O veterano coordenador de investigação criminal da Unidade Nacional de Contraterrorismo, há 37 anos na PJ, compreende bem que os "lobos solitários" sejam uma das principais preocupações para a segurança da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) e da visita do Papa Francisco, mas salienta que em 18 casos de atentados que analisou no seu livro, lançado há um mês, "Os "lobos solitários": terrorismo e (in)sanidade mental", nenhum teve como alvo "grandes eventos" ou "personalidades VIP"..A melhor dissuasão, diz João Paulo Ventura, atualmente oficial de ligação da PJ na UE e conselheiro a área da Justiça e Assuntos Internos, em casos como a JMJ, é o já previsto "reforço dos dispositivos de segurança e uma atitude muito mais vígil, e ostensiva das autoridades"..Uma das ameaças relacionadas com a JMJ e a visita do Papa classificada como de grau "significativa" é a de um eventual ataque por um designado "lobo solitário", em especial indivíduos com distúrbios mentais? Qual a razão de ser deste receio?.Esse juízo está perfeitamente alinhado com o entendimento ao nível internacional. Desde há vários anos que os "atores solitários" - a forma mais correta de designar os ditos "lobos" - predominantemente nos quadrantes "jihadista" e da extrema-direita criminal, são as principais fontes e figuram na dianteira da ameaça terrorista..Houve casos recentes e em abril de 2021, no âmbito da Presidência Portuguesa da União Europeia (UE) e do Grupo de Trabalho Terrorismo, consagrou-se essa evidência. Mas deixe-me fazer aqui um breve esclarecimento para os leitores menos identificados com o tema: um "ator solitário", é alguém que protagoniza comportamento criminal de motivação ideológica..Não recebe instruções de qualquer hierarquia ou cadeia de comando, nem pertence a qualquer grupo terrorista ou extremista criminal. Trata-se, portanto, de uma atuação espontânea, de livre iniciativa própria, que não foi encomendada. Nem o "ator" dito "solitário" foi industriado visto que não é membro de qualquer organização..Por outro lado, defendo uma conceção ampla e elástica de saúde mental e da sua íntima ligação com a ação criminosa violenta de matriz ideológica..E como surge a relação com a saúde mental?.CitaçãocitacaoA proximidade entre o terrorismo e a (in)sanidade mental é crescente. Mas estamos num terreno viscoso, muito complexo, que exige enorme rigor de linguagem e terminologia.A proximidade entre o terrorismo e a (in)sanidade mental é crescente. Mas estamos num terreno viscoso, muito complexo, que exige enorme rigor de linguagem e terminologia. Não podemos comparar um "ator solitário" apenas afetado por desajustamentos de natureza psicossocial com outro que padece de afeção psiquiátrica grave, da ordem das psicoses (esse último, em bom rigor, é uma espécie de "non-lone actor" porque as perturbações dessa escala configuram frequentemente causas de exclusão de culpa e sem culpa...não há crime (nullum crimen sine culpa)..Conferem o estatuto de inimputabilidade em razão de anomalia psíquica (necessariamente grave) a que se refere o artigo 20º. do código penal português..Mas não é de agora este tipo de ameaça, pois não? Lembro-me que quando foi a visita do Para Francisco a Fátima, em 2017, este tipo de ataques também estavam no topo das preocupações das autoridades. O que mudou, entretanto? A pandemia, por exemplo, teve influência?.Nada mudou de substancial, mas a questão tem de ser sempre examinada, no quadro das acrescidas dificuldades de deteção e prevenção da atuação criminal a solo. É sempre mais difícil, qualquer que seja a área da criminalidade a considerar..A ação criminosa em grupo ou em rede, é bastante mais fácil de prevenir, detetar e neutralizar. Na esmagadora maioria dos casos, deixa rasto. Prevenir e evitar a performance violenta de "atores solitários" é tarefa árdua..É indispensável monitorizar fóruns e canais circunscritos de comunicação e conversação online. E temos hoje o problema adicional das comunicações encriptadas, tantas vezes inacessíveis..As redes sociais e inúmeros fóruns e chats privados de conversação, transformaram-se em caixas de ressonância de opiniões e juízos, amiúde sem contraditório, reforçando a radicalização ideológica e a predisposição para a violência..CitaçãocitacaoOs manifestos redigidos e difundidos por destacados e canonizados "lobos solitários", para justificarem a barbárie, ganharam estatuto e uma dimensão quase mitológica em determinados círculos da extrema-direita..Os manifestos redigidos e difundidos por destacados e canonizados "lobos solitários", para justificarem a barbárie, ganharam estatuto e uma dimensão quase mitológica em determinados círculos