O mítico estádio encheu-se para o saudar o papa.
O mítico estádio encheu-se para o saudar o papa.X

Leão XIV Conquista o Bernabéu: "Hoje a Igreja de Madrid marcou um golaço para sempre"

Perante 70 mil fiéis no estádio do Real Madrid, o papa desafiou os católicos a rejeitarem a rotina e a burocracia, apelando a uma "arte espiritual da cordialidade" nas grandes cidades.
Publicado a
Atualizado a

O icónico estádio Santiago Bernabéu, habituado a acolher as grandes estrelas do futebol mundial, transformou-se ao final da tarde desta segunda-feira (8 de junho) num palco de celebração religiosa e reflexão. Perante uma moldura humana de mais de 70 mil pessoas de todas as idades, o Papa Leão XIV presidiu a um encontro festivo marcado por música, testemunhos e partilha de experiências da arquidiocese madrilena, que conta com cerca de 3,5 milhões de católicos.

Num ambiente vibrante que incluiu vários momentos de humor ligados ao futebol -- que o fizeram rir à gargalhada -- o sumo pontífice quebrou o protocolo. Antes de iniciar o discurso oficial preparado, Leão XIV virou-se para o cardeal arcebispo de Madrid, José Cobo Cano, e improvisou: "Para um jogador, marcar um golo neste estádio é algo que marca a sua vida. Mas, hoje, a Igreja de Madrid marcou um golaço para sempre!", uma afirmação que arrancou uma estrondosa ovação das bancadas.

Uma verdade "sinfónica" contra a perda de rumo urbano

Na sua alocução, o líder do Vaticano abordou diretamente a complexidade da vida nas grandes metrópoles contemporâneas. Segundo o papa, o crescimento e o ritmo destas cidades fazem com que, por vezes, as pessoas sintam que já não possuem "os mapas para se orientarem em segurança". Para contrariar este isolamento, Leão XIV defendeu a necessidade urgente de se "reaprender a arte espiritual da cordialidade", alertando que, sem ela, o anúncio do Evangelho corre o risco de se tornar "uma repetição impessoal", abrindo espaço para a desconfiança e a frustração.

Sublinhando que Madrid é um mosaico onde coexistem diferentes tradições e "almas", o líder da Igreja Católica lembrou que Deus conhece individualmente o coração de cada habitante através do amor e da liberdade. "Para chegar ao coração da cidade, devemos cultivar a consciência de que a verdade é sinfónica e transcende-nos sempre", afirmou.

Abraçar o debate

O Papa deixou também um forte apelo à mudança de atitude dos fiéis, desafiando-os a "desinstalarem-se" e a encararem os regressos à fé ou as conversões na idade adulta "não como exceção, mas como regra da missão".

Num aviso claro contra os perigos da institucionalização excessiva, Leão XIV pediu que os conselhos paroquiais e diocesanos não sejam reduzidos a "meras formalidades burocráticas", mas sim utilizados para uma escuta profunda do Espírito. O pontífice alertou para o risco de a rotina aprisionar a vida eclesial em hábitos rígidos. "O espírito desperta vocações e une-as, provocando por vezes agitação, debate e a procura de novos equilíbrios. Não se assustem com tudo isto; acolham-no e desfrutem", recomendou.

A fechar o encontro, sob o eco dos cânticos de apoio da multidão, Leão XIV exortou os presentes a transformarem as suas vidas através do acolhimento e da bondade, como forma de dissipar o medo coletivo. "Sejam, para todos, como uma Bíblia aberta", disse, em conclusão, acrescentando que o amor é a única linguagem capaz de fazer com que todos se sintam em casa.

O mítico estádio encheu-se para o saudar o papa.
Leão XIV critica a “desqualificação” política e a exclusão dos migrantes
Diário de Notícias
www.dn.pt