Dez anos depois de ter perguntado a jornalistas portugueses quais eram os maiores constrangimentos à liberdade de imprensa, Felisbela Lopes, Professora Catedrática do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, voltou ao tema e encontrou um cenário mais pesado. “Comparativamente, hoje as preocupações são mais numerosas e mais intensas”, conclui a investigadora a partir de um novo inquérito a 100 jornalistas de órgãos de comunicação nacionais. No topo das inquietações surgem três grandes eixos: a crise financeira dos grupos de média, a precariedade laboral e a crise de identidade do jornalismo.O novo retrato mostra agravamento em relação ao passado. “Há dez anos diziam-me um ou dois constrangimentos; agora dizem vários, em catadupa”, afirma Felisbela Lopes. A diferença, sublinha, não está apenas na repetição dos problemas já conhecidos, mas na sua intensificação e na emergência de uma dimensão nova. “Estes constrangimentos agudizam-se. As pessoas falam neles com maior gravidade. E há um terceiro que é novo, que tem a ver com a crise da identidade do jornalismo e dos jornalistas.”O estudo assenta em 100 depoimentos recolhidos junto de profissionais de diferentes meios nacionais - televisão, rádio, jornais, agência Lusa e projetos digitais -, distribuídos por várias funções nas redações, de diretores e editores a grandes repórteres e jornalistas sem outros cargos. O painel inclui 49 mulheres e 51 homens. Há ainda um elemento que reforça a comparação com 2015: 45 dos 100 respondentes deste ano já tinham participado no inquérito anterior. Mas o dado mais expressivo sobre a transformação do setor talvez seja outro: entre os participantes do painel de 2015, 30 já não estão na profissão. A investigadora faz questão de precisar a natureza dessa saída: “Não porque a maioria tinha ido para a reforma. Antes porque a maioria decidiu fazer outra coisa.” Dado que funciona, assim, como "um indicador adicional da erosão do setor".Da contabilização das referências apontadas pelos inquiridos, agregando os dois primeiros constrangimentos mencionados em cada resposta, resulta uma hierarquia clara. A crise financeira recolhe 48 referências, a precariedade laboral 33 e a crise de identidade 27. Seguem-se os constrangimentos tecnológicos, designados no estudo como “tecno-IA”, com 14 referências, a desinformação, com 13, a pressão das fontes, com 12, as redes sociais, com 11, e a pressão do tempo, com 9. Mais abaixo surgem as influências políticas, com 7 referências, a pressão das audiências, com 5, a autocensura, com 4, os processos judiciais, com 3, a coação física, com 1, e a falta de literacia, também com 1.A crise financeira dos grupos de média é, de forma inequívoca, o problema mais apontado. Segundo Felisbela Lopes, quando os jornalistas falam deste constrangimento referem-se a uma fragilidade estrutural que condiciona a capacidade de produzir jornalismo de qualidade. “Reconhecem que as redações não têm gente suficiente, capacidade de contratar, dinheiro para fazer, por exemplo, coberturas no exterior. Que não têm o tempo necessário para trabalhos mais profundos, e que a pressão para fazer mais depressa é constante”, explica. Em síntese, acrescenta, “reconhecem que não há meios financeiros que lhes permitam fazer o jornalismo que querem”.Os resultados do inquérito reforçam esta leitura. A crise económica das empresas jornalísticas "traduz-se em menos recursos, menos jornalistas nas redações e menor margem para reportagem, investigação e trabalhos de profundidade". Vários respondentes alertam, além disso, para um efeito que ultrapassa as redações e toca diretamente a vida democrática: menos jornalismo significa menos fiscalização do poder; menos investigação corresponde a menor transparência; menos pluralismo traduz-se em menor diversidade de opiniões no espaço público.A precariedade laboral aparece imediatamente a seguir, com 33 referências, e surge ligada tanto à degradação das condições de trabalho como à vulnerabilidade editorial. Os jornalistas descrevem uma profissão marcada por “salários baixos, contratos instáveis, trabalho a recibos verdes e falta de estabilidade profissional”. Para Felisbela Lopes, este é o plano individual de uma crise mais vasta. Ou seja, “se a crise financeira corresponde a um nível macro, relacionado com os grupos de média e a sustentabilidade das empresas, a precariedade representa o nível micro, o da experiência concreta de cada profissional”.Mas, insiste a investigadora, “os três aspetos estão muito ligados, muito intrinsecamente ligados”, afirma, referindo-se à crise financeira, à precariedade e à crise de identidade. A fragilidade económica dos grupos espelha-se nas condições laborais, e ambas acabam por afetar a qualidade do trabalho jornalístico e a forma como a profissão é percecionada por dentro e por fora. “Tudo isto faz com que o meu trabalho também perca qualidade”, resume.