da extrema-direita..Projetaram-se em verdadeiros ícones. Atraem terceiros para esse mimetismo radical e passaram a figurar na história da ação terrorista..E a pandemia agravou esta tendência?.A pandemia mudou alguma coisa, de facto. Foram impostas drásticas restrições à mobilidade - requisito essencial à atuação criminosa violenta - com sucessivos confinamentos. Mas essa "moeda" teve uma outra face: a obrigação de permanecer confinado ao domicílio implicou exponencial aumento da exposição a conteúdos em linha, muitos deles apelando à radicalização ideológica e à ação violenta..Sabemos que em resultado da pandemia, emergiram os movimentos negacionistas, antigovernamentais e antissistema que têm ancoragem mais ou menos nítida na extrema-direita, advogam a desinformação, capitalizam as teorias da conspiração e no limite instigam à violência insurreccionista um pouco por toda a Europa e mundo ocidental (EUA)..O João Paulo Ventura publicou recentemente um livro -"Os "lobos solitários": terrorismo e (in)sanidade mental" - precisamente sobre esta temática, lobos solitários e a saúde mental. Quais foram as suas motivações especiais?.Nada em particular. Ou talvez vários motivos. Fui convidado pela CEPOL, a agência de formação "law enforcement" da UE, a ministrar um webinar sobre o tema, em setembro de 2021 e senti que o assunto merecia aprofundamento e uma análise mais ponderada e demorada..Até para fazer face ao défice de estudos ou trabalhos editados em língua portuguesa. A temática é muito importante, do meu ponto de vista, precisamente porque corresponde ao ponto de encontro e de convergência entre as questões da criminalidade ideologicamente inspirada e a saúde mental, ou a falta dela..A ação terrorista não é assética nem dissociada de certos timings políticos e sociais. Resolvi enquadrar o tema no contexto da pandemia COVID-19; abordei as ameaças híbridas (com impactes na desinformação e segurança no espaço cibernético) e apreciei o quadro da guerra de agressão, da Federação da Rússia contra Ucrânia, que decorre desde fevereiro de 2022..Entendo também - na idade em que já estou, depois de 37 anos ao serviço da Polícia Judiciária e mais de 36 a lidar com estas matérias - que há nisto um dever de missão geracional perante os mais jovens, dos investigadores criminais ao pessoal da academia e a outros interessados na matéria, no sentido da transmissão de dados que ajudem a decifrar realidades. É com esse espírito que escrevo, sem qualquer propósito venal ou comercial e espero ter ainda a oportunidade de prosseguir, redigindo mais alguns títulos..Quantos atentados identificou e em que espaço temporal?.Analisei 18 casos ocorridos nos últimos 45 anos, entre 1978 e 2022, em nove países, de três continentes. Agrupei os atores solitários em três categorias: os psicóticos, com doença psiquiátrica grave, que em virtude da sua consciência alterada são os únicos eventualmente isentos de responsabilidade criminal, beneficiando de causa de exclusão da culpa; aqueles que sofrem de desordens da personalidade antissocial, nomeadamente os psicopatas, que à luz da lei criminal, são considerados imputáveis e sujeitos à aplicação de reações penais; e por fim, os que revelam desajustamentos psicossociais, não estão forçosamente afetados por perturbações de saúde mental em sentido lato, mas por influência desses desajustamentos, podem passar ao ato..O "Unambomber" nos EUA foi o primeiro não foi?.Sim, foi o pioneiro ator solitário, surgido na cena do terrorismo doméstico nos EUA em 1978. Condenado a pena de prisão perpétua e recentemente falecido, o seu caso foi longamente dissecado. Curiosamente, sendo o que poderíamos designar como um ecoterrorista, animado por ideologias libertárias e insurreccionistas, foi o único localizado nos antípodas de todos os restantes 17 atores examinados, cujas performances se situavam ideologicamente ora no "jihadismo" ora na galáxia da extrema-direita criminal..Algum dos casos que analisou visou algum Papa?.Não. E a atuação de um padre espanhol que em maio de 1982 atentou contra a vida do Papa João Paulo II no Santuário de Fátima, parece-me deslocada e descontextualizada do fenómeno dos "atores solitários". O agressor era membro de um movimento anticonciliar e tradicionalista liderado por um arcebispo proscrito, o que automaticamente excluiria a sua eventual qualidade de "lone actor"..Que casos o inquietaram mais?.Todos inquietaram e de algum modo impressionaram. Todos atuaram com o fito de matar, com dolo direto mais ou menos intenso..CitaçãocitacaoAinda que não disponha de dados rigorosos que me permitam afirmá-lo categoricamente, a maioria são presumíveis psicopatas, caracterizados, para