Máscaras, testes, isolamento e certificados. O que vai discutir-se no Infarmed?

O primeiro-ministro afirmou esta semana que Portugal pode assistir a um levantamento de restrições, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa disse acreditar que este momento poderá ser o pontapé de saída para a "fase de transição da pandemia para a endemia". Peritos que têm aconselhado o governo vão fazer esta quarta-feira ponto de situação e deixar indicações para o futuro.

Como chegamos a esta reunião?
O encontro de hoje com os peritos foi convocado pelo primeiro-ministro e realiza-se num contexto em que se considera que Portugal já terá atingido há mais de dez dias um pico em termos de casos de covid-19. António Costa admitiu na segunda-feira que Portugal pode avançar para o levantamento de um conjunto de restrições, uma ideia reforçada no mesmo dia pelo Presidente da República, que disse acreditar que a reunião de hoje poderá ser o pontapé de saída para a "fase de transição da pandemia para a endemia."

Vamos deixar de usar máscara?
O alívio no uso de máscara é uma das medidas que Carlos Antunes, que integra a equipa que faz a modelação da evolução da covid-19 desde o início da pandemia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, considera poder avançar. "Não há necessidade de se continuar a manter máscara obrigatória na rua, mesmo em situações de grandes ajuntamentos. Quanto ao uso de máscara em espaços fechados, penso que este deve manter-se obrigatório nesta fase e até à primavera. A partir daqui, recomendaria apenas o seu uso para as pessoas mais vulneráveis", disse a semana passada ao DN, destacando outra exceção: "Deve manter-se obrigatório em lares e em hospitais." Na opinião do presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública deixar de usar máscara em espaços exteriores pode ser uma medida a tomar pelo Governo, já que se está a "começar a entrar no bom tempo, a usar mais o ambiente externo, onde a circulação de ar é favorecida". Já a pneumologista Raquel Duarte acredita que o uso de máscara ainda nos vai acompanhar nos próximos tempos, sobretudo em espaços interiores. "Vamos ter de aprender que quando estivermos com sintomas, quer seja devido ao SARS-CoV-2 ou a outras doenças infecciosas, vamos ter de nos proteger a nós e aos outros", disse ao DN.

As regras do isolamento podem mudar?
Segundo Carlos Antunes deve restringir-se o isolamento exclusivamente para infetados, libertando deste período os contactos de risco - até mais do que os doentes assintomáticos, porque "estes têm menos probabilidade de infetar do que os doentes ativos". "Sou mais apologista de se abdicar do isolamento para os contactos de risco. Portugal já simplificou o isolamento para quem tem a terceira dose da vacina, nomeadamente para a população em lares e para os profissionais de saúde, mas acho que a medida pode ser generalizada a toda a população", disse o especialista em declarações ao DN na passada semana. Na opinião da pneumologista Raquel Duarte, com o tempo o isolamento dos doentes assintomáticos acabar por cair, "porque se mudarmos a política de testagem estes indivíduos só serão detetados em rastreios oportunísticos."

A aposta na testagem massiva vai continuar?
"Portugal está na fase de começar a fazer a transição da testagem massiva para a testagem seletiva, a que se faz aos grupos de maior risco", defendeu em entrevista ao DN Raquel Duarte, pneumologista que tem apoiado o Governo nas fases de desconfinamento. "Não necessitaremos de uma testagem massiva, mas devemos continuar a testar doentes assintomáticos, para se quebrar cadeias de transmissão e para termos a noção de quantos indivíduos poderão estar nesta situação dentro da comunidade e tomar medidas, e os doentes hospitalizados, para reduzir o risco de infeção nasocomial."

Obrigatoriedade de apresentação do certificado de vacinação pode cair?
​​​​​​​Para o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública o que poderá começar a ser aliviado nesta fase é a obrigatoriedade de apresentar certificado de vacinação, ou até mesmo de teste, para entrar nos diferentes espaços, uma vez que a "grande maioria" da população elegível está vacinada ou recuperada. Mas para Gustavo Tato Borges existem "situações fundamentais" em que estes certificados devem continuar a ser exigidos: no acesso a hospitais, lares e unidades de cuidados continuados, bem como à entrada para grandes eventos.

Que outras medidas de alívio poderão ser discutidas?
Para Tato Borges, a limitação da lotação máxima dos espaços comerciais também poderá cair, porque já não tem grandes vantagens. Na opinião de Carlos Antunes, deve acabar-se "com a divulgação diária do número de casos", passando para um ritmo semanal ou quando fosse estritamente necessário, referiu ao DN. Marques Mendes referiu no seu comentário de domingo na SIC que a vacinação será discutida hoje, apontando para a possível administração de uma quarta dose no outono aos cidadãos de maior risco.

Quando deverá entrar em vigor o alívio das restrições?
Na opinião do investigador Miguel Castanho ainda é cedo para aliviar as restrições nesta fase da pandemia pois é necessário ter valores "bastante mais baixos" em termos de incidência, internamentos e óbitos por covid-19. "O que temos de decidir agora é qual é o ponto ideal para aliviar as restrições, que eu creio que não será já", defendeu o investigador do Instituto de Medicina Molecular em declarações à Lusa. Já o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública defendeu que o alívio das restrições tem de ser "progressivo, proporcional e cauteloso", mas acredita que "estamos exatamente numa fase oportuna para pensar no alívio das restrições, porque estamos na parte descendente da onda da Ómicron, com o Rt abaixo de 1 e uma diminuição dos casos".

ana.meireles@dn.pt

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