É precisamente nesse ponto que emerge o terceiro grande problema identificado pelo estudo: a crise de identidade do jornalismo e dos jornalistas. Com 27 referências, esta dimensão marca uma diferença relevante face a 2015. “Os jornalistas acham que não lhe é reconhecida a credibilidade e que as pessoas manifestam cada vez mais desconfiança em relação ao jornalismo. Isto é novo relativamente àquilo que eu encontrei há dez anos”, afirma Felisbela Lopes.De acordo com o inquérito, os profissionais sentem que o jornalismo está a perder o seu papel essencial de mediação entre factos e cidadãos, ao mesmo tempo que se vê cada vez mais confundido com comentário, influência ou simples produção de conteúdos. “Atualmente, o papel do jornalista está confundido com o influencer, com conteúdo para redes sociais”, observa a professora catedrática. E reforça a necessidade de demarcar fronteiras: “É preciso ter fronteiras muito claras, porque o influenciador não faz jornalismo. Alguém que tem uma rede social não faz jornalismo.”Para a investigadora, esta crise identitária traduz também a perda de poder e de autoridade da profissão no confronto com os centros de decisão. “O jornalismo era o quarto poder, estamos agora exatamente no polo oposto”, diz. Hoje, refere, o jornalista trabalha com mais fragilidade, mais receio e menos margem de manobra. “Estamos agora até sob algum medo e algum temor.”Essa fragilidade não é apenas externa; em alguns casos, os próprios jornalistas reconhecem acomodação ou retraimento. O estudo regista quatro referências à autocensura, e Felisbela Lopes admite que existe uma minoria que faz esse reconhecimento: “Alguns também dizem que eles próprios se dobram a estes constrangimentos, que poderiam fazer mais.” Embora não seja a tendência dominante, essa autocrítica revela como a pressão estrutural também se interioriza no exercício quotidiano da profissão. “Jornalismo como bem público exige resposta pública mais robusta”Para Felisbela Lopes, este quadro não pode ser enfrentado apenas com diagnóstico. A investigadora defende que os resultados tornam “urgente uma maior celeridade na concretização, e expansão, dos eixos 3 e 4 do Plano de Ação para os Média” lançado em 2024 pelo anterior Governo de Luís Montenegro. Esses eixos preveem mecanismos de apoio à sustentabilidade económica do setor, à valorização das condições laborais dos jornalistas e à adaptação das organizações mediáticas aos desafios tecnológicos e digitais.“Temos de pensar seriamente no financiamento dos média de natureza jornalística”, afirma Felisbela Lope. E acrescenta: “O Plano de Ação para a Comunicação Social deve ganhar mais força no apoio à sustentabilidade económica do setor.” Reconhece que o documento já prevê “apoio à sustentabilidade económica, à valorização das condições laborais e à adaptação aos desafios tecnológicos”, mas insiste que “é preciso passar às medidas”.A seu ver, a questão do financiamento é central porque o atual modelo económico se revelou insuficiente para sustentar o jornalismo. “O modelo de negócio não serve. Nós já percebemos isso”, afirma. Daí a defesa de uma intervenção pública mais robusta. “Este financiamento público é necessário. É necessária uma ação maior dos poderes públicos”, sustenta.A posição assenta numa ideia de base que Felisbela Lopes considera decisiva: “Quando falamos de jornalismo, falamos de jornalismo enquanto bem público.” E desenvolve: “O jornalismo não é um produto qualquer nem um conteúdo qualquer; tem uma função social muito clara.” A experiência recente, nomeadamente em contexto de pandemia e crise, tornou isso particularmente visível. “Se nós percebemos a função do jornalismo, então é preciso não o deixar enfraquecer, e portanto, precisa de financiamento público.” Novas formas de representação?Mas a resposta, insiste, não pode limitar-se ao plano económico. A crise de identidade exige também uma reflexão sobre a organização e a dignificação da profissão. “É urgente dignificar o campo do jornalismo, a profissão, os jornalistas”, afirma. Nesse contexto, admite ser tempo de discutir novas formas de representação e regulação: “Poderá ser este o tempo de pensar, por exemplo, numa Ordem para os jornalistas.” Sem fechar a porta a outras soluções, o essencial, diz, é encontrar “fórmulas que dignifiquem a profissão, seja uma Ordem ou outra solução, desde logo a intensificação daquilo que existe”.Mais do que dignidade, porém, a palavra que prefere é identidade, "o termo é mais forte e mais assertivo”, afirma. “É preciso conferir identidade ao jornalismo e aos jornalistas.” E o diagnóstico que faz é severo: essa identidade “está despedaçada”.O inquérito a 100 jornalistas portugueses acaba, assim, por desenhar vulnerabilidades acumuladas. A crise financeira dos grupos enfraquece as redações; a precariedade desprotege os profissionais; a crise de identidade corrói o reconhecimento e a autoridade da profissão; e, sobre esse terreno já fragilizado, “intensificam-se as pressões tecnológicas, a desinformação, a aceleração produtiva e a multiplicação de interferências externas” - o estudo de Felisbela Lopes mostra uma profissão “cercada por constrangimentos que se reforçam mutuamente”.