além da motivação ideológica, pela frieza afetiva e de ânimo, ausência de remorsos e de absoluta indiferença e desprezo pela sorte das vítimas..Ainda que não disponha de dados rigorosos que me permitam afirmá-lo categoricamente, a maioria são presumíveis psicopatas, caracterizados, para além da motivação ideológica, pela frieza afetiva e de ânimo, ausência de remorsos e de absoluta indiferença e desprezo pela sorte das vítimas..Acrescendo que alguns, em especial os "jihadistas" (que não-raras vezes perfilham o culto do suicídio em ação) não sobreviveram aos atentados: ou foram abatidos pela polícia nos locais ou pura e simplesmente suicidaram-se..Que padrões detetou? Que perfil é mais comum? .É difícil a caracterização ou antecipação do perfil geral dos putativos agressores, devido à diversidade de contextos que os podem motivar..CitaçãocitacaoNão há um perfil típico de sujeitos radicalizados, suscetíveis de enveredarem pela violência. A categoria dos "atores solitários" é demasiado híbrida..Não há um perfil típico de sujeitos radicalizados, suscetíveis de enveredarem pela violência. A categoria dos "atores solitários" é demasiado híbrida..No caso dos desajustados psicossociais, sem horizontes nem perspetivas de vida - para além da delinquência com que desafiam a sociedade, de que não sentem fazer parte e que alegadamente os excluiu - para alcançarem as luzes da ribalta, mesmo com o sacrífico do bem mais precioso de que (ainda) dispõem - a vida - essa circunstância é apelativa e muito perigosa. Podem assumir o fim de uma existência precária e errante, a troco da fama num instante..Os atores solitários ideologicamente motivados são mais ligados à extrema direita ou à extrema esquerda?.Muito mais à direita e ao "jihadismo", sem margem para dúvidas. O "Unabomber" é talvez o único caso suscetível de enquadramento na extrema-esquerda..Como explica isso?.É preciso entender que o terrorismo de esquerda, que hoje praticamente desapareceu, é sobretudo um produto da "guerra-fria" e do conflito Leste-Oeste..A ação terrorista de esquerda era tradicionalmente conduzida por grupos e organizações de orientação marxista e a membership dos seus operacionais excluía, por inerência, eventuais "atores" ou "lobos solitários"..Do mesmo modo que no segmento do terrorismo etnonacionalista e separatista - também praticamente em vias de extinção - não é possível conceber "atores solitários"..Pressinto também que à ausência de grupos e organizações de esquerda que hoje professem o terrorismo, corresponde menor nível ou grau de radicalização ideológica individual e porventura menor propensão para atuações violentas isoladas, desgarradas e de motu próprio..Citaçãocitacao A violência do radicalismo confessional e de direita, afigura-se bastante mais poderosa..A violência do radicalismo confessional e de direita, afigura-se bastante mais poderosa..Como as autoridades responderam a estes ataques?.Em geral as reações foram de alguma surpresa, em certos casos por causa da natureza inaudita da violência dos atentados..Estou a pensar no atentado contra o Edifício Federal em Oklahoma City, nos EUA, em abril de 1995 - com a pulverização instantânea de 168 vidas (incluindo 19 crianças que ali frequentavam um infantário e tiveram morte imediata) a que se somaram 684 feridos - ou nos inesperados cenários terroristas de Oslo e da ilha de Utoya, na Noruega, em julho de 2011 - 77 mortos e 51 feridos, na maioria crianças e adolescentes - e ainda em Christchurch, na Nova Zelândia, em março de 2019 (51 vítimas mortais e mais de 40 feridos graves)..CitaçãocitacaoAs autoridades deram a resposta possível, perante o inesperado e o inaudito ou improvável. Nalguns casos simplesmente abatendo os agressores, noutros capturando-os logo de imediato ou poucos dias depois..Diria que as autoridades deram a resposta possível, perante o inesperado e o inaudito ou improvável. Nalguns casos simplesmente abatendo os agressores, noutros capturando-os logo de imediato ou poucos dias depois..E repito aqui algo que já sublinhei anteriormente: a deteção e prevenção antecipada de "atores solitários" é extremamente difícil..Muitos nem sequer têm histórico criminal ou referenciação prévia em contextos de segurança nacional. Jamais passaram pelos radares das autoridades e surgem literalmente do nada ou do vácuo..A intenção das autoridades é sempre prevenir, detetar e evitar, atuando a montante. Infelizmente, nem sempre isso é possível e por vezes só resta reagir e responder, intervindo a jusante..Que lições aprendidas deles resultaram dos casos que analisou e que tenham vindo a ser utilizadas na proteção de personalidades de risco, como é o