcionar”. Por agora, e apesar do caudal dos rios Mondego, Tejo e Douro terem subido muito nos últimos dias, não há “conhecimento de encerramentos”. Como diz, as únicas farmácias encerradas na mesma zona são as duas de Alcácer do Sal, porque “tiveram muitos danos nas infraestruturas e nem tão depressa vão conseguir ficar operacionais, mas sabemos que já foi identificado um espaço alternativo para funcionarem. Neste momento, já estamos a apoiar o processo de autorização por parte do Infarmed para funcionamento em instalações provisórias e esperamos uma decisão durante esta semana”. Em relação, às situações urgentes “temos estado sempre em contacto com a Proteção Civil, para que as pessoas que não se conseguem deslocar-se a Grândola tenham os seus medicamentos”.No meio de tanta destruição, a dirigente de quase três mil farmácias da rede de distribuição de medicamentos no país enaltece “a resiliência por parte das equipas, muitas tinham geradores e perceberam que assim teriam eletricidade, e muitas outras, mesmo sem comunicações, mantiveram as portas abertas para darem resposta às emergências. E pouco tempo depois todas estavam a restabelecer a sua operacionalidade”.55 mil pessoas ainda sem rede e vem aí "um rio de chuva" Quase duas semanas depois da passagem da depressão Kristin por Portugal, o tempo continua a não dar tréguas. Nesta segunda-feira, dia 9, a Proteção Civil lançou novo alerta para o “risco de inundações em várias bacias hidrográficas”, no Norte e Centro. Desta vez, por causa de um rio atmosférico vindo das Caraíbas que vai deixar o país, terça e quarta-feira, debaixo de “vento e chuva forte”. O comandante nacional da Proteção Civil, Mário Silvestre, no briefing diário, deixa alerta às populações de zonas do Mondego, Tejo, Sorraia e Sado, e ainda do Vouga, Águeda, Lima, Cávado, Ave, Douro, Tâmega, Lis e Guadiana. O balanço era ontem de 15 vítimas mortais, um funcionário da E-redes morreu nesta segunda-feira em Leiria, e 55 mil pessoas ainda estavam sem comunicações. O comandante Mário Silvestre lembrou ainda que há “11 planos distritais ativados, 124 planos municipais e situações de alerta em 19 municípios”, sendo que “o plano especial para as cheias da Bacia do Tejo mantém-se ativado no nível vermelho, mais elevado”. Mas quase duas semanas após a Kristin, pelo país já passaram a depressão Leonardo e Marta. Municípios como o de Leiria, Marinha Grande, Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande, Arruda dos Vinhos, Torres Vedras, Constância, Barquinha, Cartaxo, Alcácer do Sal ainda têm áreas isoladas, sem luz e comunicações. De 1 a 9 de fevereiro o número de ocorrências atingiu quase as 12 mil (11.957). O comandante referiu também que no terreno estão 42.135 operacionais e 16.664 meios.