José Beleza: “A qualidade dos políticos é cada vez mais baixa”
José Beleza foi absolvido no processo que o envolveu no chamado caso do Ministério da Saúde e recebeu posteriormente uma indemnização do Estado pela duração excessiva dos autos. No livro agora publicado, regressa a esse período, sem querer fazer “um livro de vingança”, e fala da perda do irmão Miguel, da exposição pública da família e da necessidade de encerrar uma etapa. Nesta entrevista ao Diário de Notícias, dá mais espaço à atualidade e traça um retrato crítico do país, da Saúde, da Justiça, da Segurança Social, da Educação e da política.
Porque decidiu publicar este livro agora?
Este livro é o resultado de muitos anos em que fui guardando coisas dentro de mim e senti a necessidade, de alguma forma, de pôr cá fora tudo aquilo que continha na alma, ou pelo menos as coisas que mais me marcaram. Fui escrevendo, fui tomando notas, e o livro demorou bastante tempo a ficar concluído, porque à medida que me ia lembrando de coisas ia acrescentando. No princípio, nem sabia exatamente o que queria fazer. A certa altura, aquilo começou a tomar forma de história.
O processo que o envolveu é inevitavelmente uma parte importante desse livro. O que foi mais difícil de suportar?
O principal foi ter sido alvo, há mais de 30 anos, de uma acusação de um crime que jamais cometi. Passei esses anos a dizer, a proclamar a minha inocência, e só ao fim de 30 anos os tribunais reconheceram definitivamente que eu era inocente e acabei por ser absolvido. Três anos mais tarde, o Estado também me atribuiu uma indemnização que, apesar de pequena — como eu dizia, nem dava para pagar ao advogado —, foi alguma coisa. O mais importante foi ter ganho. A questão do processo, do ponto de vista técnico, foi muito mais tratada no primeiro livro que editei há 30 anos. Este é muito mais leve nessa parte. Aproveitei também para contar uma história de vida, que é a história da minha vida: os sítios por onde andei, uma série de situações, algumas bastante divertidas, outras nem tanto, e as pessoas com quem privei, que também estão retratadas.
Os tribunais provaram a sua inocência. Ainda assim, havia pessoas que continuavam a apontar-lhe o dedo. O livro é uma forma de responder?
Procurei não fazer um livro que fosse uma espécie de vingança sobre as pessoas. Procurei fazer um livro factual, que relatasse aquilo que fui vivendo ao longo destes anos. E tudo aconteceu de uma forma muito natural, não foi premeditado.
Na dedicatória fala de inocentes esquecidos pelos sistemas que os deveriam proteger. Refere-se apenas ao seu caso?
Refiro-me a um sem-número de casos de que fui ouvindo falar. Não são casos que conheça diretamente, mas li muito, ouvi muitas histórias, vi muitas reportagens. E, além disso, quando cheguei a Portugal, estive preso preventivamente alguns dias. Fui detido, porque na verdade o juiz não me prendeu. O juiz executou aquilo que estava determinado, que era o mandado de captura, e resolveu que só decidiria sobre a minha libertação 23 dias depois. Foi uma forma dura de me deixar lá alguns dias.
Sente que este livro ajudou a libertar uma zanga ou uma mágoa?
É mais alívio. Uma pessoa vai tendo quatro ou cinco pensamentos ao longo do tempo e, de repente, põe esses quatro ou cinco pensamentos cá para fora. É um pouco isso. Sinto-me mais aliviado.
Há um capítulo dedicado ao seu irmão Miguel. Que lugar ocupava ele na sua vida?
O meu irmão Miguel era, sobretudo nos últimos anos enquanto viveu, o meu grande companheiro do dia a dia. Era talvez o irmão com quem tinha mais afinidades, talvez por sermos dois irmãos homens, não sei. Para mim foi uma perda imensa quando ele morreu. Acho que a gente fica sempre com aquela sensação, sobretudo no que toca aos sentimentos. Fica sempre com a sensação de que nunca nos abrimos completamente. Ele era uma pessoa muito importante para mim e, se calhar, eu nunca lhe teria dito que era uma pessoa muito importante para mim. Talvez mais coisas relacionadas com essa parte do sentimento.
Sendo uma família muito exposta à opinião pública, sentiu que teve de refazer e reorganizar a sua vida muitas vezes?
Desde que a acusação surgiu, durante vários anos tive de ir adaptando a minha vida às circunstâncias. Por exemplo, no princípio tive a noção de que, se estivesse em Portugal, acabava preso, como havia outra pessoa no processo que estava presa. Logo que surgiu a acusação, pedimos abertura de instrução e solicitámos que eu fosse ouvido pelo juiz. O juiz demorou dois anos e meio a responder, ou pelo menos a marcar a minha audiência. No dia em que disse que ia ouvir-me, cá estava eu. E fui ouvido.
A publicação do livro devolve-o ao centro das atenções. Isso incomoda-o?
É uma situação que já não me incomoda, porque já estou muito habituado. Já estava muito habituado no passado. Portanto, de preferência, só peço que não digam muito mal.
Depois do processo, da família, dos amigos e da homenagem ao seu irmão, o que fica de Zé Beleza?