Papa Francisco, ou em eventos de grande dimensão como a JMJ?.CitaçãocitacaoA grande ironia é que nenhum dos casos analisados corresponde a ocorrências registadas em eventos ou a propósito da celebração de efemérides. Os atentados ocorreram no quotidiano normal e não a propósito de acontecimentos ou celebrações. Diria até que há certa tendência dos agressores para os evitar.A grande ironia é que nenhum dos casos analisados corresponde a ocorrências registadas em eventos ou a propósito da celebração de efemérides. Os atentados ocorreram no quotidiano normal e não a propósito de acontecimentos ou celebrações..Diria até que há certa tendência dos agressores para os evitar, sabendo-se de antemão que nessas situações há um óbvio reforço dos dispositivos de segurança e uma atitude muito mais vígil e ostensiva das autoridades, com o policiamento dissuasor e de proximidade e a presença física e abundante de agentes..As ilações extraídas dos casos analisados não se aplicam a eventuais alvos VIP - que aliás não foram atingidos nos 18 casos escrutinados - nem a acontecimentos de especial dimensão ou envergadura. Visaram-se muito mais comunidades étnicas e ideológicas ou selecionadas em função do seu significado simbólico..Há forma de antecipar estes atentados, detetar sinais precoces de potenciais "atores solitários"?.É insistir nas virtudes da prevenção e deteção. É o caminho de sempre e de há muitos anos a esta parte. Agora com o ingrediente acrescentado das comunicações online que são hoje o cerne da questão..Já assinalei dificuldades, mas há instrumentos que permitem esperar o reforço da prevenção e da ação em concreto. Dou muitas vezes o exemplo do Regulamento da UE destinado à identificação e remoção de conteúdos terroristas em linha, conhecido pela sigla TCO, que entrou em vigor em junho de 2022 e cuja aplicação é de caráter vinculativo e obrigatório nos Estados-Membros..Para além disso, a prevenção geral que vem da educação - e também da prevenção na área da saúde mental que é uma dimensão-chave - e da prevenção especial que está a cargo das forças e serviços de segurança (FSS) e que no fundo corresponde à prevenção criminal, assegurada por estruturas de cooperação interagências de que é melhor exemplo, em Portugal, a Unidade de Coordenação Anti-Terrorismo (UCAT)..E há sinais específicos que podem ser detetados no momento pelas forças e serviços de segurança? Digamos que na JMJ um destes indivíduos faria uma tentativa. O que poderá chamar a atenção das autoridades?.Há indicadores de risco que são conhecidos das Forças e Serviços de Segurança (FSS) em geral. Muitos desses sinais e indicadores foram identificados no curso de formação de formadores comum e partilhado entre todas as FSS - incluindo os serviços prisionais - em matéria Contraterrorismo e no domínio da prevenção da radicalização, que decorreu entre setembro e dezembro de 2017..Associando os lobos solitários aos distúrbios mentais não se pode criar um estigma em relação às pessoas que, simplesmente têm distúrbios mentais, mas nunca irão agredir ou atentar contra alguém?.Essa associação não é inevitável nem incontornável. E há uma categoria de "atores solitários" que em certa medida escapa a essa conexão. São os tais desajustados psicossociais que não padecem necessariamente de psicopatologia e não sofrem propriamente de distúrbios mentais ou de desordens da personalidade antissocial..Quando um "lobo solitário" ataca alguém, podendo até matar, e posteriormente lhe é diagnosticado distúrbio mental, podendo ser considerado inimputável, não será um precedente que permite que estes indivíduos sintam impunidade nos seus atos?.Por definição, os distúrbios mentais graves, ou os quadros nosológicos psiquiátricos mais sérios, caracterizam-se pela alteração das funções psicológicas essenciais, nomeadamente da consciência e do pensamento..São muitas vezes marcados por atividade alucinatória - com alucinações visuais, auditivas e até cinestésicas - ao ponto de aqueles que padecem de semelhantes enfermidades, nem terem a noção dos transtornos e distúrbios que os afligem..Citaçãocitacao Não se trata de comportamentos que alguém intente reproduzir ou mimetizar, porque nunca resistiriam à mais modesta avaliação psicológica ou psiquiátrica forense. De resto, não são muitos os "lobos solitários" que sobrevivem à letalidade dos atos terroristas perpetrados.Por palavras mais simples, não se trata de comportamentos que alguém intente reproduzir ou mimetizar, porque nunca resistiriam à mais modesta avaliação psicológica ou psiquiátrica forense. De resto, não são muitos os "lobos solitários" que sobrevivem à letalidade dos atos terroristas perpetrados.