O Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) realizou 87.708 testes do pezinho a recém-nascidos em 2025, no âmbito do Programa Nacional de Rastreio Neonatal (PNRN). Ou seja, a mais 3077 bebés do que em 2024 (84.631) e mais 344 do que em 2019 (87.364), quando se registou o maior número de testes realizados desde 2016. E, embora estes dados, conforme sublinha o INSA, só representem “o número de recém-nascidos estudados no âmbito do PNRN, através da sua Unidade de Rastreio Neonatal, Metabolismo e Genética, do Departamento de Genética Humana, e não o número de nascimentos em Portugal, “são sempre um bom indicador para o total de nascimentos do país que mais tarde serão confirmados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE)”, sublinha a socióloga especialista em Demografia, Maria Filomena Mendes ao DN. Até porque, justifica, têm uma grande abrangência em termos nacionais, na qual podemos confiar”.Mas todos os anos é assim, os dados do teste pezinho são apresentados logo no início do ano e fazem o primeiro retrato do que foram os nascimentos no ano que terminou. Neste caso, em 2025, refletem uma realidade que a especialista Maria Filomena Mendes diz “poder ser o sinal da inversão da tendência de descida nos nascimentos, que vimos a sentir há mais de uma década, o que é sempre bom em termos da demografia e para o país”.Se olharmos para os dados do teste pezinho em 2016 (85.577), verificamos que em 2025 foram realizados mais 2131, o que faz Maria Filomena Mendes sublinhar também que “só temos de ficar satisfeitos e aguardar que esta tendência se mantenha nos próximos anos”. Isto, apesar de se saber que cerca de um terço (33%) dos bebés nascidos em Portugal são de mães com naturalidade estrangeira, conforme dá conta o Instituto Nacional de Estatística (INE) na informação divulgada em setembro do ano passado relativa aos nascimentos do primeiro semestre.Questionada sobre se esta percentagem de bebés de mães estrangeiras pode representar um sinal de mais inclusão, Maria Filomena Mendes afirma: “A natalidade está diretamente ligada a vários fatores. E tal como para os casais de naturalidade portuguesa a questão da incerteza e da insegurança em relação ao futuro pode ser um entrave a ter filhos, o mesmo pode acontecer com os casais em que um dos progenitores, a mãe ou o pai ou os dois, são de naturalidade estrangeira.” .Natalidade. Lisboa regista maior número de testes do pezinho da última década. Portanto, o facto de “estarem a ter mais filhos pode significar que têm uma maior expectativa no futuro e também maior inclusão”, até porque, salienta, “quando os imigrantes não sentem uma expectativa fortalecida em relação ao futuro, não têm filhos, acabam por sair do país, sendo Portugal apenas uma forma de passagem para um outro local”. Maria Filomena Mendes salvaguarda ainda: “Esta é uma perspetiva”, mas “não tenho dados efetivos estudados que me permitam garantir que seja mesmo assim”.Para a socióloga, o que pode dizer-se de forma garantida e estudada é que “temos assistido a subidas e a descidas no número de nascimentos no país nos últimos anos e que tal tende a responder a anos de crises económico-financeiras (período da troika e inflação), sanitárias (com a covid-19) e sociais, como a guerra na Europa. Ou seja, é a resposta a uma série de crises que fomos tendo, mais ou menos sucessiva, e que têm afetado, do ponto de vista dos casais, o desejo de ter filhos, conconcretizando esse desejo ou adiando-o para mais tarde”. De acordo com os dados do teste pezinho, em 2016, nasceram, pelo menos, 85.577 bebés, em 2017, 86.180, em 2018, 86.824, em 2019, 87.364 (o número mais elevado até aqui, desde 2012), em 2020, 85.456, em 2021, 79.217 ( o número mais baixo, muito provavelmente devido à covid-19), em 2022, 83. 436, em 2023, 85.764, em 2024, 84.631 e, em 2025, 87.708. Há a registar ainda que os dados demonstram que os cinco distritos com maior número de nascimentos e de testes do pezinho se mantêm e são: Lisboa, Porto, Setúbal, Braga e Faro. Os distritos onde menos se nasce também se mantêm, Portalegre, Guarda e Bragança.Em 2025, Lisboa registou 26.595 nascimentos e testes do pezinho, Porto 15.656, Setúbal 7013, Braga 6534 e Faro 4523, o que representou uma subida em todos relativamente a 2024, já que Lisboa teve 25.865 nascimentos e testes, Porto 14.923, Setúbal 6903, Braga 6288 e Faro 4368. A única diferença em relação a 2016, do ponto de vista regional, é que desde essa altura que o Porto mantém a descida nos nascimentos (16.176, em 2016, para 15.656, em 2025) - apesar de ser o segundo distrito onde mais se nasce.Quanto ao futuro, e confrontada pelo DN sobre se será possível atingir-se a natalidade que existia no início do milénio (119.217 nascimentos em 2000 ou 101.800, em 2010), a demógrafa Maria Filomena Mendes diz que “podemos ter sempre a expectativa de poder alcançar esses números”, mas deixa um alerta: “As políticas públicas serão determinantes. É preciso que se melhorem as circunstâncias de vida dos casais que pretendem ter filhos”, porque se existir precariedade no emprego ou constrangimentos na habitação, que é, neste momento, um fator determinante na gestão dos orçamentos familiares, decerto que haverá de novo uma redução da natalidade”, destaca. Para a especialista, “é preciso que as políticas públicas destinadas à natalidade sejam tomadas na altura certa para que se crie um ambiente favorável e de maior conforto para que os casais em idade fértil que pretendem ter filhos - sejam elas de mais creches, infantários, extensão das licenças de parentalidade para a mãe e para o pai. Só que nestas medidas também têm de estar incluídas mais emprego, quer no setor público e privado, mais habitação e até mais tempo para se estar com os filhos”, que reforça: “É muito importante que os Governos, quer a nível nacional e até as autoridades a nível regional e local, percebam quais são as necessidades dos casais que querem ter filhos, para que possam antecipar medidas e decisões que visem o apoio a estes casais, porque o que acontece muitas vezes é que há casais que adiam a decisão de ter filhos porque estas não são tomadas e depois atingem uma idade em que já têm problemas de infertilidade e nesta fase já não há nada a fazer.” Apesar de haver mais nascimentos, Portugal está longe dos registados em 2000 ou 2010, por isso “é muito importante que os Governos entendam que é preciso melhorar as circunstâncias de vida das pessoas”..Menos 1.397 "testes do pezinho" em 2016 indicam diminuição da natalidade