Fica uma pessoa mais equilibrada, mais aliviada, mais instruída e com mais conhecimento da vida. Isto contribuiu globalmente, porque no meio de todos os problemas também tive a sorte de viajar por várias partes do mundo. Nesse aspeto, sinto-me uma pessoa mais enriquecida.
Há 30 anos não havia redes sociais, inteligência artificial ou novas tecnologias. Já pensou em como seria se o seu caso tivesse acontecido agora?
Acho que seria tão mau ou pior. Hoje também vejo a comunicação social, ou pelo menos parte da comunicação social, a exibir muitos escândalos, muitas coisas. Acho que existe a noção de que é mais interessante haver escândalos do que, entre aspas, dar notícias de coisas boas. Portanto, provavelmente teria sido pelo menos igual ou pior.
Que análise faz do país que temos hoje?
Portugal atualmente é um caso que eu acho um pouco complicado. Creio que existe alguma instabilidade a nível político e acho que existe uma gestão, em algumas áreas, bastante negativa, como, por exemplo, a Justiça, a Saúde, a Segurança Social e mais alguns setores. Sobretudo, penso que há departamentos da nossa vida do dia a dia que funcionam muito devagar.
Na sua opinião, funcionam assim porque não há vontade de mudar ou porque não há capacidade?
Penso que não há essa capacidade. Não acredito que os nossos governantes não tenham vontade de mandar e melhorar, mas entendo que existe sobretudo alguma falta de capacidade.
Que diferença encontra entre os políticos de hoje e os de há 20 ou 30 anos?
Acho que a qualidade é cada vez mais baixa. Há 30 anos, penso que tínhamos políticos com mais qualidade e mais capacidade do que temos atualmente.
Porquê?
Acho que as pessoas muito competentes que estavam na política se cansaram de o fazer, sobretudo por duas razões. Primeiro, porque economicamente não se sentiam satisfeitas com aquilo que ganhavam. Em segundo lugar, porque fazer política atualmente também equivale a ser objeto de tudo o que se possa imaginar, de bom e de mau. E as pessoas muitas vezes não dão para isso.
Mas os políticos também se expõem...
Claro, quem corre por gosto não cansa. Mas muitas vezes fala-se de um escândalo e depois parece que, passado algum tempo, deixou de existir. Mas vamos sempre tendo uns escândalos por aí.
Falemos agora do país e dos temas atuais. O Governo é minoritário e, apesar das dificuldades, os partidos da oposição não parecem querer fazê-lo cair. Como interpreta essa situação?
Porque não se vê, realisticamente, quais seriam as alternativas viáveis se houvesse eleições.
Não estão preparados para governar?
Eles pelo menos creem que estão convencidos de que estão. Agora, se calhar, não encontram um cenário em que seja possível governar, por exemplo, com maioria na Assembleia e com estabilidade.
Que áreas da governação são mais problemáticas na sua opinião?
A saúde, a justiça, a segurança social e a educação.
Na Saúde o que mudaria primeiro?
Para além do problema sério dos salários, por exemplo dos médicos, acho que existe uma falta de organização muito pouco eficiente. É absolutamente inadmissível uma pessoa chegar a uma urgência, ter um AVC e, como aconteceu, ficar 48 horas numa maca, parada num hospital. Isto é profundamente miserável. Há uma quantidade de pessoas que não têm médicos de família, há pessoas que ficam horas e horas à espera nas urgências. Uma pessoa que está numa urgência não pode estar sete horas à espera. Isto tem muito a ver com organização.
Na Justiça, que alteração considera prioritária?
Tentaria mudar sobretudo a necessidade de os processos serem eficientemente coordenados. É preciso ter bons profissionais, teremos com certeza alguns fantásticos e talvez outros menos bons, mas sobretudo é preciso combater a ineficácia. A nossa Justiça demora normalmente um tempo infinito. Temos grandes exemplos disso.
Também critica a Segurança Social. Porquê?
A Segurança Social é outra coisa que funciona, infelizmente, muito mal. Uma pessoa que se atrasa dois dias a fazer um pagamento tem de pagar juros, e quando a Segurança Social tem de fazer alguma devolução, seja a pessoas ou a empresas, demora imenso tempo a pagar e, quando paga, não paga juros.
E a Educação?
Baseio-me mais naquilo que vou vendo na comunicação social: falta de professores, muitos alunos sem aulas, todas as críticas que se fazem relativamente aos problemas com os exames. Acaba tudo por ir parar um pouco ao mesmo. Aí também acho que é uma questão de falta de organização.
Defende que os ministros saiam dos cargos quando os problemas não são resolvidos?
Se se verificar que o ministro não é suficientemente hábil e competente para desempenhar o cargo que ocupa, acho que sim.
Nem sempre os problemas estão diretamente no ministro...
É verdade. Há dificuldades ao nível das direções-gerais e das estruturas que tutelam os departamentos. Essa falta de organização de que falei há pouco pode não vir diretamente do ministro, mas vir mais dos órgãos que tutelam os departamentos.
Mas um ministro pode mudar essas pessoas.
Pode, mas às vezes também não há pessoas para mudar. Quer dizer, às vezes as pessoas não são muito boas, mas também não há melhores do que elas. De maneira que isto é tudo bastante complexo.
